Polícia

Dúvida segue: quem foi este homem?

Por Vitor Oshiro | Colaborou Lilian Grasiela
| Tempo de leitura: 4 min

Um homem que decidiu morar nas ruas. Será que seu passado e muitas respostas serão enterrados com ele? O mistério sobre quem foi o andarilho oriental que morreu atropelado neste fim de semana com mais de R$ 6 mil presos ao seu corpo continua. Seria Sato? Seria Timura? Seria um prisioneiro político desaparecido durante a ditadura?

A busca por qualquer resposta durou a tarde de ontem. O repórter e o fotógrafo orientais do JC saíram na tentativa de identificar quem foi o andarilho de mesma ascendência. O caso foi noticiado nas edições de domingo e ontem.

Divulgação

Henrique Perazzo Aquino/Divulgação

Issami Okano está desaparecido desde a década de 70

Andarilho misterioso levava R$ 6 mil quando foi atropelado e morto

O homem era conhecido por habitar as proximidades do Terminal Rodoviário. Lá, os taxistas o conheciam. Ou melhor, conheciam até os limites nos quais ele permitia. “Ele não aceitava esmola de ninguém. Sempre dormia aqui encostadinho em uma grade da rodoviária”, conta Hamilton Moreira Cangussu, 64 anos, dos quais 20 foram como taxista no local.

“Um dia, há uns dois anos, veio um homem aqui. Era o filho dele. Esses tempos atrás, vi o japonês conversando com um homem em um carro. Podia ser parente dele também”.

É da rodoviária que surge o primeiro possível sobrenome do andarilho: Sato. O nome foi dito por três pessoas. Um deles deu uma informação: “o filho dele mora no fim da Alto Acre”.

Partimos para lá. Após várias casas desabitadas, encontramos alguns orientais com o sobrenome Sato no bairro. Mas ninguém conhecia o andarilho misterioso. Outros boatos davam conta que ele sempre ia para Ourinhos. Teria algum familiar por lá?

Da ditadura?

Não foi só o JC e a polícia que se mobilizaram para tentar descobrir a identidade. A professora Juliana Goda, 39 anos, também oriental, fez algumas pesquisas. E é dessa busca que surge, com certeza, a hipótese mais fascinante. Seria o andarilho um desaparecido da época da ditadura? “Ele era uma pessoa muito reservada. Falava muito a palavra ‘Sagai’. Começaram a chamar ele assim. Um dia, ele teria dito que o nome dele era ‘Nakamura’”, conta a professora.

Ao pesquisar nos bancos de dados de desaparecidos, lá estava o nome de Issami Nakamura Okano. “E a mãe desse Issami se chama ‘Sadai’. É muito parecido com ‘Sagai’. Achei muita coincidência”, complementa.

Okano nasceu em 23 de novembro de 1945 e foi militante da Ação Libertadora Nacional (ALN). Foi preso pela primeira vez em 1969. Cinco anos depois, foi detido novamente e desapareceu.


Dinheiro será depositado em conta judicial

O caso foi trazido com exclusividade pelo JC. O andarilho foi atropelado na quadra 4 da avenida Nações Unidas no último sábado. Ele foi atingido por uma caminhonete, chegou a ser socorrido, porém, morreu no local.

O condutor do veículo, H.R.G., de 37 anos, disse que não conseguiu evitar o acidente. No momento da colisão, o andarilho vestia sete blusas. Quando a equipe médica retirou as peças de roupa, encontrou centenas de cédulas e moedas espalhadas pelos bolsos das blusas, totalizando R$ 6.015,96. O dinheiro segue apreendido pela Polícia Civil.

“O inquérito visa identificar a vítima e apurar as responsabilidades do condutor do carro. Não há nenhum indício de que o dinheiro seja de origem ilícita. Ele será depositado em uma conta judicial. Se não nenhum familiar aparecer, acaba sendo revertido para o Estado”, explica o delegado seccional de Bauru, Ricardo Martines.

As impressões digitais foram colhidas e, caso a vítima tenha retirado algum documento no Estado de São Paulo, as respostas devem vir ainda este mês.


O reservado Timura

Outra possível identificação para o homem seria Timura. Em seu blog (www.mafuadohpa.blogspot.com.br), o jornalista Henrique Perazzi de Aquino traz a crônica de quando ele conversou com o reservado morador de rua.

Entre as curtas e evasivas respostas, ele teria contado que se chamava Timura. “Ele me disse uma vez, mas nem sei se esse seria mesmo o nome dele”, conta Aquino.

O jornalista o fotografou em algumas ocasiões e narrou a sua rotina diária. “Era um desconserto para mim, pois o via logo cedo subindo a Nações ou a Antonio Alves, indo até na altura da praça Rui Barbosa, quando fazia meia volta e voltava pela Araújo ou mesmo pela Nações”.

Em julho de 2011, Timura teria relatado a preocupação com a reforma de seu “dormitório”. “Sou velho, a rodoviária será reformada e o lugar onde durmo só poderá ser acessado por quem irá pegar ônibus. Ali terá uma cerca. Se não puder mais entrar lá no coberto, onde irei dormir daqui para frente?”, disse ao jornalista.


Você o conhece? Ligue!

Quem tiver qualquer informação sobre quem é o homem pode ligar no Jornal da Cidade, por meio do telefone (14) 3104-3104, e falar com o repórter Vitor Oshiro.

O corpo da vítima continua no Instituto Médico Legal (IML), cujo contato é o 3232-7820. Outras informações também devem ser passadas à Polícia Civil. O telefone é o 3235-6500.

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