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Rodrigo adia multa por desperdício

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 6 min

Quando foi vereador, o então jovem Rodrigo Antonio Agostinho de Mendonça consumiu tempo e energia com argumentação pela aprovação de projeto de sua autoria que criaria a aplicação de multa para desperdício de água. O então parlamentar fez discursos inflamados pela consciência ambiental, mas a punição acabou sucumbindo no Legislativo, ainda que sob o argumento jurídico pertinente de que a regra só pode ser assinada pelo prefeito.

O tempo passou, a crise no abastecimento se agravou tanto quanto o desperdício de água. Mas, uma vez prefeito, Rodrigo Agostinho argumenta que não há espaço para lei combatendo o abuso no uso da água pelo consumidor sem antes o poder público atacar os vazamentos.

“O DAE tem de dar o exemplo. Vamos instituir um plano de combate aos vazamentos e reduzir isso para um patamar aceitável. Hoje é absurda a quantidade de água que vaza pela tubulação que está ultrapassada. Antes de resolver isso não vou pensar em lei para punir desperdício na utilização de água”, informa.

É a ineficiência do governo dando as mãos ao consumidor sem consciência, enquanto uma parcela significativa da população amarga a escassez do líquido em pleno calor. Rodrigo tenta justificar.

“Eu defendo sim a multa para quem empurra sujeira de folha na calçada com a água que sai da mangueira. Mas antes do DAE tem de dar o exemplo e o estouro de rede hoje é mais grave”, argumenta.

Já a proposta de captação de água da chuva é defendida pelo prefeito. “Isso tem de ser instituído e essa regra vai fazer parte da discussão juntamente com a nova lei de zoneamento, no Código de Obras. Assim como nós vamos propor na revisão do Plano Diretor a criação do coeficiente de permeabilização nas edificações para ajudar na recarga do aquífero”, antecipa.

Apesar do posicionamento, Agostinho diz que não hesitaria em decretar racionamento se o problema no abastecimento se agravar. “Isso eu faço por decreto. Se faltar água em escala nós adotamos o racionamento para esses períodos”, pondera.

Entre uma andança e outra pela cidade, durante a discussão do tema, o JC parou para argumentar com o funcionário de um restaurante da avenida Nações Unidas.

Marcos Omena molhava as plantas da entrada o estabelecimento, mas aproveitou para fazer a água dar uma aliviada na sujeira na escadaria.

“Eu molho as plantas daqui todos os dias, mas compreendo que é preciso contribuir em razão da falta de água na cidade. Ficar molhando a escadaria não é legal”, admitiu.


Um conceito sustentável e eficiente

A empresa de lavagem, polimento e higienização de veículos de Afonso Carlos Telles Nunes consome 120 mil litros de água para limpar, em média, 400 carros por mês. Mas a conta de consumo do DAE para seu estabelecimento é de apenas R$ 90,00.

Por isso, ele conta que os fiscais da autarquia já o visitaram várias vezes. “Acho que eles ainda acham que eu cometo algo errado ou querem copiar meu sistema. Não é possível. O fato é que eu combino um sistema autossuficiente que alia captação de água da chuva com ciclos repetidos de reuso com o uso de filtros e cisternas. Toda a água que é utilizada na empresa é reaproveitada e tudo o que cai da chuva e eu posso captar não vai para a rede pluvial, eu armazeno”, revela.

Localizada na avenida Afonso José Aiello, atrás do Villaggio Mall, a instalação da empresa exigiu dois anos de estudo.

“Todo o prédio faz captação da água da chuva pelo telhado e as calhas enchem um reservatório de 30 mil litros em 25 minutos de uma chuva forte. Há sistema de filtro para partículas grossas, que elimina desde excremento de pássaro a folhagens. E outra parte do sistema realiza o reaproveitamento em ciclos que se repetem até 40 vezes com a mesma água ao longo do mês, isso utilizado apenas para o processo de lavagem”, conta.

O projeto utiliza em torno de 1.000 litros de água mensais para a limpeza dos filtros, cuja retenção de impureza atinge o nível de 10 microns. “O DAE usa 15 microns em seu processo”, avalia.

Uma caixa armazena água no subsolo da empresa, outra caixa recepciona a caixa de máquina (bombas) e o sistema ainda contém filtro importado (alemão) ciclônico com tela.

“Tudo o que gera de sujeira no meu pátio, seja óleo ou graxa, vai para uma caixa específica e a Lwart compra esse material. Nada do que é gerado aqui vai para a rede pluvial. Vai a uma oficina mecânica e vê se existe caixa de separação, mesmo a mais simples de água e óleo (caixa de sal). Não tem. Isso é um contaminante em escala em centenas de estabelecimentos. Meu processo é autossustentável e com eficiência. Eu uso detergente biodegradável e a diferença de preço para o comum nem é tão cara assim. Mas não polui”, defende.

Ele defende legislação rígida para desperdício e regras para sistemas de contaminantes. “Estabelecimentos poluentes não usam nem separador com terra. A prefeitura tem de especificar. Aqui eu não consegui aprovar usar a água desse sistema, que tem repetição de ciclos, para o banheiro. É uma questão de consciência e de conceito”, finaliza.


Desconto para  quem economizar

O Departamento de Água e Esgoto de São Caetano do Sul decidiu adotar a aplicação de desconto na conta de água de moradores daquela cidade para a economia de consumo. O município é abastecido 100% pelo sistema Cantareira, o mesmo que mata a sede de metade dos paulistanos, mas o reservatório está com apenas 19% da capacidade.

Em Santo André a medida já foi anunciada. O cidadão de lá que reduzir o consumo em pelo menos 20% em um mês terá o valor da fatura reduzido no mesmo percentual sobre a tabela.

Em Bauru, Rodrigo Agostinho é simpático à proposta, embora não tenha esboçado intenção de estudo nesse sentido. Ao contrário, o DAE já adotou, a partir deste mês, mudança em resolução municipal onde o consumidor passa a pagar integralmente por vazamentos. O objetivo é deixar de perder receita.

Para o professor universitário Angelo Cagnon, a política pública que não incentiva a mudança cultural de comportamento não gera avanços.

“Eu acho até que instituir multa desde o primeiro momento não vai gerar mudança rápida de postura cultural. Mas se você criar a lei instituindo penalidade, como necessidade do sujeito justificar por que desperdiça a água e a fazer curso de consciência cidadã e ambiental, sei lá, que a lei o incomode de alguma forma, isso passa a despertar consciência, o que é mais importante”.

Para o empresário que atua com lavacar Afonso Carlos Telles Nunes, a legislação já deveria impor sanções para punir quem abusa. E ele vai além. “A política de reuso da água deveria ser obrigatória no comércio e com a criação de sistemas de incentivo para quem economiza água. Eu implantei o reuso em minha empresa e o DAE não aprovou que eu utilize a água da chuva para descarga do banheiro mesmo com sistema separado para essa finalidade. A falta de consciência não é só de parte dos cidadãos, também é do poder público”.

 

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