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Homobeijo

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 5 min

De uma novela, pouco se sabe. Como no futebol, o resultado só se conhece no fim. Até mesmo o criador da trama é vencido pela imprevisibilidade da história. Sabe-se como começa, mas nunca como termina. Criam-se o tema central e os periféricos. Criam-se personagens, figurinos, direção, locações.... Então, o juiz apita, a bola rola e daí para a frente a história não tem mais dono, nem lógica, menos ainda coerência... Tudo e nada podem acontecer. Nisso a novela copia a vida.

Estamos falando do meio, porque o fim é coisa sabida. As histórias de amor insistem em nos convencer ? acredite quem quiser - de que os amantes são felizes para sempre. Herança hollywoodiana, o amor novelesco não sabe fechar as cortinas senão através do tão esperado beijo entre o mocinho e a mocinha. Depois de sofrerem todas as injustiças e agressões possíveis ? não nos esqueçamos de que toda novela anda pelos pés dos vilões ? os pombinhos são finalmente recompensados com o rito do beijo final. Nada se inova: o "the end", colado no centro da telinha, acaba sempre etiquetando o beijo dos apaixonados. Estes sim, jovens e lindos, portadores das melhores virtudes, esforçam-se por nos convencer ? acredite quem quiser - de que o bem sempre vence o mal.

"Amor à Vida", novela do horário nobre global - esgotadas praticamente todas as suas peripécias - já marcou dia e hora para terminar. Espera-se, então, que se cumpra, uma vez mais, o rito do beijo final. Paloma (Paolla Oliveira) e Bruno (Malvino Salvador)? Claro que não: Niko (Thiago Fragoso) e Félix (Matheus Solano). Isso mesmo, a história virou de pernas pro ar e o inesperado se fez. Dezenas de milhões de espectadores, liberais e conservadores, torcem juntos pelo casal gay e, de resto, para que aconteça o tão adiado "homobeijo" na Globo.

A coisa vem de longe. O primeiro beijo gay em novela aconteceu em 2012, em "Amor e Revolução" (SBT), foi lésbico e nada técnico, posto que muito convincente: Marcela (Luciana Vendramini) e Marina (Giselle Tigre) pegaram-se pra valer. Bem antes delas, em 1963, em cena de teleteatro, na peça "Calúnia", na Tupi, Vida Alves e Geórgia Gomide fizeram a coisa ao vivo.

Na Globo, a resistência tem sido grande. Na novela "América", 2005, Glória Peres chegou a escrever o beijo entre os personagens Júnior (Bruno Gagliasso) e Zeca (Erom Cordeiro), que foi vetado. Em 2008, Aguinaldo Silva programou, em "Duas Caras", a cena do beijo entre os personagens Carlão (Lugui Palhares) e Bernardinho (Thiago Mendonça), igualmente vetada. Agora, toda expectativa renasce com possibilidade do beijo entre Niko e Felix. Sabendo, contudo, que, em novela, tudo é incerto, o beijo pode incluir o Eron (Marcello Antony). Por que não?

Seria mais um momento histórico da tevê: o beijogay derrubando o heterobeijo. Bem feito para os insossos Bruno e Paloma, que cochilaram no campo de jogo e viram, assim, a bola roubada por Niko e Félix. Os gays, exibindo talento e criatividade, roubaram as cenas, roubaram o protagonismo, roubaram até o preconceito e, de lambuja, podem roubar o beijo final. Niko, o gay bom, é leal, sincero, gosta de gente, luta pela família sonhada, um verdadeiro "carneirinho". Félix, o gay mau, coleciona monstruosidades, jogou (cruzes!!!) recém-nascido em caçamba! A bondade do Niko, contudo, já cuida de redimir o hilariante Félix. As novelas insistem na tese de que o amor ? acredite quem quiser ? tudo pode, resolve e transforma.

Seria muito bom que esse homobeijo acontecesse. Premiaria o talento dos atores e registraria nos anais da tevê ? a palavra entra muito bem no contexto ? mais um importante passo dado no combate à intolerância e ao preconceito.

Pensando assim, impossível não perceber que, para mudar esse mundo, precisamos contar boas histórias. "Amor à Vida" tem tudo de ruim que todas as novelas têm. Obrigada a esticar-se até não poder mais ? toda novela precisa ficar muito velha para morrer ? a trama de Valcyr Carrasco também paga por isso. É simplista, muitas vezes incoerente e subestima a inteligência dos telespectadores. Mas, entre mortos e feridos, a história gay da novela é bem contada. Tanto assim o é que, estando os gays em ação, a novela estoura 39 pontos no Ibope.

Que espantosa e bem vinda transformação. As coisas estão acontecendo não nas salas de jantar, mas nas salas de tevê! Quantos narizes intolerantes torcidos torcem, agora, pela vitória do amor gay. Sem que percebessem, foram, pouco a pouco, cooptados pela história. Pouco a pouco, o preconceito rendeu-se à bondade do "carneirinho" e aos trejeitos hilários do Félix. Carisma puro, Félix é arrebatador. Como não rir? Como ignorá-lo? Pouco a pouco, a massa telespectadora foi enxergando que, embaixo dos rótulos, existe coisa boa e ignorada. Pouco a pouco, foi percebendo que os caminhos são muitos e que é bom e desejável que os deixemos livres.

Que espantosa e bem vinda transformação nas salas de tevê! E pensar que tantos atores foram agredidos nas ruas por interpretarem gays. E pensar que muitas personagens lésbicas "morreram" na história, assassinadas pela intolerância do público. Foi o que aconteceu em "Torre de Babel", 1998, quando Leila (Silvia Pfeifer) e Rafaela (Christiane Torloni) "morreram" na explosão de um shopping. E quantas não foram as cenas de beijo gay cortadas e censuradas pela intolerância.

Nas salas de tevê, as pessoas tão ocupadas em morrer, foram se entregando, desarmando-se, permitindo-se ver o que não viam e, por incrível que pareça, vibrando com o amor gay. Sinal de que estamos bem próximos de uma conquista histórica: o direito de homobeijar.

O autor, Roberto Magalhães, é professor de redação, doutor em letras e autor de obras didáticas e de ficção

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