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O silêncio como testemunha

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 6 min

Os roubos estão aumentando. Os furtos estão diminuindo.  Mas, no dia a dia da população, além de não haver muita diferença entre uma coisa e outra, para quem é vítima ou de furto ou roubo, o que fica é o medo, o prejuízo e a frustração.

Agora vem o pior: praticamente entre todas as vítimas impera uma lei antiga - a lei do silêncio, fruto do medo de retaliação, de que o crime se torne uma constante. Comerciantes estão trocando de profissão, outros estão fazendo a segurança como podem. E a coisa mais difícil é fazer alguém falar sobre o episódio do qual foi vítima. E quando falam todos têm uma história de terror e temor para contar. Mas a condição é a mesma: não aparecer.

 

Assaltado cinco vezes em um mês - “Mando arrumar o vidro, quebram de novo”

O comerciante C. está rindo para não chorar. Não podemos nem dizer direito em qual região está o seu estabelecimento, também na área de alimentação. Mas no último sábado, dia 25, estava lá registrado o quarto boletim de ocorrência em um mês. E na quinta-feira, dia 30, o quinto.

Desde a madrugada do Natal, ele teve seu estabelecimento arrombado cinco vezes. Fazem a festa. Levam o estoque de comidas. Em alguns casos até fritaram ovos na cozinha. Entram ou pelo telhado ou pelos banheiros. Quebram os vidros. Ele manda arrumar. Quebram de novo. Está se sentindo impotente.

 

Vizinhos indesejados - “Pagar para vigiar não adiantou”

C. tem certeza de que é algo relacionado a novos habitantes de outro estabelecimento que fica próximo e está praticamente abandonado. O antigo dono vendeu e enquanto o novo não toma posse e não faz novos investimentos os moradores de rua, visivelmente drogados, se instalaram no local. O JC esteve lá de manhã, de dia claro, e viu a movimentação. Estão montando praticamente uma casa em dois cômodos. Por toda a região há sujeira, colchões, alimentos podres, roupas jogadas, papelões, enfim, sinais da presença de usuários de drogas. Em um dado momento uma pessoa até varria sua “nova casa”.

O comerciante até fez um acordo com esses seus novos vizinhos para que, após o segundo ataque, tomassem conta do local. Tipo assim “olha, estão me roubando, por favor, me ajude e eu te pago” (coisa que a polícia não recomenda porque cria uma milícia paralela). E de fato, não adiantou. Além de pagar os novos “vizinhos” foi novamente visitado por três vezes.

 

Pedido de ajuda - “Alguém tem que ajudar, mas quem?”

Ontem, por telefone, visivelmente desanimado C. disse estar pensando em fechar o estabelecimento. Mudar de ramo. “Mas é difícil, tenho uma freguesia, estou há 11 anos estabelecido aqui, não dá para jogar uma vida fora. Vivo disso. Alguém tem que fazer alguma coisa”.

E sofre calado à espera de “alguém que faça alguma coisa” contra os novos vizinhos que se apoderaram do local próximo, que o novo dono em vez de esperar a valorização da área, faça ali um empreendimento melhor. “Eu não tenho poder para isso. Alguém teria que ajudar, mas quem?” pergunta-se. “A polícia só comparece se houver uma vítima física, isso é notório”, resigna-se.

 

Popularização do celular se tornou ‘vilã’

Um dos grandes facilitadores nos roubos a pedestres é a distração da vítima. E, nesse sentido, a polícia explica que a grande popularização dos celulares se tornou uma “vilã”. É que as pessoas, hoje, trocam a atenção pelas ligações e mensagens instantâneas.

“É uma obrigação de todo mundo zelar pela própria segurança. E não é bem isso que ocorre muitas vezes. As pessoas andam distraídas. E o celular é muito responsável por isso. É só você reparar o tanto que as pessoas andam e, ao mesmo tempo, mandam mensagens, ouvem músicas, falam ao telefone ou até estão jogando”, aponta o oficial de relações públicas do 4º BPM-I, capitão Fabiano Serpa.

Além da atenção, há vários conselhos de segurança primária para dificultar a vida do ladrão. “Uma boa dica é evitar rotinas. Se você faz sempre um determinado caminho, tente mudar. Mudar tanto o percurso quanto os horários”.

Exatamente por conta do perfil dos assaltantes – grande parte usuários de drogas -, o capitão recomenda às vitimas a nunca reagir. “Não se sabe o estado do criminoso. Por isso, a pessoa não deve esboçar qualquer reação, principalmente quando o assaltante estiver armado ou ameaçar estar”, aconselha.

Caso o crime tenha ocorrido, o ideal é acionar o 190 o mais rápido possível. “A pessoa deve tentar memorizar o máximo as características físicas e as vestes do criminoso”, finaliza Serpa.

 

O outro lado: ações pontuais e sociais

A priori, a Polícia Militar não recomenda as pessoas ficarem quietas. Para ela, esse é o pior caminho para a impunidade. “Ainda somos o melhor para conseguir uma ação pontual eficaz”, diz o   oficial de relações públicas do 4º Batalhão da Polícia Militar do Interior (4º BPM-I), capitão Fabiano Serpa. Ele lembra que a polícia só vai poder agir se as pessoas se manifestarem.

O capitão lembra que para a polícia chegar até a população e minimizar a sensação de intranquilidade é preciso também que a população a procure. “Temos que saber o que acontece, esse ainda é o melhor caminho. Temos que ser avisados pelo 190. Afora isso ele lembra que há as polícias comunitárias nos bairros para quem não pode se deslocar até a base. Basta chegar lá e denunciar o que está ocorrendo. Inclusive, o sigilo sempre será mantido.”

 

Multa contra invasões

Por outro, lado há algo que a prefeitura pode fazer quanto aos imóveis que deixados de lado por seus donos, proporcionam excelente abrigos e até moradias para usuários de crack.

Em casos de imóveis particulares em que seja constatada a falta de manutenção do local, a Divisão de Vigilância Ambiental realiza a notificação do responsável, com multas que variam entre R$ 114,50 e R$ 4.350,00, dependendo da gravidade da situação encontrada e havendo descumprimento das determinações.

Então, é bom a população não ficar quieta e de novo, a lei do silêncio não é a melhor medida. Com os imóveis limpos e bem vigiados (responsabilidade dos donos) fica mais difícil de se tornarem abrigo para usuários de drogas com todas as consequências que isso implica.

 

Ação social conjunta

Mas e daí? Expulsos das casas que lhe servem de abrigos, os popularmente chamados “noias”  vão, claro, acampar nas ruas. Isso não vai por si só resolver a situação. Não, é preciso ação social, todos concordam. Nesse sentido a Secretaria Municipal do Bem Estar Social (Sebes) mantém um espaço público exclusivo para a população de rua. Fica na quadra 13 da rua Joaquim da Silva Martha. É um local onde “oferta provisões de alimentação, condições para higiene pessoal e guarda pertences”, informa a assessoria da Prefeitura.

Além disso, a Secretaria Municipal de Saúde mantém o Caps AD que oferece atendimentos psicossocial aos dependentes químicos através de uma equipe multidisciplinar e que mantém convênio com duas comunidades terapêuticas com 25 vagas masculinas e 15 femininas, em caso de necessidade internação.

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