Regional

Universitários: do sonho ao diploma

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 10 min

Os meses de fevereiro e março serão marcados pelo retorno ou chegada dos universitários em muitas cidades da região onde estão sediadas as faculdades e universidades. 

Os estudantes formam uma população flutuante que alimenta o comércio e especialmente o setor  imobiliário.

É através deles que as locações de imóveis, principalmente os de pequeno porte e próximos às instituições de ensino, se mantêm. A chegada de novos habitantes é o momento em que as prefeituras se mobilizam para melhorar alguns setores a fim de dar boas-vindas à população universitária. Em Botucatu, são 600 novos “habitantes” ao ano. Em Agudos, 200.

A rotatória de acesso de Rubião Jr. (bairro onde está a Unesp) está em obras para melhorar o trânsito porque a frota de veículos circulando aumenta e é preciso investir na educação. O departamento de transporte e trânsito faz a prevenção. Além das obras, adota um projeto para facilitar a travessia de pedestres nas principais vias.

A empresa de transportes coletivos também aposta no potencial da Unesp e coloca várias linhas disponíveis para atender aos estudantes, funcionários e aqueles que buscam tratamento, são mais de cinco linhas coletivas.

Quem vai estudar precisa morar, a maioria dos cursos é tempo integral. Quem vai morar vai consumir. De olho nesse consumidor, muitos investidores compram imóveis no município, segundo a prefeitura municipal. Com isso, Botucatu parece uma grande obra. “Temos em construção 17 condomínios de apartamentos. Os mais luxuosos estão focados nos docentes e funcionários. Os mais simples, nos estudantes”, informa a prefeitura.

Contingente

Em Agudos, a FAAG tem cursos noturnos e a grande maioria dos alunos é da própria região. Viajam todos os dias em busca de conhecimento, porém não fixam residência na cidade. Exceto quando já na fase de formandos são convidados a trabalhar em uma das multinacionais sediadas no município.

Um contingente de 200 novos estudantes chegam a faculdade em busca de conhecimento. São pessoas mais maduras que estão empregadas e querem garantir a vaga no emprego ou galgar novos postos. Há dois anos, a FAAG percebeu que dentre os vestibulandos havia um pessoal mais jovem que ainda representa uma pequena parte.

O consumo dos alunos de Agudos se limita a àquilo que encontram na instituição, ou seja, consomem lanches e petiscos na própria escola. A Faculdade de Agudos oferece cursos de Engenharia de Produção, Administração, Pedagogia, Ciências Contábeis, Tecnologia em Logística, Tecnologia em RH. O mais procurado e concorrido é o de Engenharia de Produção.

 

Unesp/Botucatu faz recepção conjunta

 

O final de fevereiro será marcado pela chegada de cerca de 700 novos estudantes na cidade de Botucatu (100 quilômetros de Bauru). A novidade que é a recepção dos alunos será feita de maneira conjunta, como acontecia há anos atrás.

 

Ou seja, todos os alunos serão recepcionados juntos e não mais cada um em sua unidade de estudo.

 

Quem explica é a professora Maria Denise Lopes, membro da comissão de recepção de calouros do câmpus da Unesp/Botucatu. “Estamos resgatando uma situação que acontecia há alguns anos atrás, uma recepção conjunta. Todas as unidades se reunindo para receber os primeiranista. Nos últimos anos, cada unidade recebia seus alunos isoladamente. Todos os estudantes que foram aprovados para as faculdades da Unesp/Botucatu serão recepcionados juntos.”

 

Segundo ela, dessa forma a energia é muito maior. “É um evento muito grande, nos dias 23, 24 e 25 de fevereiro. Estamos nos reunindo várias vezes para que isso aconteça de forma saudável. Temos uma reserva de três dias para recepcionar os cerca de 700 alunos novos. A comissão é formada por um representante de cada unidade e por alunos veteranos. Queremos que esses alunos sejam bem recebidos.”

 

Coibir trotes

 

Arquivo/Flávio Fogueral/Jornal FMB

Entrada da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu - seus vestibulares estão entre os mais disputados

A comissão não acaba depois dos três dias reservados para a recepção. “Ela permanece em vigência tomando conta, tentando organizar os trotes durante esse período. A intenção é fazer várias reuniões abertas e coibir os trotes.”

 

O evento começa com uma sessão solene com todos os diretores e professores.

 

“O prefeito da cidade de Botucatu foi convidado para recepcionar esses alunos. Temos um palestrante para falar sobre a universidade, grupos de discussão com alunos veteranos envolvidos. Palestras com psicóloga da faculdade de medicina sobre trote. Vamos ter algumas oficinas. Além de  reuniões programadas para que eles possam se conheçam , conheçam o câmpus Botucatu, possam se interar, se localizar melhor. E a partir do dia 27 fevereiro, aula normal.”  

 

 

 

Frota de veículos da cidade é incrementada

 

A frota de veículos de Botucatu é de 83.500 mil unidades. A volta às aulas, especialmente da Unesp, é sinônimo de uma ‘injeção’ de mais de 16 mil veículos no trânsito, aposta o secretário municipal de mobilidade urbana, Vicente Ferraudo.

 

“Acredito que chegue a 100 mil, 90 mil, seguramente. Para melhorar o trânsito, o município vai realizar obras. Na próxima semana vamos iniciar os trabalhos para melhorar a rotatória que liga a Unesp ao bairro de Lageado”. O transporte urbano é uma opção para os estudantes que não têm carro.  São 11 linhas exclusivas para universitários. Outra que atende os bairros rumo a universidade e três linhas para o Lageado, bairro onde está localizada a Unesp. Número suficiente para atender à população estudantil que chega a cidade, na avaliação do secretário.

 

A segurança no trânsito é um item levado a sério para o município. “O início das aulas nas escolas públicas e na universidade coloca em prática um programa municipal batizado de Faixa Segura, sinalizados por uma mãozinha, uma placa exclusiva da cidade, além das placas convencionais de trânsito. É um projeto específico para garantir a segurança e incentivar as pessoas a utilizarem a faixa segura. O programa envolve os guardas municipais, Polícia Militar e Samu.”

 

O programa Faixa Segura orienta os pedestres a realizar travessias em conjunto. “As informações fazem parte de um panfleto que foi distribuído para toda a população. “Na fase da conscientização. Atualmente, os moradores usam o sinal da mãozinha para atravessar a via”.

 

A cidade no ritmo da universidade

Orçamento do câmpus da Unesp é três vezes maior do que o de Botucatu, revelando o tamanho de sua influência

 

O clima temperado pela altitude dá a Botucatu o título de bons ares. Fundada em 1885 e localizada a 225 km da capital, no centro do Estado de São Paulo, Botucatu é conhecida como “a cidade dos bons ares e das boas escolas”.

 

Está situada em uma conformação geográfica serrana, entre os vales dos rios Tietê e Pardo, formando a Cuesta, com altitude média de 800 metros. Com mais de 120.000 habitantes, a cidade possui clima temperado e uma grande extensão de áreas de proteção ambiental e de microbacias.

 

É nesse cenário que a Unesp com suas faculdades e cursos de especialização, pós-graduação e mestrado profissionalizante está instalada. A Faculdade de Medicina (FM) foi implantada em 1963 como Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas.

 

Em 1975 tornou-se Faculdade de Medicina da Unesp. Destaca-se nacional e internacionalmente em ensino, pesquisa e extensão. Oferece cursos de graduação em Medicina e Enfermagem, 36 programas de Residência Médica, 53 de Aprimoramento  Profissional, oito de pós-graduação e dois programas de Mestrado Profissionalizante.

 

Conjunto

 

O corpo docente é formado por 305 professores. Os estudantes de graduação somam 679 e 707 são de pós-graduação. Para atender essa demanda o corpo técnico administrativo é formado por 1.329 servidores. A Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia e pós-graduação em Medicina Veterinária e Zootecnia concentra 658 alunos de graduação e 381 alunos de pós-graduação.

 

O corpo docente tem 72 professores e o corpo técnico/administrativo 230 servidores. No câmpus há um hospital veterinário e três fazendas experimentais com 1.143 hectares.

 

 

Botucatu antes e depois da Unesp

 

Para o secretário do desenvolvimento e Indústria de Botucatu, Edson Baptistão,  a história da cidade poderia ser dividida em duas partes, antes da implantação do câmpus da Unesp e depois. “É de fundamental importância a Unesp no município e na nossa região. Primeiro porque ela traz conhecimento e pesquisa e isso faz a diferença para a cidade e região. Coloca o município no rol daqueles que irradiam conhecimento e o atendimento.”

 

Os cursos e as pesquisas fazem com que Botucatu seja conhecida e reconhecida como tal. “É o maior câmpus da Unesp dentro da universidade. Traz pessoas de todo o Brasil e até do exterior para se aperfeiçoar e estudar aqui nas áreas de humanas, biológica e agrícola. Fornece professores para o país todo. Daqui saíram e saem reitores da universidade, isso mostra que aqui se produz talentos que ajudam no desenvolvimento educacional e profissional do Brasil”, diz ele, lembrando que o atual ministro da Saúde, Arthur Chiori, estudou lá.

 

O câmpus tem uma influência decisiva no desenvolvimento local. “Só para se ter uma ideia, o orçamento do câmpus é três vezes maior que o orçamento municipal. Imagina a importância e todos os investimentos que são feitos para aprimorar o conhecimento, a pesquisa em favor da população”. Anualmente, a cidade recebe em torno 500 a 600 novos alunos, fora o pessoal de pós- graduação. “Esse número deve chegar a duas mil novas pessoas que aportam aqui”.

 

 

De Duartina à fonoaudiologia da USP

 

Arquivo/Quioshi Goto

 Fachada da sempre concorrida Faculdade de Odontologia da USP em Bauru, com Josiane Pereira no detalhe acima

Josiane da Silva Pereira mora em Duartina e tem 17 anos. Sempre estudou em escola pública, na Benedito Gebara. No último ano, dedicou-se também a um cursinho preparatório: ela estava, inicialmente, de olho no vestibular na Unesp/Bauru.

 

Prestou vários concursos vestibulares e já conquistou um espaço de fazer inveja para muita gente. Foi aprovada em terapia ocupacional na Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) e fonoaudiologia na Unesp/Marília. A primeira opção dela em todos os concursos foi fonoaudiologia. “Sempre estudei em escola pública. Esta é a primeira vez que presto vestibular e estou feliz pelos resultados.”

 

Aprovada

 

Antes de escolher qual o curso realmente iria fazer, ela aguardava o resultado da Fuvest para uma vaga em Fonoaudiologia na USP/Bauru. Resultado? Passou.   Agora, já sabe bem o que fazer: fonoaudiologia na Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB/USP).

 

“Eu consegui uma bolsa de 100% na USC/Bauru através do Prouni. Não poderia cursar fonoaudiologia na Unesp/Marília e terapia ocupacional na Ufscar porque ficaria muito distante. Cursando faculdade em Bauru posso ir e voltar todos os dias”. É o que vai ocorrer para Josiane - uma estudante da região que deu o primeiro passo rumo à sua formação universitária de qualidade.

 

Faculdade em Agudos recebe 200 novos alunos

 

Divulgação

Estudantes ao computador: aula inaugural já ocorreu  

Em Agudos, a faculdade (FAAG) abriu as portas para 2014 recebendo 200 novos estudantes que, somados aos 400 veteranos, vão formar uma população estudantil de 600 alunos.  As aulas já começaram e a recepção aos alunos contou até com dupla sertaneja. A localização da unidade estudantil e o horário de aulas, sempre noturno, não favorece a movimentação comercial da cidade.

 

A diretora acadêmica da FAAG, Lúcia Helena Aravechia de Oliveira, explica que a recepção contou com vários momentos. “Uma aula inaugural no auditório da faculdade ofereceu subsídios sobre os cursos. Apresentamos as linhas gerais pedagógicas e a infraestrutura física. A diretoria e o corpo docente estiveram presentes na recepção”, disse.

 

Após a aula inaugural, onde eles ficaram conhecendo o espaço físico, todas as ferramentas que poderão usar no semestre letivo, como funciona a grade, a questão do estágio, as avaliações, atividades complementares, exames etc, foi feita a integração, o trote. “O trote foi tranqüilo, trouxemos uma dupla sertaneja para movimentar o evento.”

 

Segundo a diretora, nos últimos quatro anos o curso mais concorrido foi engenharia de produção, que também é o carro chefe da faculdade. “Este ano começamos com tecnologia em Logística e RH .”

 

 

Perfil dos alunos

 

Os alunos da Faculdade de Agudos têm um perfil diferenciado. Em sua maioria são maiores de 30 anos e residem em cidades bem próximas. Eles viajam todos os dias, grande parte deles de Vans. Exceção aos angolanos que estudam na faculdade e que residem em Agudos. A diretora acadêmica Lúcia de Oliveira comenta que eles são de Bauru, Agudos, Lençóis, Botucatu e Areiópolis. Como nenhum dos cursos é integral, todos são noturnos, os estudantes são pessoas mais maduras que já estão no mercado de trabalho. “A população estudantil daqui é constituída por pessoas que trabalham numa empresa, numa indústria ou em uma usina. São funcionários que sentiram a necessidade de uma qualificação para crescer ou permanecer na empresa. A média é de 30 anos”. O vai e vem de todo dia não permite que os alunos conheçam a cidade de Agudos, a mais próxima, e nela consumam e movimentem o comércio. 

 

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