Um senhor com semblante triste, conhecido andarilho das ruas de Bauru, morreu e se transformou num mistério a sua identificação. Avesso à conversa, chamava atenção pelos traços orientais e a introspecção. O "Japonês", como alguns se referiam, sempre foi motivo de reflexões íntimas: afinal, o que levou aquele homem estranho a viver nas ruas?
Todos os dias pessoas iguais a ele, após decepções amorosas, problemas existenciais ou mesmo envolvimento com alcoolismo e drogas saem pelo mundo afora, abandonam lar, família, dinheiro e bens materiais.
É como se cumprissem uma sina de abrir mão de todos os valores da dita sociedade organizada para viver no Estado de penúria. Justamente esses homens sem nomes são vítimas de violência, morte por atropelamento e até homicídio. Em Brasília, um índio foi confundido com esses homens sem identidade e queimado vivo.
"Japonês" morreu atropelado por uma fatalidade e junto com ele foram encontrados cerca de R$ 6 mil. Uma quantia considerável que poderia dar lhe conforto e dignidade. Mas ele abandonou o vil metal por uma vida de andarilho. Apenas guardava quantias sem valor para seu mundo. Para o modo de vida que levava dinheiro não fazia diferença. Morreu repentinamente e assustou os incautos porque ninguém sabia seu nome. Isso foi a demonstração cabal de como esses seres humanos são esquecidos e vivem num mundo diferente de nós.
Esses "estranhos" no passado já foram caçados nas ruas para serem "deportados" para trabalhos forçado nos sertões. Quando da construção da Estrada de Ferro Noroeste, andarilhos eram detidos no Rio de Janeiro e enviados à região de Pirajuí, ali acabavam mortos pelas condições insalubres ou por flechas em ataques indígenas. Recentemente, em Marília, um grupo de andarilhos foi levado para Ibitinga à força. Mas já houve em Santa Cruz do Rio Pardo um programa chamado "Rumo Certo", que pegava o migrante e lhe pagava passagem para não ficar na cidade. A prática é comum e tolerada em muitos municípios.
"Japonês" até na morte não perdeu a condição do anonimato. O fim que essas pessoas têm é o verdadeiro tapa nos teóricos da objetividade: perdemos a sensibilidade pelo ser humano. Agora, basta dar-lhe apenas uma missa de sétimo dia.
O autor, Aurélio Alonso, é editor regional do JC