Aceituno Jr. |
|
|
Pôr-do-sol na tarde de ontem em Bauru; temperatura máxima na cidade ficou em 34,2 graus às 14h55, de acordo com o IPMet da Unesp |
Bauru registrou o mês de janeiro mais quente dos últimos 18 anos, segundo estatísticas do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp). No primeiro mês deste ano, a média das temperaturas máximas foi de 32,8 graus, maior do que todos os índices registrados em janeiros desde 1996, quando o órgão iniciou as medições em sua estação.
É possível, portanto, que o calor tenha sido ainda mais intenso em anos anteriores, quando o levantamento ainda não era realizado. A média histórica está 1,6 grau acima do recorde alcançado anteriormente, de 31,2 graus, em janeiro de 2011.
Da mesma forma, o pico máximo de temperatura registrado no primeiro mês de 2014 também impressiona: 35,2 graus, o mais elevado para meses de janeiro dos últimos 13 anos (leia mais na página 23).
O meteorologista do IPMet, Eduardo Gonçalves, explica que o fenômeno está intimamente associado à escassez de chuva verificada desde dezembro do ano passado e que se estendeu para o início deste ano.
“Tivemos alguns bloqueios atmosféricos durante este mês, o que não é normal. Nestes bloqueios, ocorre a circulação de ventos no alto da atmosfera, que impede o avanço de frentes frias do Sul para o Sudeste do País. E, sem chuva, as temperaturas tendem a subir”, explica.
Em janeiro, a chuva acumulada foi de apenas 104,4 milímetros, a mais baixa dos últimos 22 anos para meses iguais. Gonçalves relata que as causas para explicar o fenômeno ainda não foram identificadas, mas, de antemão, sabe-se que não se relacionam com o El Niño ou La Niña.
“O que a gente sabe é que este tipo de bloqueio ocorre mais comumente no inverno, que é caracterizado pelo tempo seco”, frisa. E, exatamente pela falta de chuva, os índices de umidade relativa do ar também têm ficado abaixo da média para esta época do ano.
Nesta semana, o nível chegou a cair para 25%, considerado estado de atenção. Se a umidade é típica do período de inverno, as temperaturas, segundo o meteorologista, são características da primavera, quando os termômetros costumam atingir seus níveis máximos.
Combinação danosa
E esta combinação pode gerar efeitos danosos ao organismo humano, à agricultura e até mesmo aos animais (leia mais abaixo). Por conta do calor associado à baixa umidade, as pessoas podem sofrer desde uma simples queda de pressão até mesmo uma insuficiência renal, conforme explica Luiz Antônio Sabbag, diretor do Departamento de Urgência e Emergência (DUE), da Secretaria Municipal de Saúde.
“Exposição ao sol quente, com esforço físico e hidratação inadequada podem provocar desde uma queda de pressão, até uma insolação intensa com crises convulsivas”, relata. Também por conta do calor, os alimentos tendem a se deteriorar mais rapidamente, o que pode levar a uma intoxicação alimentar acompanhada de diarreia e vômitos.
“Para as crianças, que tendem a se desidratar com maior facilidade, é um risco grande”, pontua Sabbag. Ele explica que idosos também são mais vulneráveis a desidratações, porque tendem a ingerir menos água por não sentir sede, o que pode desencadear, inclusive, quadros de insuficiência renal aguda.
Além disso, o calor durante a noite prejudica o sono, deixando as pessoas mais irritadas e com os níveis de concentração reduzidos. “A recomendação é simples: permanecer, sempre que possível, em locais ventilados; não se expor ao sol quente e ingerir muito líquido”, ensina.
Previsão
Para este fim de semana, a previsão é de que o tempo permaneça seco e com registro de altas temperaturas em Bauru. No sábado e no domingo, os termômetros devem oscilar entre 21 e 35 graus. Somente a partir da segunda-feira, há possibilidade de ocorrência de chuvas isoladas.
Menor chuva em 22 anos
Janeiro de 2014 também ficou marcado por ter registrado a menor quantidade de chuva para o mês nos últimos 22 anos em Bauru. Em janeiro deste ano, a chuva acumulada foi de apenas 104,4 milímetros.
Para se ter uma ideia, em janeiro do ano passado, choveu 284 milímetros na cidade e, em 2011, 496,1 milímetros. Índice inferior ao de 2014 só havia sido alcançado em 1992, quando choveu 96 milímetros.
Produtor de hortaliças lamenta perdas
O calor e a falta de chuvas já trouxeram prejuízos ao produtor de hortaliças João Masao Himeno. Como ele não utiliza estufa, mesmo depois de irrigar a plantação de duas a três vezes ao dia, o substrato utilizado para fertilizar o solo acaba secando, o que impede as mudas de se desenvolverem.
“Esse tempo não está ajudando. A alface, o almeirão, a rúcula e o cheiro verde são os que mais sofrem. Uma grande parte acaba não vingando”, lamenta. Mas, de maneira geral, a agricultura não tem sentido significativamente os efeitos do calor e da escassez de chuva deste mês.
Segundo Maurício Lima Verde, presidente do Sindicato Rural do Estado de São Paulo em Bauru e vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp), a maioria das plantações desta época do ano – e também as pastagens – não estão sendo prejudicadas porque, mesmo com o menor volume de chuva acumulado, a água continua a cair esporadicamente.
“Os produtos que estão na safra da primavera, como milho, algodão, feijão, arroz e soja, estão na fase de crescimento. Já choveu em janeiro e, daqui a pouco, vai chover de novo. Apesar de menos frequentes, essas chuvas de verão já são suficientes para garantir a produção”, frisa.
No asfalto, trabalhadores sofrem
Se a falta de chuva contribui para que as obras de pavimentação e operações tapa-buracos sejam executadas com maior agilidade, o calor e a baixa umidade penalizam os trabalhadores que lidam diariamente com a massa asfáltica, que pode chegar a uma temperatura de 160 graus.
“O rendimento acaba caindo um pouco, porque o sofrimento aumenta mesmo. O ideal era que a temperatura ficasse abaixo dos 30 graus”, comenta o secretário municipal de Obras, Sidnei Rodrigues. Com exceção deste desgaste, segundo ele, o verão de chuvas escassas só traz benefícios para a pasta.
“Estamos com várias frentes de trabalho de pavimentação e construção de sistema de drenagem. O calor ajuda porque não interrompe o serviço e ajuda na secagem das obras”, observa.
Fogo em mato
Por conta da baixa umidade relativa do ar, os bombeiros têm recebido maior número de chamados para combater fogo em mato do que o esperado para esta época.
Segundo o coordenador da Defesa Civil, Álvaro de Brito, o aumento ocorre devido à ausência de chuvas e ao intenso calor. “Esta combinação baixa a umidade e qualquer faísca pode provocar incêndios em terrenos com mato alto e seco”.
