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Morte de cinegrafista abre polêmica sobre a violência nas manifestações

Agências
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Os parentes do cinegrafista da Santiago Ilídio Andrade, 49 anos, autorizaram a doação dos órgãos após ter sido declarada a morte cerebral do funcionário da Rede Bandeirantes, na manhã de ontem.

Andrade foi atingido por um rojão durante manifestação na Central do Brasil, na semana passada. Ele estava internado no Hospital Municipal Souza Aguiar desde a noite da última quinta-feira e seu estado de saúde era considerado crítico.

Fernando Frazão/ABr

Manifestantes voltaram a protestar, ontem contra o aumento do preço das passagens de ônibus urbano no Rio de Janeiro

O cinegrafista deixa mulher, uma filha e três enteados. A emissora de rádio BandNews FM chegou a fazer uma campanha de doação de sangue durante o final de semana no Hemorio.

Santi, como era conhecido pelos colegas de profissão, faria dez anos de emissora neste ano.

Cabral pede afinco em investigação

O esclarecimento policial do crime que vitimou o cinegrafista Santiago Andrade levou o governador do Rio Sérgio Cabral (PMDB) a trocar, nos quatro últimos dias, telefonemas constantes com o secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, e com o chefe de Polícia Civil, Fernando Veloso.

Ao pedido do governador para que os policiais encarregados da apuração trabalhem com afinco redobrado, Beltrame e Veloso responderam que à frente do caso está um homem tido na corporação como tira obstinado, o delegado Maurício Luciano de Almeida. Tanto que, pouco mais de 24 horas após o ataque ao profissional da Band, ele já tinha um suspeito sob interrogatório dentro da delegacia que comanda, a 17.ª DP.

Foi ‘assassinato’, diz Carvalho

O secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, considerou como um “assassinato” o episódio que levou à morte cerebral do cinegrafista Santiago Ilídio Andrade, 49 anos, da TV Bandeirantes.

“Quero aproveitar para manifestar a nossa profunda tristeza e solidariedade à família desse nosso companheiro que foi assassinado, vítima no Rio de Janeiro”, disse Gilberto Carvalho de passagem pelo 6.º Congresso Nacional do MST, realizado em Brasília.

Integrantes de entidades representativas de emissoras de rádio e TV, jornais e revistas se reúnem hoje com o ministro José Eduardo Cardozo (Justiça). Eles pretendem debater, a partir da incidente com o cinegrafista Santiago Andrade, a violência contra jornalistas nas manifestações de rua no País.

Estarão presentes na reunião com Cardozo dirigentes da Abert (rádio e TV), ANJ (jornais) e Aner (revistas).

Polícia do Rio pede prisão de suspeito

A Polícia Civil do Rio informou ontem que pediria até o fim da noite, durante o plantão judiciário, a prisão temporária por 30 dias do suspeito de ter acionado o rojão que atingiu na semana passada o cinegrafista da TV Bandeirantes Santiago Andrade, cuja morte cerebral foi declarada na manhã de ontem.

O suspeito foi reconhecido por fotografia e em vídeos veiculados pela imprensa pelo tatuador Fábio Raposo, preso no domingo sob acusação de envolvimento no crime. O reconhecimento foi feito na Penitenciária Bandeira Estampa, em Bangu, na zona oeste do Rio, para onde Raposo foi transferido.

“Já tínhamos informações de inteligência sobre o suspeito. Com a ajuda do advogado de Raposo, chegamos à identificação dele. Ainda precisávamos que Raposo fizesse um reconhecimento do suspeito por foto, o que ocorreu nesta tarde. Temos convicção de que o suspeito é quem acionou o rojão”, afirmou o delegado responsável pela investigação, Maurício Luciano de Almeida, da 17.ª DP, em São Cristóvão. A polícia já levantou o endereço do suspeito, cujo nome e foto só serão divulgados se a prisão for decretada.

Assim como Raposo, o suspeito foi indiciado por homicídio doloso (com intenção de matar), agravado pelo uso de explosivo e pelo crime de explosão. As penas podem chegar a 35 anos de prisão. A defesa do tatuador disse que vai tentar enquadrar seu cliente no crime de lesão corporal seguida de morte (4 a 12 anos de reclusão).

“Ao utilizarem o rojão na manifestação, os dois pretendiam atingir as forças policiais. A intenção era ferir ou matar”, disse o delegado.

Carta da filha no Facebook

A jornalista Vanessa Andrade, 29 anos, filha do cinegrafista Santiago Andrade, disse que o pai considerava a profissão “ingrata”. Em uma carta aberta postada ontem no Facebook, Vanessa relatou alguns momentos que teve com o pai. Ela também postou uma foto antiga da família. Leia abaixo a carta, na íntegra:

"Meu nome é Vanessa Andrade, tenho 29 anos e acabo de perder meu pai.

Quando decidi ser jornalista, aos 16, ele quase caiu duro. Disse que era profissão ingrata, salário baixo e muita ralação. Mas eu expliquei: vou usar seu sobrenome. Ele riu e disse: então pode!

Quando fiz minha primeira tatuagem, aos 15, achei que ele ia surtar. Mas ele olhou e disse: caramba, filha. Quero fazer também. E me deu de presente meu nome no antebraço.

Quando casei, ele ficou tão bêbado, que na hora de eu me despedir pra seguir em lua de mel, ele vomitava e me abraçava ao mesmo tempo.

Me ensinou muitos valores. A gente que vem de família humilde precisa provar duas vezes a que veio. Me deixou a vida toda em escola pública porque preferiu trabalhar mais para me pagar a faculdade. Ali o sonho dele se realizava. E o meu começava.

Esta noite eu passei no hospital me despedindo. Só eu e ele. Deitada em seu ombro, tivemos tempo de conversar sobre muitos assuntos, pedi perdão pelas minhas falhas e prometi seguir de cabeça erguida e cuidar da minha mãe e meus avós. Ele estava quentinho e sereno. Éramos só nós dois, pai e filha, na despedida mais linda que eu poderia ter. E ele também se despediu.

Sei que ele está bem. Claro que está. E eu sou a continuação da vida dele. Um dia meus futuros filhos saberão quem foi Santiago Andrade, o avô deles. Mas eu, somente eu, saberei o orgulho de ter o nome dele na minha identidade.

Obrigada, meu Deus. Porque tive a chance de amar e ser amada. Tive todas as alegrias e tristezas de pai e filha. Eu tive um pai. E ele teve uma filha.

Obrigada a todos. Ele também agradece.

Eu sou Vanessa Andrade, tenho 29 anos e os anjinhos do céu acabam de ganhar um pai."

Jornalistas homenageiam cinegrafista

Pouco antes de uma manifestação contrária ao reajuste das tarifas de ônibus na noite de ontem, cerca de 50 jornalistas realizaram um ato de pesar pela morte cerebral do cinegrafista Santiago Andrade.

A homenagem foi feita em frente à igreja da Candelária, na mesma avenida e não muito distante de onde ele foi atingido por um rojão na cabeça, no centro do Rio.

Cinegrafistas de TV baixaram as câmeras e puxaram um minuto de silêncio em homenagem ao funcionário da TV Bandeirantes, ferido na última quinta-feira durante outro protesto.

Em Brasília, cinegrafistas, auxiliares e fotógrafos que trabalham na cobertura de assuntos do Congresso Nacional também fizeram um ato pelo fim da violência contra jornalistas, ontem. Posicionados na rampa do Congresso, 20 profissionais de imagem cruzaram os braços e colocaram suas câmeras no chão.

A manifestação de ontem no Rio teve início na presidente Vargas, em frente à Central do Brasil, mesmo ponto onde o cinegrafista foi ferido quando cobria outro protesto no local. Seguiu, depois, pela a avenida Rio Branco, onde houve chuva de papel picado.

O grupo parou em frente a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. No local, um manifestante que sempre se veste como o personagem Batman segurava um cartaz onde se lia: “Luto por Santiago.”

Depois, eles foram para a sede da Fetranspor (federação que reúne as empresas de ônibus), próxima à Assembleia, e protestavam no local contra o reajuste  a passagem no Rio subiu no último sábado de R$ 2,75 para R$ 3,00.

‘Perdoar? Eles destruíram uma família’, diz esposa

Na última quinta-feira, o cinegrafista Santiago Andrade, 49 anos, deixou a redação da TV Bandeirantes, no Rio, avisando à chefia: “Vai ser rápido. Farei apenas três takes (imagens)”, disse.

Duas horas depois, Andrade foi atingido na cabeça por um rojão. Com o impacto, teve afundamento craniano e perdeu parte da orelha esquerda. Por quatro horas, cirurgiões tentaram estancar a hemorragia e reduzir a pressão intracraniana, causadas pelo impacto do rojão.

Ontem, pouco antes das 12h, ele teve sua morte cerebral declarada. Mais de 90% de seu cérebro estavam sem irrigação. A família decidiu doar seus órgãos.

“Foram os três takes mais longos da vida dele. Ele sempre foi muito cuidadoso. Não tem explicação”, conta Edeílton Macedo, 58 anos, que conhecia Andrade desde que ele chegou à Band, em 2004.

Carioca, Andrade cresceu em Copacabana. Há três anos, pensando em ter uma vida mais tranquila, mudou-se com a família para Itaipuaçu, em Maricá, na região metropolitana do Rio.

Casado há 30 anos com Arlita, Andrade deixa uma filha e três enteados. Em entrevista à TV Globo, Arlita, desabafou sobre o que ocorreu com o marido. “Perdoar? Meu marido está indo embora, eles destruíram uma família. Uma família que era unida.”

Senadores cobram votação de projeto

Senadores defenderam a votação pelo plenário da Casa do projeto de lei que tipifica o crime de terrorismo. A iniciativa ocorreu horas depois de ter sido anunciada a morte cerebral do jornalista e cinegrafista da TV Bandeirantes, Santiago de Andrade.

A proposta é o terceiro item da pauta do Senado e foi aprovada no final de novembro por uma comissão composta por deputados e senadores que busca regulamentar dispositivos previstos na Constituição. Atualmente, não há na legislação esse tipo penal. Crimes como esse são enquadrados na Lei de Segurança Nacional, editada na época da ditadura militar.

“É importante lembrar que, desde as manifestações de junho do ano passado, uma nova realidade passou a fazer parte dos protestos: os chamados Black Blocks”, afirmou a senadora Ana Amélia (PP-RS), uma das que defendeu urgência na aprovação da proposta.

Para o primeiro vice-presidente do Senado, Jorge Viana (PT-AC), o cinegrafista foi vítima de um ato terrorista. “Foi usado um explosivo. Não é um rojão de festa junina. Foi usada uma bomba. Poderia ter matado muitas pessoas. E ela foi colocada nas costas do jornalista para matar”, disse.

Freixo nega vínculo

O deputado Marcelo Freixo (PSOL) afirmou ontem não ter ligação com os suspeitos pela morte do cinegrafista Santiago Andrade, da TV Bandeirantes.

O vínculo foi feito à polícia por um estagiário do advogado Jonas Tadeu Nunes, que defende o tatuador Fábio Raposo, indiciado sob suspeita de ter participado do crime.

Freixo disse que recebeu uma ligação da manifestante Elisa Quadros, a Sininho, temendo que o tatuador fosse torturado na prisão. O deputado disse ter colocado a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa à disposição dele caso isso ocorresse.

“A acusação que paira é que tenho relação com essa pessoa. Não tenho nenhuma ligação com ela. Estou sendo acusado de conhecer uma pessoa que ninguém sabe quem é”, disse o deputado.

Dilma lamenta

A presidente Dilma Rousseff determinou ontem que a Polícia Federal participe das investigações no caso do cinegrafista Santiago Andrade, que teve morte cerebral declarada ontem após ser atingido por um rojão no Rio de Janeiro, na semana passada. “Não é admissível que os protestos democráticos sejam desvirtuados por quem não tem respeito por vidas humanas. A liberdade de manifestação é um princípio fundamental da democracia e jamais pode ser usada para matar, ferir, agredir e ameaçar vidas humanas, nem depredar patrimônio público ou privado”, continuou.

Santi, como era conhecido pelos colegas de profissão, faria dez anos de emissora neste ano. Em julho, o cinegrafista participou do curso “Jornalismo em área de conflito”, ministrado pelo Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil (CCOPAB), instituição do Exército.

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