O moralismo, para o fraco, é a sua única defesa contra o forte. O forte apresenta-se naturalmente forte, irrefreavelmente superior, quer em sua inteligência, coragem, saúde ou posses. O forte é forte de nascimento ou de berço, ou de ambos. Se inteligente, corajoso, saudável ou rico, ele assim o é por nascer assim ou por viver num berço assim, ou ambos. E o forte não escolheu isso, mas ele é assim. Isto é um fato não premeditado por ele, logo, inimputável a ele.
Entretanto, o fraco reconhece a sua condição de fraqueza. Mas em vez de rejeitá-la e forçar lutas contra ela, o fraco celebra a sua pouca inteligência, ausência de coragem, frágil saúde ou pobreza. O fraco elege as suas fraquezas como virtudes! Dita que sua pouca inteligência é um valor, pois "o desconhecimento é sinônimo de inocência e pureza!". Dita que sua ausência de coragem é um valor, pois "mais vale um covarde vivo que um herói morto!". Dita que sua frágil saúde é um valor, pois "Deus dá provações a quem ele ama!". Dita que sua pobreza é um valor, pois "as vaidades do dinheiro são futilidades!".
Por isso, se acaso o fraco puder obstinar-se nos livros para desenvolver a sua inteligência, ele não o fará. Se puder ousar na vida para forjar a sua coragem, ele não o fará. Se puder cuidar-se para fortalecer a sua saúde... Se puder produzir e economizar para aumentar suas posses, ainda assim o fraco não o fará. Pois ele sabe que é mais fácil e eficaz ganhar o forte (e sua força) pelo discurso, pela imposição moral.
O fraco, então, traz o forte para o seu campo de luta: a ética dos fracos. O fraco impõe sobre o forte um pesado fardo moral; instiga e inquieta a consciência do forte, até fazer o forte ver como vício, pecado, erro ou crime aquilo que é exatamente a razão de sua força: sua inteligência, sua coragem, sua saúde ou suas posses.
O peso do acaso da vida fez do fraco um fraco, mas ele não deixa de tentar repartir esse peso com os ombros dos fortes. E os fortes ao terem a sua consciência atingida pelo moralismo, então passam a doar de si próprios para os fracos: os fortes daí dispõem de sua inteligência individual em prol da sociedade de fracos intelectualmente; dispõem de sua coragem subjetiva em prol da coletividade covarde ou acomodada; dispõem de sua saúde pessoal em prol da comunidade frágil ou doente; dispõem de suas posses particulares em prol do conjunto dos pobres ou miseráveis.
Nenhum dos dois escolhe a condição do seu nascimento. Mas, ao nascer, o forte é um predador natural, um lobo social. Enquanto, ao nascer, o fraco está sempre no plural, é um rebanho de ovelhas. Pelo moralismo, o rebanho quer domesticar o lobo, acusá-lo, condená-lo... Convencê-lo para, então, usufruir dele ? tal como ele, o lobo, por força do seu nascimento, é que poderia usufruir do rebanho inteiro.
O autor, Wellington Anselmo Martins, é mestrando em Filosofia: resenhando a ética nietzschiana / www.cafe-com-politica.blogspot.com