Às vezes elas chegam com uma vassoura na mão. É para varrer os cacos de vidro espalhados nas escadas, fruto de “arruaças” e “festas” dos andarilhos que pernoitam por ali. E as bebidas consumidas não costumam ser poucas. A água cada um tem que trazer a sua. Sempre de garrafinha em punho, pois não há bebedouro por ali. Mas isso não intimida o grupo. Um a um, eles e elas vão subindo e descendo as escadas azuis do Parque Vitória Régia e fazendo os exercícios.
Subir com as mãos para trás, quase de quatro, como se engatinhassem é excelente para fortalecer os braços. “Nosso destino é bracinho durinho pra dar tchau sem vergonha”, brinca uma das participantes. E dá-lhe suor.
Degraus com nova utilidade
Todo sábado, às 18h ho horário de verão, a rotina se repete. O grupo que se chama “Legião” é composto de homens e mulheres (mais mulheres do que homens) e está lá para, usando as escadarias do espaço público, cuidar do corpo, modelar as pernas, tornear as formas enfim, melhorar o físico.
E o local não poderia ser o mais apropriado: o auditório do Vitória Régia. Mais precisamente as escadarias que ali estão para abrigar o público quando há eventos musicais. Agora, os degraus ganharam mais uma utilidade.
Ideia de Eve
A ideia partiu de Eve Scott, empresária e atleta. Ela pratica esportes desde a infância e mudou radicalmente seus hábitos alimentares há doze anos. Desde então, Eve Scott mantem uma rotina de treinos profissionais.
Como é apaixonada pela natureza, quis aliar o esporte com o ar livre. Convidou umas amigas e lá foram, no dia 13 de dezembro passado. No dia marcado só uma pessoa apareceu. Mas pensa que Eve desistiu? Não. A semente estava lançada e foi só uma questão de tempo. E um tempo bem rápido. A ideia foi bem recebida e rapidamente difundida. Hoje são 52 pessoas no grupo.
Atletas entusiasmados
Anderson Junior Alba, 28 anos, motoboy, praticante de jiu-jitsu, foi dos primeiros a se juntar a Eve Scott. “Surgiu a ideia de um treino fora da academia, ao ar livre e, sem marcar nada, fomos eu e um amigo para o Vitória. Chegando lá estava a Eve e mais uma amiga. Não deu outra, nos juntamos” lembra Anderson.
Ele, que já foi jogador de futebol (jogava em times do amador de Bauru) lembra que sair de dentro de uma academia é muito legal “porque a gente se sente bem, vai arejar a mente, é muito bom mudar um pouco de ares”. Por isso ele defende a existência do grupo, onde os treinos são bem intensos, “queima bastante calorias, especialmente agora que está um pouco quente, e o legal é que cada um faz no seu ritmo, em geral, por segurança a gente desce correndo os degraus menores e sobre os degraus maiores”. O treino dura em média 40 minutos. Haja fôlego, ‘né’ Anderson? “Mas para mim é ótimo, estou adorando”.
Pouca infraestrutura
Como a atividade está em alta e deve se tornar uma boa opção para os frequentadores de academia em Bauru, uma coisa fica clara: já, já o grupo tem que se mobilizar em busca de uma infraestrutura melhor. “Nesse sentido temos sérios problemas. Não há bebedouros, os banheiros são intransitáveis”, constata Eve.
“Tenho a intenção de formalizar essas solicitações básicas aos órgãos competentes (no caso à Prefeitura que é a administradora do local). Creio que muitos se beneficiariam dessas melhorias, inclusive as famílias. Muitas mais podem utilizar essas áreas públicas para lazer e não utilizam por isso”.
Segurança
Um outro problema ronda o grupo: a segurança. Como, igualzinho a todas as praças públicas da cidade, o Vitória Régia não tem policiamento, nem vigilância, está tomado por vândalos, andarilhos e muitos drogados.
Aliás, foi justamente para ajudar na segurança que Anderson e o amigo se juntaram a Eve e Janaina logo de cara. “Com mais gente junto fica difícil os ‘nóias’ mexerem ou roubar”, lembrou ele. “ E agora, com tantos praticantes, além de mudar a cara do cartão postal da cidade o grupo com certeza terá outro tipo de atenção”.
Em tempo: se você tem o perfil dos praticantes, basta chegar. Aos sábados no finalzinho da tarde. Será bem-vindo por essa legião.
Encontro como atividade complementar
Por enquanto os encontros são só aos sábados. Não se pensa ainda em algo diário e são complementares. Janaína lembra que “todos os participantes têm suas rotinhas diárias em diferentes academias. Nosso treino é mesmo algo complementar”.
Aliás, Eve Scott bate nessa tecla: é uma atividade aberta a todos. Ela, inclusive, faz questão de que tenham um acompanhamento de técnicos ou professores para a aula render mesmo. “Não sou personal ou professora, sou atleta, então é sempre bom ter acompanhamento” frisa. “A legião é composta de pessoas que treinam em diferentes academias. Só há custo quando o professor contratado cobra pela aula. Daí o valor é rateado entre os participantes. Todos estão convidados, mas somente permanecem no grupo aqueles que mantêm uma rotina de frequência nas atividades”, lembra ela.
Professora e personal training
Quem está adorando a ideia e a existência do grupo é a ex-atleta da seleção brasileira de polo aquático Janaina Parra Grossi. Hoje personal training, formada em educação física, ela é das integrantes de primeira hora no grupo.
“Tem um monte de meninas que segue a Eve, então a ideia dela foi ótima e num instante o grupo inchou, está tudo muito bom”, lembra Janaina.