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Entrevista da semana: Tito Pereira e Sandra Macedo


| Tempo de leitura: 6 min

João Rosan

Casal está junto desde o final da década de 1970

Pelo amor e pela cultura. Assim vive o casal Tito Pereira e Sandra Macedo, fundadores do Instituto Yauaretê, voltado para a cultura tradicional, onde entra o folclore, a cultura caipira, a cultura negra, o patrimônio histórico... O instituto é um trabalho voltado para a pesquisa e foi eleito há alguns anos como um Ponto de Cultura. “Estamos terminando o projeto chamado Identidade Cultural de Bauru e Região, onde trabalhamos em mais de 30 cidades para identificar os aspectos culturais de cada uma dela”, acrescenta Sandra.

 

Tito e Sandra se conheceram em Manaus, um dos locais onde ele, major aposentado, trabalhou nos tempos de Exército, e onde ela nasceu e cresceu. “Viemos para Bauru por causa de uma das minhas transferências. Hoje sou um bauruense fanático”, diz ele. 

 

Juntos desde o final da década de 1970, o casal tem três filhas, dois netos e conta, hoje, um pouco da sua luta pela preservação e difusão da cultura tradicional e do folclore brasileiro. 

 

 

Jornal da Cidade - Como vocês se conheceram?

 

Sandra - Em Manaus, no final da década de 1970, quando ele foi transferido de Brasília para lá por uma questão profissional. Em três meses nós namoramos, noivamos e nos casamos. Tivemos três lindas filhas e já temos um neto e uma neta. 

 

 

JC - Quais caminhos trouxeram o casal a Bauru?

 

Tito - Também foram os meus caminhos profissionais. Na época, eu estava no Exército. Sou major aposentado. Minha carreira de militar começou em Lins, depois fui para São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Manaus, fronteira do Brasil com a Colômbia e para Bauru. Agora sou um bauruense fanático (risos).

 

 

JC - Quais são as lembranças do Exército?

 

Tito - Eu estava fazendo faculdade de odontologia quando estourou a “Revolução de 64”. Eu era jovem e participei nas ruas. Lembro-me dos protestos e aquela coisa toda. E foi naquela época conturbada, de mudança de governo, que eu entrei para o Exército. Lá, eu vivenciei outro mundo. O olhar externo é um e o interno é outro. Atuei como dentista durante 35 anos.        

 

 

JC - Como foi ter nascido e crescido perto da floresta Amazônica, Sandra?

 

Sandra - Eu vivi em Manaus até os 26 anos de idade, ou seja, toda a minha infância e adolescência foi passada lá. Eu fui criada no meio dos mitos, ritos e das lendas. Há muita diferença, hoje. Manaus se tornou uma cidade muito moderna. Mas nem sempre foi assim. Sou de 1958 e viajava muito com meus avós pelo interior do estado e vivi no meio de botos, encantos, iaras... Uma infância muito rica mesmo. 

 

 

JC - E quando essa cultura tradicional e esse olhar folclórico passaram a fazer parte da vida profissional de vocês?

 

Sandra - Bem, quando eu vivia no Amazonas, eu não conseguia vislumbrar a importância de tudo isso, até mesmo por viver diariamente aquela realidade. Mas, quando vim para o Sudeste, especificamente para Bauru, eu me perguntei: Meu Deus, cadê a minha farinha, o meu peixe, o meu açaí, meus rios, mata, lendas...? Eu procurava e não encontrava nada. Fiquei perdida e só chorava. 

 

 

JC - Como encontrou?

 

Sandra - Andando perto do Centrinho, para conhecer a cidade, um senhor com um garotinho nos parou e disse: “Maninha, você sabe onde tem uma taberna?” Eu identifiquei o sotaque na hora e o abracei como se estivesse encontrando um irmão de sangue. Ele veio a Bauru para o filho fazer uma cirurgia de lábio leporino. Convidamos os dois para comer em casa e tive a ideia de fazer uma casa para receber o pessoal do Norte e ajudá-los por aqui. Mas não deu certo. Ficamos recebendo essas pessoas em casa por muito tempo. Depois eu fui fazer faculdade de serviço social na Instituição Toledo de Ensino (ITE) e uma das disciplinas era antropologia. Começamos a trabalhar com o folclore. 

 

Tito - E foi por causa dos estudos dela que eu me apaixonei pelo assunto, através das palavras do Câmara Cascudo. Ela passou a repensar o estado dela e me mostrou esse universo. Eu tinha vivenciado o universo caipira na prática, mas isso aflorou em mim a partir de então. Mas antes de vir a Bauru passamos por alguns perrengues, já casados, vivendo na em um lugar que não tinha nada, nem peixes, porque o Rio Negro é pobre em peixes. Era na fronteira do Brasil com a Colômbia. 

 

Sandra - Um refrigerante por lá custaria algo em torno de R$20, se fosse hoje. Vivíamos na base da mandioca e do abacaxi. Imagine quando cheguei a Bauru. Peguei dois carrinhos e fui colando de tudo, principalmente verduras, legumes e frutas. Nossa casa ficou cheia (risos).             

 

 

JC - E quando nasceu o Instituto Yauaretê?

 

Sandra - Quando eu terminei a graduação. Tanto que eu fiz mestrado em antropologia folclórica já por causa do instituto. Trabalhamos com ele desde 1998 voltados para a cultura tradicional, onde entra o folclore, a cultura caipira, a cultura negra, o patrimônio histórico... É um trabalho voltado para a pesquisa. Conseguimos fazer parte do programa Cultura Viva, da Secretaria de Estado da Cultura, e o instituto se transformou em um Ponto de Cultura. Estamos terminando o projeto chamado Identidade Cultural de Bauru e Região, onde trabalhamos em mais de 30 cidades para identificar os aspectos culturais de cada uma delas. O nosso relatório final foi entregue no mês passado. 

 

 

JC - O que significa Yauaretê?

 

Sandra - O instituto foi batizado com tal nome em homenagem à comunidade Yauaretê, de São Gabriel da Cachoeira, na fronteira do Brasil com a Colômbia, onde vivemos. Significa “povos das águas”. Esse povo fez um trabalho lindo para resgatar a língua local, o tukano. Lá, as crianças são batizadas e alfabetizadas em três idiomas: o português e as línguas locais: tukano e baniwa. Iniciativa inédita no País.  

 

 

JC - Novos projetos?

 

Tito - O Instituto está em fase de instalação na Vila Giunta. Estamos pensando em trabalhar com audiovisual, como videoaulas, por exemplo. Somos muito procurados por estudantes universitários. Emprestamos livros e sentamos com eles para ajudá-los, principalmente sobre o folclore, Segunda Guerra Mundial, cultura cabocla, cultura caipira, patrimônio histórico... Temos um acervo muito rico, inclusive sobre a cultura amazônica e negra, itens literários e objetos desses povos.    

 

 

JC - Vocês também estão inseridos na prática da transmissão da cultura tradicional para os mais jovens...

 

Sandra - Sim. Trabalhamos em alguns eventos e temos uma parceria com a Universidade Sagrado Coração (USC), que acontece em todo mês de agosto, o mês do folclore. É realizado um festival em união com o professor Antônio Walter Ribeiro de Barros Júnior e realizamos palestras para os alunos, debates... Tudo dentro da realidade de cada curso.

 

Tito - Também há a cavalgada de tropeiros, dentro deste festival. Já realizamos umas sete edições. Eu conheci o tropeirismo em Botucatu e me empolguei com o modo de vida deles. Eles trabalham em família.      

 

JC - Sandra, quem é o Tito?

 

Sandra - Ele é o meu referencial de ser humano. É um homem de caráter, de uma sensibilidade fora de série. Estamos juntos há 32 anos e nunca me passou pela cabeça separar-me dele. Nós somos parceiros, companheiros, amigos, amantes... Ele é um pai presente, um marido presente e um amigo presente. É admirado por todos que o conhecem pela sua humildade, principalmente. Eu digo que ele é fora do tempo, porque ele é diferente das pessoas que eu conheço. Para ele não há problema. Ele sempre diz: “Nós vamos dar um jeito”.

 

 

JC - Tito, quem é a Sandra?

 

Tito - Ah... a Sandra! Sabe quando uma pessoa ganha na loteria? É como se eu tivesse ganhado centenas de vezes na Mega-Sena. Eu digo para as pessoas na rua que sou um privilegiado. Ela é muito inteligente, admiro demais a minha mulher. 

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