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Sem bússola, em mar revolto

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

A partir do momento em que vieram à luz do dia as patifarias nos mercados financeiros com a quebra do banco Lehman Brothers nos Estados Unidos em 2008, foi se tornando evidente que as políticas monetárias praticadas pelos bancos centrais nas economias ditas desenvolvidas apenas "evitavam o pior" ? enquanto o ajuste fiscal que as acompanhou destruía as finanças dos demais países cuja administração se corrompera aceitando participar irresponsavelmente do jogo dos derivativos financeiros. Operações que pareciam estimular o desenvolvimento, mas que na verdade escondiam, atrás de modelos matemáticos sofisticados, enormes apostas cujos riscos nem os governos nem seus bancos centrais entendiam.

Sessenta e quatro meses convivendo com a maior crise do capitalismo depois da Grande Depressão da década de 1930 e com a tragédia de 60 milhões de trabalhadores desempregados, ainda não se tem segurança do que fazer para sair do atual problema. Ben Bernanke, um competente teórico ? que deixa agora em janeiro o comando do Federal Reserve dos EUA após oito anos ?, desabafou numa entrevista no segundo semestre de 2013 dizendo que "estamos navegando sem bússola, em noite escura e mar revolto". A respeitada economista Janet Yellen, primeira mulher a presidir o FED, assume num momento em que as indefinições dos bancos centrais na maioria dos países apenas transmitem as incertezas que assombram os formuladores de política econômica em todo o mundo. Nos Estados Unidos é pelo menos visível que a economia está se recuperando. Na perspectiva de organismos como o FMI e Banco Mundial é uma recuperação crescente. E a sra. Yellen prevê um crescimento de 3% da economia americana em 2014.

Minha expectativa é que vamos entrar o ano de 2014 nos Estados Unidos bem melhor do que em 2013. Os efeitos do afrouxamento monetário (o "Quantitative Easing") perderam eficiência na margem, mas tornou-se claro que retirá-los (o "tapering") não é tarefa trivial. O Banco Central americano está enrascado no problema de como realizá-lo sem produzir um terremoto nos mercados financeiros mundiais. Sua confusa política de comunicação (que a sra. Yellen quer melhorar) - de anunciar um comportamento (o "forward guidance"), não limitado a condicionalidades físicas, mas apenas ao calendário da execução ? pode acrescentar problemas para a política cambial brasileira.

Não precisamos de novidades na política monetária, mas é necessário ajuda-la com uma política fiscal adequada que se comprometa de forma crível a reconduzir a expectativa da inflação para a meta de 4,5% num horizonte aceitável. Como ninguém sabe muito bem como fazê-lo, é preciso da disposição firme do governo, muito cuidado e alguma paciência.

O fato é que os Estados Unidos estão saindo da crise, e é difícil saber quando vão alcançar aquele nível de desemprego de 6,5% que estão imaginando, para calibrar o desmanche do "afrouxamento" monetário. O que se pode esperar é a recuperação da economia americana e da atividade na própria Europa, que deve melhorar ligeiramente este ano, pois tem uma redução importante dos déficits fiscais e uma quase eliminação dos déficits em conta corrente entre os países.

O autor, Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC

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