Tribuna do Leitor

Sobre radares, lombadas, enchentes e valetas


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Escrevo pois é a melhor maneira para mostrar uma profunda indignação à falta de bom senso a qual acomete as camadas administrativas dessa cidade. Como, na verdade, não sou natural daqui, sinto-me mais à vontade para observar e relatar fatos que o provincianismo do jornalismo local não consegue alcançar e muito menos repassar aos cidadãos de Bauru. Já no início do ano senti-me extremamente lesado intelectualmente (e esse é o pior tipo de crime, pois a ninguém você pode recorrer) com o aviso de que a prefeitura voltaria a colocar radares na avenida Nações Unidas.

Obviamente ela é uma avenida de passagem de fluência da cidade e necessita de fluxo rápido. A discussão acabou tacanhamente em qual velocidade (40 ou 60 km/h) esses radares deveriam ser fixados. Um douto engenheiro de tráfego da cidade inclusive comunicou que em cidades de primeiro mundo radares e lombadas não fazem parte da grande maioria de controle de tráfego, mas que a cultura do povo brasileiro não permite esse tipo de procedimento em âmbito local. Bem, explico o que há em países de primeiro mundo: medidas educativas e não punitivas! Na Europa as vias possuem as ondas verdes. Se o motorista passa a velocidade adequada àquela via, o próximo semáforo fecha fazendo com que o "esperto" fique um minuto parado.

O que o douto engenheiro não consegue perceber (e compactua) é que esse radar é apenas um caça-níquel nesse ano em que, todos sabemos, a prefeitura está no vermelho. Ou será que eu posso ter acesso aos inúmeros estudos, gráficos e fotos que demonstram que o índice de acidentes aumentou de forma brutal na avenida durante esse último ano sem o radar? Nosso povo não tem espírito questionador e aceita de forma pacata, para usar de um eufemismo, imposições sem senso. As lombadas também diminuem a velocidade dos carros. Se bem que nenhuma das que existem estão de acordo com as normas que regulam a confecção dessas e, para ser muito sincero, com a quantidade de buracos que existem em nossas ruas, as lombadas se tornam meros adornos que apenas fazem gastarmos mais combustível. Em associação ao conjunto de estruturas físicas que destroem os amortecedores de qualquer automóvel estão as valetas.

Estas originalmente servem para escoamento de águas pluviais mas, em Bauru, devido às suas profundidades hadeanas, servem também como controladores de velocidade. Desde o tempo dos romanos, entretanto, tem-se conhecimento de estruturas chamadas aquedutos. É fácil ver isso em países que pensam em urbanismo! Reparem nas bocas de lobo de nossa cidade. Elas são raras e inexistentes em alguns bairros (até na zona sul) mostrando as gestões torpes e errôneas na construção dessa cidade que tem apenas 120 anos (lembrem-se que aquedutos e urbanismo existem desde o tempo dos romanos... dos romanos...). Qual seria o produto final de uma cidade que não tem sistema de escoamento de água? Enchentes, óbvio. Desde 14 bilhões de anos atrás, com o surgimento do universo, um fenômeno imutável ocorre: a gravidade. A água se acumula nas porções mais baixas e ela se desloca até estas porções, em Bauru, por cima do asfalto e pelas valetas. Esses fatos, por mais gritantemente óbvios que sejam, nunca são tomados com respeito pelas seções administrativas.

Brasileiramente, a grande maioria de nós prefere ostentar, construindo praças com playgrounds, trazendo eventos esportivos à cidade ou participando efusivamente de eventos sociais do que trabalhar nesses pontos menos visíveis mas claramente necessários a cidade. O povo precisa acordar novamente e reivindicar com bom senso o mínimo necessário para que uma cidade funcione.

O trabalho dos administradores é árduo. Não deve ser fácil perder 80% da semana fazendo política tirando e colocando secretários para agradar a base aliada. Mas que nesses 20% restante eles pensem na população pois, afinal, nossos administradores também são bauruenses.

Renato Pirani Ghilardi

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