Morreu, na manhã desta quinta-feira (6), o ex-presidente da Academia Bauruense de Letras (ABL), Munir Zalaf. Ele tinha 87 anos e estava internado há um mês no Hospital da Unimed. Após piora do estado geral de saúde por uma pneumonia, não resistiu.
Zalaf morava no Jardim América há anos e teve uma trajetória de destaque como autodidata na literatura, escrevendo quatro livros. Trabalhou na Tilibra e Plasútil e era reconhecido como homem de muitos amigos e dedicado à família. Viúvo, ele deixa dois filhos: Munir Zalaf Filho e Mariú, além de dois netos: Bianca e Lucas.
O velório ocorre no Terra Branca (salão 1, Centro) a partir das 12h30. Às 17h, o cortejo segue para Piratininga, onde enterro será no cemitério local às 18h.
João Rosan |
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Munir Zalaf tinha 87 anos e estava internado há um mês no Hospital da Unimed |
Confira abaixo a transcrição de "Entrevista da Semana" da repórter Ana Paula Pessoto com Munir Zalaf, publicada em 2009:
Beirando os 83 anos, a expressão no rosto de Munir Zalaf não tem o cansaço comum aos que já viveram e passaram por muitas experiências. Ao contrário, seus olhos azuis deixam transparecer um desejo de viver e “fazer mais” típicos de adolescente. E qual seria o segredo? “Não existe segredo, menina. Eu me pergunto muito, me questiono e discuto muito comigo e, nesses desafios que eu me faço, eu vivo e me mantenho vivo”, diz, sempre com os o rosto cheio de alegria.
Há oito anos Muniz é presidente da Academia Bauruense de Letras e se mostra um apaixonado pela literatura. Tanto é que tem três livros publicados, dois prestes a serem lançados e um outro sendo planejado. “Tenho muita coisa para escrever e passar para as pessoas”, diz sobre o que espera com suas obras.
Assim como a maioria dos jovens, Munir Zalaf teve sonhos, paixões.... E se aventurou nos chamados da vida. Aos 26 anos deixou a pacata Piratininga para trabalhar nos palcos cariocas com um dos nomes mais consagrados do teatro brasileiro: Bibi Ferreira.
Brilhou e foi galã, mas o chamado artístico não foi maior que o do amor e, por medo de perder a mulher amada, o jovem Zalaf deixou a Cidade Maravilhosa, voltou para o Interior de São Paulo, se casou, teve dois filhos e se tornou funcionário administrativo.
Atualmente é casado com Ana Murça, uma mulher 35 anos mais jovem que ele, pela qual enfrentou preconceitos e vive um grande amor aos 82 anos. Histórias e experiências de vida, aventuras como galã de teatro, literatura, amor e fé são os principais assuntos da entrevista Confira.
Jornal da Cidade – Como foi sua infância?
Munir Zalaf – O menino Munir começou a trabalhar com 12 anos e desde então não parou. Não posso negar que tive uma infância feliz. Meus pais eram maravilhosos, me davam carinho extremo, plena liberdade de ação e me educaram de uma forma que eu pude me estruturar para o futuro.
JC – O que significou essa plena liberdade de ação?
Munir – Liberdade de escolhas. Meus pais sempre me diziam: “Você escolhe, meu filho”.
JC – E qual foi sua primeira escolha de vida?
Munir – Na verdade foi uma necessidade: o trabalho. Quando alcancei a fase do raciocínio, senti que existia uma tendência artística em mim e cheguei a fundar em Piratinga, onde morávamos, um teatro para estudantes. Eu dirigia e encenava as peças. Foi nessa época que conheci e me apaixonei pela minha primeira esposa e mãe de meus filhos, com a qual fui casado até o seu falecimento.
JC – O senhor se casou novamente.
Munir – Sim. Fiquei viúvo por quatro anos até que conheci minha atual esposa em Pederneiras, quando fui convidado a fazer um trabalho cultural na cidade. Nos apaixonamos, estamos casados há oito anos e não tenho receio nenhum em dizer que a amo profundamente e sinto reciprocidade nesse amor que passou por momentos difíceis no início devido a preconceitos.
JC – Que tipo de preconceitos?
Munir – Sou 35 anos mais velho que ela. Mas superamos o preconceito das pessoas com o nosso amor. Ríamos dos olhares curiosos e andávamos de mãos dadas em lugares públicos, e ainda fazemos isso. Para você ter idéia, não nos desejamos “bom dia” ou “boa noite” e sim nos olhamos e dizemos “eu te amo”. Ela é uma mulher extraordinária e sou muito apaixonado por ela.
JC – O senhor já foi galã de teatro.
Munir – Fui, minha filha! Tudo começou quando o grande ator do teatro brasileiro, Rodolfo Mayer, veio a Bauru para interpretar o monólogo “As Mãos De Eurídice”. Eu ainda morava em Piratininga mas vim assistir. Endoidei com aquilo, me apaixonei pela peça e pelo teatro. No dia seguinte voltei a Bauru para conversar com ele, que me recebeu com uma elegância surpreendente. Ele me deu dicas, inclusive sobre o monólogo. No dia seguinte fui correndo para São Paulo procurar o livro, voltei para Piratininga, pedi demissão do meu emprego em uma fábrica de refrigerantes e disse para minha mãe que seria artista.
JC – Qual foi a reação dela?
Munir – Ela me disse: “Toque o barco, filho!”. Então comecei a estudar o livro. Levei mais de 90 dias para decorar o monólogo. Eu ensaiava em frente ao espelho. Estreei em Piratininga e passei a fazer temporadas pelas cidades da região. 60% da renda eram em benefício de entidades assistenciais e o restante para mim, pois precisava sobreviver. Durante esse tempo, fui contratado para fazer uma semana de espetáculos no Teatro Municipal de Campinas. Sabe quem estava na platéia na minha última apresentação?
JC – Quem?
Munir – Bibi Ferreira. Quando terminei o espetáculo ela foi falar comigo, me convidou para jantar e fomos comer na casa de um tio meu que morava na cidade. Depois do jantar, voltamos para o teatro e ela pediu que eu representasse só para ela. A emoção foi inenarrável. “As Mãos De Eurídice” é um monólogo que exige do ator muito fôlego e talento. Há cenas de angústia, tranqüilidade, loucura, desespero...Cenas de todas as emoções que você possa imaginar. Então comecei a interpretar, ela se levantou e começou a me aplaudir. Bibi me convidou para trabalhar com ela porque tinha uma peça “Madame Bovary”, de Flaubert, em que o ator principal precisava ter as minhas características físicas, timbre de voz e expressões faciais. Eu topei.
JC – O que mudou depois de aceitar o convite?
Munir – Voltei para minha cidade e esperei o telegrama que indicaria a data para o começo dos ensaios. Quando chegou, saí de Piratininga, uma cidade com 10 mil habitantes, e fui para o Rio de Janeiro. Que loucura!
JC – É... A diferença é realmente imensa.
Munir - Chegando ao Rio, um primo me arrumou um quarto de pensão para morar. Entrei no quarto e comecei a chorar. Pensava comigo mesmo: Munir, que loucura é essa? O medo me invadiu. Saí de uma cidadezinha que amo apaixonadamente, aos 26 anos, e fui para a capital do Brasil na época. Foi uma aventura, uma loucura. Mas respirei fundo e pensei: Cheguei até aqui para vencer e vou vencer.
JC – O senhor foi feliz com essa “loucura”?
Munir – A infelicidade para mim não existe. Fui extremamente feliz e assustado. Comecei os ensaios e a estréia foi somente para convidados especiais, como a imprensa e os críticos. A noite seguinte foi de estréia para o público. Cinco minutos antes de entrar no palco, Bibi me chamou e disse que havia se arrependido de ter me escolhido. Fiquei com tanta raiva que fiz a maior apresentação da minha vida. Ela fez de propósito para eu dar o melhor de mim, e agradeci depois.
JC – Fez outras peças importantes depois de Madame Bovary?
Munir – Fiz várias peças com a equipe da Bibi.
JC – Por que deixou o teatro profissional?
Munir – Por amor. Quando fui para o Rio de Janeiro já namorava a Zuleica, minha primeira esposa. Meu sogro me chamou e disse que eu deveria escolher entre o teatro e a filha dele. Naquele tempo, havia um preconceito muito grande contra os artistas, éramos considerados marginais. Eu disse a ele que amava muito a filha dele, mas escolhi o teatro. Eu sentia necessidade de fazer teatro, a vida me pedia isso. Então desmanchamos o namoro. Porém, nos correspondíamos por cartas e telefone. Até que um amigo meu me telefonou e disse que ela estava sendo cortejada por um fazendeiro que iria pedir a sua mão em casamento. Quando ele me disse isso, a primeira coisa que fiz foi procurar a Bibi e pedir a rescisão do contrato. O amor que eu tinha pela Zuleica falou mais forte.
JC – Onde foi trabalhar quando voltou?
Munir – Antes fui para São Paulo e trabalhei na Votorantim. Voltei e trabalhei na Tilibra por 20 anos. Aos 65 anos, já aposentado, a Plasútil me convidou para trabalhar. Eu fiquei muito feliz com o convite, principalmente pela idade que tinha. Sem desmerecer as outras empresas, eu digo que, como funcionário administrativo, os anos em que trabalhei na Plasútil foram os mais felizes.
JC – O senhor ganhou dinheiro com o teatro?
Munir – Sim, bastante. Porém, esbanjava. O artista precisa estar em evidência, então, as gravatas eram importadas, as noites eram as mais caras. Praticava a boemia sadia.
JC – Boemia sadia?
Munir – A boemia sadia é participar das festas dentro dos limites que a sua consciência, consenso e sua formação lhe permitem.
JC – Como se envolveu com a literatura?
Munir – Quando menino não podia comprar livros porque era pobre. Então, pedia emprestados porque não havia bibliotecas públicas como hoje. Os adultos se surpreendiam com meu interesse. Até que um dia escrevi um verso para uma namoradinha, foi quando me apaixonei pela poesia e comecei a fazer versos. Meu primeiro livro “Fantasmas e Fantasias” foi editado pela Tilibra em 1983.
JC – Quais são as suas outras obras?
Munir – Hoje tenho três livros publicados: “Fantasmas e Fantasias”, poesias e crônicas; “Soluços na Minha Rua”, onde conto minhas experiências e o que fiz com elas a partir dos meus 75 anos de idade; e “Lá fora”, um livro onde focalizo a esperança, mostro e afirmo que em circunstância nenhuma da vida as pessoas devem deixar a esperança “lá fora”.
JC – Tem obras no forno?
Munir – Sim. Em fevereiro meu quarto livro será publicado. Ele é baseado em uma experiência pessoal. Tive um problema de saúde e fiquei 14 dias em coma. Quando saí daquele estado, quis Deus que eu me lembrasse de tudo o que aconteceu naqueles 14 dias, inclusive a chamada experiência da quase morte, a experiência fora do corpo. Fiquei mais de dois anos fazendo pesquisas sobre o assunto e resultou no livro “Os cinco sóis”.
JC – Fale sobre a presidência da Academia Bauruense de Letras?
Munir – Cheguei através da Celina Lourdes Alves Neves, fundadora da casa. Sou membro da academia há 12 anos e estou na presidência há oito. Em novembro teremos novas eleições, mas ainda não sei se vou concorrer.
JC – Além da literatura, quais são suas outras paixões?
Munir – Gosto muito de pescar. Acho que o único momento em que o homem não peca é quando ele está pescando.
JC – Qual é seu sonho hoje?
Munir – Continuar merecendo de Deus o tempo que ele está me dando, porque tenho muito a escrever e a falar em minhas palestras sobre incentivo à leitura e o sentido e experiências de vida. É preciso saber viver, menina.
JC – Quem é Deus para o senhor?
Munir – Ele é meu confidente, aquele com quem eu converso. Ele me responde nas estrelas, e em todas as manhãs. É existência, é fonte, é presente, é tudo!