Quando criança, costumava ver aqueles filmes sobre o Egito antigo e sua grandiosa cultura. Só existia uma cena recorrente que me causava fobia: as que mostravam diversos escorpiões. Geralmente, era quando o "mocinho" remexia alguma catacumba esquecida por séculos: lá estava o amontoado desses insetos que causam tanto medo.
O tempo passou. E não é preciso ver aqueles filmes para visualizar um local tão abandonado a ponto de estar infestado de escorpiões. Há outro local tão esquecido quanto as velhas catacumbas faraônicas: na cidade de Bauru, precisamente, o Cemitério do Jardim Redentor e arredores. Só que aqui, na nossa amada Bauru, no nosso cemitério, onde descansam nossos antepassados, nas residências das ruas paralelas, nós temos um "plus" de causar inveja à Hollywood: aqui também temos excesso de baratas e pernilongos, e tudo isso debaixo de nossos sapatos, quando vamos trabalhar; no box do banheiro, quando vamos tomar banho; debaixo de nossas toalhas; nos travesseiros, quando vamos dormir. Nem é preciso mexer uma catacumba como naqueles filmes, basta ficar em casa. Ou seja, estamos ganhando!
E temos cenas tão tristes nessa região da cidade que se fossem parte de um filme, iria emocionar muito mais que qualquer drama hollywoodiano. Dia desses, pela manhã, ao passar em frente ao Posto de Saúde que fica na rua Santa Matilde (adjacente ao cemitério infestado), os cidadãos bauruenses que estavam na fila do Posto esperando amanhecer o dia se debatiam freneticamente para se esquivarem das baratas voadoras. Hora ou outra, ouvia-se o barulho do chinelo. Já até posso imaginar que nem deram um cochilo na longa madrugada de fila à espera de um milagre que é a consulta médica: com certeza têm medo de escorpiões.
Se eu que sou morador da rua Santa Matilde, acho-os dentro de casa todos dias, imaginem quem passa a madrugada na fila do Posto de Saúde, na rua. Ou seja: o bauruense trabalha duro, paga impostos abusivos, para ter uma saúde precária e com filas e, nas filas, que se esquive das baratas e dos escorpiões. Não é o Egito ou a Europa no século 14: é Bauru mesmo, e o reflexo do abandono de seus dirigentes.
E falta de denunciar esta vergonha da administração pública não é: já o fizemos diversas vezes. Inclusive, minha família deu uma entrevista que foi veiculada pelo maior telejornal do país. O Jornal da Cidade também já publicou diversas matérias a respeito das regiões da cidade com concentração desse inseto.
Ocorre que, com o "jeitinho brasileiro", o ciclo é o seguinte: a administração pública fica a par das reclamações que aparecem na mídia; faz a dedetização, e quando acalma os ânimos, "esquece" de refazê-la. Não têm o mínimo de preocupação em colocar nas agendas um pequeno lembrete: "dedetização do cemitério, dia xis, todos os meses". Então, cá estou, de novo, no alto do meu chinelo "esmagador de escorpiões" e com a lanterninha que os caço à noite, reiniciando o ciclo, denunciando por mais uma vez neste prestigioso jornal, a penumbra egípcia que paira sobre nós. Quem sabe apareça um funcionário da prefeitura para fazer o "oneroso trabalho" de dedetizar o Cemitério do Jardim Redentor ? isso é, se não acharem que estou pedindo demais, e dando impostos de menos. Ou será preciso que paire sobre nós as dez pragas do Egito (Êxodo, capítulo 7-12) para que nossos dirigentes nos levem a sério?
Marcos Vinicius Fidencio