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Água: use certo!

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 7 min

João Rosan

Legislação terá de exigir área permeável nos quintais, de acordo com tamanho do terreno e área construída

A torneira está cada vez mais seca em milhares de moradias. Água potável é produto em falta! E faz tempo... A conhecida crise no abastecimento de água em regiões de Bauru e as mudanças climáticas exigem alterações nas regras comportamentais e de política de consumo que ataquem da reservação ao desperdício, da multa para quem jorra sem juízo o líquido na calçada ao incentivo ao consciente que economiza para consumo em casa.

O JC colheu nas ruas abordagens e experiências reais de uso racional e sustentável e identificou práticas de consumo próximas de “zero” com a adoção, por exemplo, de um sistema de calha de captação da água da chuva associado à reutilização por vários ciclos do líquido com o uso de filtragem em cisterna.

Mas no meio empresarial e acadêmico, e também entre consumidores individuais, há consenso de que a cidade já deveria ter revisto a legislação que trata da reutilização e da racionalização de água potável.

As medidas discutidas entre diferentes segmentos são vinculadas. Em uma ponta, o poder público reconhece a necessidade de estabelecer um plano de substituição de rede e de combate a vazamentos no sistema. Em outra, representantes do setor acadêmico e empresarial sugerem pressa na adoção de regras para utilização de água da chuva e de coeficientes de permeabilização do solo.

O produto é finito e o abuso, farto. No ano passado, o Departamento de Água e Esgoto (DAE) retirou do rio Batalha (que abastece 40% da cidade) e de 35 poços profundos o equivalente a 48 milhões de metros cúbicos de água. Metade desse volume tratado com cloro escorreu por vazamentos em tubos. Já é considerada nesse patamar uma parte do líquido que chegou aos imóveis mas não foi medida pelos milhares de hidrômetros velhos ou avariados.  

Além disso, enquanto na quadra 1 da rua João Dal Médico, no Núcleo Mary Dota, o aposentado Ricardo Wagner representa milhares de bauruenses com torneira seca em casa, em outros tantos diferentes endereços “cidadãos” apontam o esguicho para levar um pouco mais longe de suas calçadas um punhado de folhas que incomodam na entrada das casas. A água virou vassoura. E faz tempo.

Experimental

O professor de engenharia elétrica da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Angelo Cagnon é um dos que se debruça sobre projeto a respeito da temática.

A ideia é conceber uma espécie de imóvel experimental que seja praticamente autossuficiente para consumo de energia e água. “E a questão não é o fim do mundo”, adverte. Na verdade, o “fim do mundo” é o abismo entre a sabida limitação de oferta de água e a postura cultural do brasileiro.

“Em 2002 eu participei de um trabalho para o DAE na área energética que concluiu que, se as bombas dos poços profundos não trabalhassem no horário de ponta, a economia com energia elétrica seria de 40%. E a saída para sustentar esse sistema era investir em reservação, para permitir que essas bombas sejam desligadas exatamente no horário onde a energia é mais cara em mais de cinco vezes do que horários convencionais. Mas a crise no abastecimento se agravou e o sistema continua sem avançar”, comenta.

Para o acadêmico, a epidemia da água precisa ser tratada sem pano seco. “Em condomínios ou construções verticais a norma tem de exigir medição individual, por exemplo. Você cobra de forma justa de cada um e acaba com o anticomportamento coletivo do vizinho que se aproveita da cobrança por um único hidrômetro e esbanja sua falta de consciência cidadã e ambiental”, sugere.

O professor também considera atraso a administração municipal não exigir projetos elétrico e hidráulico para moradias.

“A prefeitura só exige o projeto civil. É preciso rever isso. Eu levei ao Crea [Conselho Regional de Engenharia e Agronomia] uma sugestão de discutir junto ao poder público a exigência de reuso de água para construções a partir de 150 metros quadrados. É preciso pensar em cisterna como uma parte dessa problemática. O mais assustador é que tem água da chuva para ser captada e isso não é uma medida cara para a construção”, aborda.

Na experiência em andamento no projeto do campus, o engenheiro conta que o consumo e o desperdício estão próximos de zero.

“A água da chuva é captada pela calha e o bombeamento é feito com o uso de energia captado por placa fotovoltaica e isso não gera nenhum custo de consumo. No Nordeste brasileiro quem tem cisterna é rei e aqui parece horroroso falar nisso”, expõe.


Lei do reuso em desuso

No mês de seu aniversário, em agosto de 2011, Bauru ganhou de presente: uma legislação para criar o Programa Muniicpal de Uso Racional e Reuso de Água em Edificações. De autoria do vereador Francisco Carlos de Góes (PR), o projeto, entretanto, sofreu uma modificação que inibe sua eficácia.

Carlão defendeu, no projeto original, que imóveis com área construída a partir de 200 metros quadrados teriam de contar com cisternas para armazenar a água captada da chuva.

“Eu defendi que essa exigência seria importante para que a água da cisterna fosse utilizada para lavar carro e calçada, uma medida inicial para caminharmos com o sentido de racionalização e conscientização. Mas o projeto foi aprovado com definição de 300 metros quadrados de área de cobertura, de telhado. É um início, mas muito tímido para atacar o tamanho do problema que temos”, conta.

O parlamentar defendeu, ainda, que a água captada da chuva pudesse ser direcionada para o uso em vasos sanitários.

“É absurdo a água potável, clorada, ser desperdiçada pela válvula de descarga e ir para a tubulação junto com o esgoto. A medida é barata para construções a partir de 200 metros quadrados e o resultado é gigantesco em escala. É um sistema simples, de cantoneiras. A cisterna com bomba e uma caixa separada é o elemento adicional. Imagina a economia de água por reuso e aproveitada da própria natureza. Na Austrália se bebe água da chuva após tratamento e no deserto investem milhões em dessalinização. Aqui no Brasil temos falta d´água e falta de consciência na mesma proporção”, lamenta.


As esponjas naturais

Francisco de Góes e Etelvino Zacarias atuam em segmentos diferentes, moram em bairros distantes um do outro, mas pensam igual quando a questão é sustentabilidade. Ambos defendem que, além de regulação na política de uso, reuso e racionamento de água, a prefeitura tem de passar a regulamentar a permeabilização da área urbana.

“Os quintais são esponjas naturais, mas as pessoas passaram a eliminar árvores frutíferas e perdemos também a brisa das sombras. A onda passou a ser de piso frio para todo lado e então o homem moderno passou a conviver com a era do porcelanato e do quintal com churrasqueira sem ter consciência de que está, com isso, impedindo a reposição de água no aquífero.”, reforça Francisco.

Etelvino Zacarias, auditor florestal, de sua parte, cuidou de manter em pé e sob cuidados as árvores de seu quintal.  “A copa das árvores faz o trabalho de redução do impacto da queda da água da chuva diretamente no solo, o que já contribui. Depois as árvores e as plantas, com o chão em terra de preferência, realizam a recarga natural do aquífero. Como era antigamente. Isso precisa ser regulamentado a partir de determinado tamanho de construção em relação ao tamanho do terreno. Não é para terrenos pequenos essa medida. Mas é fundamental para a recarga do aquífero, do subsolo. Hoje essa água corre rapidamente pelo asfalto e pelo sistema pluvial e não repõe nossa reserva subterrânea”, salienta.

A outra parte dessa história já está inscrita em lei. A lei dos passeios públicos, de 2009, instituiu exigência de área permeável, a chamada lei das calçadas. O então vereador José Roberto Segalla (DEM) trabalhou intensamente pela aprovação do projeto e, também, pela sua aplicação. Mas a norma não faz parte da prioridade de fiscalização da Seplan.


Propostas de uso inteligente

multa para desperdício

  • desconto para economia

  • captação de água da chuva

  • sistema de reuso

  • plano contra vazamento

  • mudança no comportamento

  • quintal permeável

     

     

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