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Entre tiros, rojões e racismo, eu fico com o ?seo? Timura

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 3 min

Quão imbecil pode ser o ser humano? Quão inconsequente pode ser? Quão egoísta? Nos últimos dias, fomos bombardeados por fatos que nos fazem perder qualquer gota de esperança na humanidade. Atos desmedidos, covardes e injustificáveis. Mas aí, apareceu o seo Timura (ou sabe Deus quem seja) e nos deu um oásis de crença.

Nos últimos dias, teve filho que encomendou a morte do pai a tiros aqui pertinho, em Botucatu. Sem comentários. Não procure saber o motivo. Por mais que tal motivação exista, ela não existe. Não existe qualquer explicação para alguém dar cabo à vida de seu genitor.

Nos últimos dias, teve manifestante que atirou rojão na cabeça de cinegrafista. Foi pago para tumultuar? Não sabia que era um rojão? Como assim? Não conheci o Santiago Andrade. Porém, conheci o Aceituno Jr., o Quioshi Goto, o Malavolta, a Neide Carlos, o finado Gaúcho (da Record), o Rafa (do SBT) e tantos outros que se postam diariamente como olhos da sociedade. Assim como fazia o Santiago.

Nenhum deles nunca quis participar de uma guerra. Senti a morte do Santiago como sentiria a morte de qualquer um destes próximos de mim. Mas, o manifestante não sabia que era um rojão. Tudo certo então, né? Nos últimos dias, vi um jogador de futebol receber a entrada mais dura que pode existir. Negro, o atleta Tinga, do Cruzeiro, ouvia sons de macaco toda vez que tocava na redonda. As ofensas vinham da torcida de um time peruano.

Mas, ué? Não viemos dos primatas? Não. Atos assim mostram que viemos do cruzamento de jumento com égua. Nada melhor do que o estereótipo do burro (apesar de que, no mundo animal, alguns são bem inteligentes) para ainda existir racismo.

E foi entre tantos fatos ruins que surgiu a história do seo Timura (ou Shimura, Sato, Nakamura, Sadai e até um desaparecido da época da ditadura). O andarilho oriental ? ou indígena, como alguns cogitaram ? morreu atropelado e, em meio a sete blusas que ele usava, foram localizados R$ 6 mil ao seu corpo. O fato inusitado despertou o interesse da mídia. Despertou a curiosidade em saber quem seria aquele homem. Partimos para uma busca por sua identidade. A polícia partiu em busca de sua identidade. Em vão. O mais próximo que chegamos foi de mais perguntas.

Mas, neste caso, as perguntas foram mais valiosas do que as respostas. Explico. Gente de Bauru inteira tentou ajudar a descobrir quem foi Timura. Ou melhor, gente de Bauru, Marília, Ourinhos, Bastos e até Paraná. Paraná? É aqui do lado. Teve gente até do Japão que fez contato. E teve quem foi além. Uma senhora queria dar o jazigo de sua família para enterrar o desconhecido. "Ele foi uma pessoa. Era alguém", disse, ao saber que seria sepultado como indigente. Um oásis de bondade em meio a um deserto de desesperança.

Talvez Timura não tivesse um nome mesmo. E assim ele foi enterrado. Talvez ele ter ficado sem a identificação tenha sido o melhor para todos. Talvez não personifica-lo como um só seja o melhor para passarmos a olhar por tantos outros Timuras que perambulam por aí. Talvez. "E a tudo isto a morte/ Risca por não estar certo/ No caderno da sorte/ Que Deus deixou aberto", brindou, em um de seus poemas, Fernando Pessoa. O genial escritor, contudo, errou desta vez. O caderno de Timura não ficou em aberto. Pena que, para escrever seus mais brilhantes versos, ele teve que morrer.

O autor, Vitor Oshiro, é repórter do JC, jornalista responsável da TV USP Bauru e especialista em Linguagem, Cultura e Mídia

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