Articulistas

Análise das metas econômicas

Reinaldo Cafeo
| Tempo de leitura: 4 min

Todos que iniciam seus estudos em economia tomam conhecimento da necessidade de qualquer país cumprir quatro importantes metas macroeconômicas: crescimento econômico, estabilidade de preços, geração de emprego e distribuição justa de renda

Vamos a uma breve análise destas metas. O crescimento econômico é refletivo no aumento do Produto Interno Bruto do país. A cada período compara-se o desempenho da geração de riqueza interna com o período anterior. Normalmente em trimestres indicando se, em termos reais, ou seja, descontada a inflação, o país gera mais riquezas agora do que no período anterior. Outra maneira de observar o crescimento é comparar a renda per capita. Se a renda crescer mais do que o crescimento populacional, conclui-se que o país está crescendo.

O Brasil não convive com recessão, pois neste caso teria que apurar um Produto Interno Bruto menor do que o período passado, o que não é o caso, mas convive com desaceleração. Em 2012 o crescimento ficou em 0,9% e 2013 deve fechar na casa dos 2,3%. Patamares muito abaixo da necessidade do país. Dados recentes apontam que estamos ficando na rabeira internacional, perdendo espaço para outros países emergentes. Com inflação beirando a casa dos 6% ao ano, com a necessidade de elevar juros para controlar preços, o indicativo é que este ano o pífio desempenho dos últimos anos se repita atingindo algo próximo a 2,2%, portanto, o atual governo federal não cumprirá na dimensão das necessidades internas a meta de levar o país a crescer, e não somente crescer, mas crescer de maneira sustentada.

Outra meta prioritária e tendo sido desafiadora é da estabilidade de preços. Controlar a inflação, garantindo que fique perto do centro da meta fixada pelo governo Federal que é de 4,5% ao ano, é um compromisso até social. Toda vez que os preços sobem as perdas para sociedade, notadamente as camadas mais pobres da população, são enormes. Ter a posse de um dinheiro que vai perdendo poder de compra diariamente não é justo com aqueles que não possuem mecanismos de proteção deste valor. Em 2013 a inflação ficou em 5,9%, rodeando o limite da meta que é de 6,5%, se distanciando do centro da meta. E o desempenho não foi pior devido ao represamento de inúmeros aumentos dos preços administrados como energia, tarifa de ônibus, combustível, entre outros. O governo já de olho na dificuldade em controlar eficazmente os preços já deu o tom: elevou a taxa de juros básica da economia e sinaliza que outros aumentos virão. Ao fazer isso encurta o mercado consumidor, as empresas não vendem, a produção cai, e prejudica ainda mais o crescimento econômico, já sofrível, como já colocado.

Neste contexto, fica evidente que o emprego a ser gerado será em menor intensidade. Os números de geração de emprego no Brasil em 2013 já apontaram para esta retração: o pior desempenho em 10 anos. Pela nova metodologia do IBGE para apurar o desemprego no Brasil, que ampliou o número de cidades pesquisadas, o nível de desemprego está na casa dos 7,4%, quando os números atuais, pela metodologia antiga aponta entre 4,5 e 5%. Imaginar que será possível manter e até ampliar o mercado de trabalho brasileiro com baixo crescimento, com juros nas alturas, com tantas incertezas quanto à economia nacional, é acreditar em milagre.

Com crescimento baixo, inflação pressionada e desemprego em alta é muito difícil falar em distribuição justa de renda. Em momentos de baixo desempenho econômico os mais pobres sofrem mais, quer pela falta de emprego, quer porque há menos recursos disponíveis para os programas sociais, quer ainda pela falta de oportunidades oferecidas, isso sem contar a perda do poder aquisitivo já mencionada.

Não é a toa que o Brasil deixou de ser a bola da vez para os investimentos mundiais, constituindo-se atualmente na grande dúvida econômica mundial. Não soubemos dar andamento as mudanças necessárias no modelo econômico adotado nos últimos anos e isso nos tornou presa fácil dos momentos de crise.

O pior é ainda ter que conviver com um ano com perda de foco naquilo que seria necessário para recolocar o país nos trilhos seguros, à medida que teremos copa do mundo aqui no Brasil no primeiro semestre e eleições no segundo semestre.

É momento de refletir sobre as reais condições da economia brasileira e alicerçar o planejamento tanto da vida pessoal como da vida empresarial a luz dos sinais emitidos pelo mercado. O estrategista antecipa os fatos, seja um.

O autor, Reinaldo Cafeo, é economista, diretor regional do Corecon e articulista do JC

Comentários

Comentários