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Bandido bom é bandido morto?

Luciano Olavo da Silva
| Tempo de leitura: 3 min

Dois filósofos protagonizam a discussão acerca da natureza dos indivíduos em sociedade: Rosseau e Hobbes. Rosseau, no século XVIII, afirmou que o homem em estado natural era dotado de liberdade, pureza de sentimentos e de intenções e que, a exemplo do bom selvagem americano (índio), possuía índole imaculada. Todavia, a agregação social (Estado) para somar esforços em prol da superação das adversidades do meio foi uma investida contra sua liberdade inicial, degenerou a pureza de que o homem era dotado e o transmutou em reprodutor das agressões sofridas na empreitada civilizatória. Seria necessária, então, uma educação capaz de preservar no sujeito os valores originais, a fim de que não houvesse um oprimido aprendendo pelo exemplo a se transformar em opressor, gerando uma sociedade injusta e violenta.

Hobbes, no século XVII, tinha uma visão menos nobre da natureza humana. Para ele, o homem não era "o bom selvagem" de Rosseau, mas "o lobo do próprio homem", dotado de um egoísmo natural, desprovido de solidariedade e voltado para a satisfação imediatista das próprias necessidades, de modo que o convívio dessas tendências culminaria na guerra de todos contra todos, impedindo a concentração das forças necessárias para vencer as barreiras naturais, o que causaria risco de extinção ou de uma existência profundamente penosa. Assim, o Estado se revelaria necessário para, com sua força, mitigar os instintos nocivos dos indivíduos e coordená-los em um trabalho colaborativo que viabilizasse o progresso da espécie.

A razão está com Hobbes ou Rosseau? O homem é naturalmente bom ou mau? Independentemente das respostas, quando se vê - em uma das principais cidades do país - um adolescente nu, espancado, atado pelo pescoço a um poste e sob ameaça de linchamento, percebe-se que o Estado falhou, seja lá qual for a verdade sobre a natureza humana. De duas opções, uma é correta: ou, ao contrário do que pretendia Rosseau, o Estado não foi capaz de promover uma educação que inibisse a degeneração moral e preservasse os bons instintos, ou, como afirmava Hobbes, o homem de fato é um lobo sempre disposto a devorar seu igual em busca de benefícios individuais, e o Estado brasileiro, que deveria ser capaz de impedir a postura predatória, claramente não possui tamanha força.

Diante do quadro, o que resta é aceitar que o Estado degenerou humanos imaculados ou não domou a bestas selvagens, a depender do que, afinal, seja o homem, esse ser que se revela inapto a uma participação política organizada, capaz de exigir pacificamente seu direito à segurança e à justiça, mas não hesita em mobilizar clãs primitivos que desrespeitam direitos humanos de terceiros e promovem vinganças egoísticas, feito chimpanzés que defendem o território contra invasores inoportunos. E para afastar dúvidas quanto à total inversão de valores, ainda chamam a isso de "justiçamento", a despeito de que, na verdade, seja um crime.

Talvez, por se comportarem de modo tão inesperadamente primitivo com relação à participação política, priorizando os "justiçamentos" privados ao invés de cobrar a eficiência dos meios institucionais de promoção da justiça social, os brasileiros sejam tratados pelo Estado como um grupo de animais de carga, que, entre outras mazelas, trabalham para sustentar uma das maiores cargas tributárias do planeta, sem receber em troca sequer os benefícios mais elementares, a exemplo das bestas que movem moendas em troca de pasto e água, apenas.

Quando a humilhação e a morte são aplaudidas sob a alegação primitiva de que "bandido bom é bandido morto", morre um pouco da humanidade civilizadora da nossa espécie, que tristemente se aproxima mais e mais das bestas selvagens cuja existência se resume a girar as moendas dos seus senhores, sem lhes exigir absolutamente nada além do pasto e da água que lhes mantém vivas unicamente para serem escravas de vontades alheias. O Brasil não é mesmo um país para iniciantes: pretendemos mostrar ao mundo que somos capazes de fazer "a maior Copa de todos os tempos", mas revelamos também que ainda não aprendemos sequer a ser gente. Será que pensarão que tudo não passa de um show de feras adestradas no terceiro mundo? Será que estarão certos?

O autor, Luciano Olavo da Silva, é bacharel em Direito, analista judiciário, especialista em Direito Eleitoral

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