Quem opera cotidianamente no mercado, estabelecendo estratégias de vendas, administrando indicadores, enfim, fazendo com os resultados sejam alcançados, está convivendo o que podemos denominar de o "lusco-fusco" econômico. O lusco-fusco, que é a transição entre o dia e a noite, tanto no horário vespertino como no horário matutino, deixa a pessoa confusa. Quem está dirigindo no final da tarde utilizando óculos de sol, não sabe se o retira ou o mantém.
E de manhã? O motorista sai de madrugada de casa e no início da manhã vem o sol nos olhos, por vezes remetendo a um soninho sem controle, coisa perigosa para quem está dirigindo, demonstrando a necessidade de adaptação do corpo para este momento. Também o lusco-fusco representa um momento ímpar da natureza, com uma beleza rara, com combinações de cores que mostra que a vida deve mesmo ser vivida intensamente.
De certa maneira é isso que vem ocorrendo com a economia brasileira. Em certos momentos é revestida de coisas boas, semelhantes a crepúsculo, e em outros momentos é uma verdadeira confusão, que pode remeter à sonolência ou ao perigo da indefinição.
De um lado a economia nacional possui um enorme potencial. Mercado consumidor ávido por consumir. Uma classe média (Classe C - renda por pessoa da família de R$ 320 a R$ 1.120) robusta, que segundo pesquisa recente da Serasa atinge mais de 108 milhões de pessoas (54% da população brasileira) e de outro lado uma paradeira geral, com adiamento de investimentos produtivos.
O próprio mercado acionário brasileiro vem precificando este momento de indefinição do país. Um olhar crítico em relação à política econômica brasileira indica que o governo federal é incapaz de fazer o básico, ou seja, controlar seu apetite em gastar. A política fiscal está frouxa e com ela a desconfiança de que as contas públicas não fecharão. Não se observam esforços para gerar sobras primárias (receita menos gastos, sem contar o pagamento de juros) e com isso indicar que a dívida interna está controlada.
Também é evidente a pressão sobre os preços. Janeiro deste ano se apresentou como um ponto de alívio em relação à inflação, contudo, há preços represados desde o ano passado, a inflação vinda dos alimentos continua, e chegaremos ao final do ano muito mais próximos de 6% de inflação ao ano do que dos 4,5%, que é centro da meta.
Isso tudo exige aperto monetário, com juros mais altos, o que naturalmente engessa a economia. Previsões em relação ao crescimento econômico brasileiro estão sendo revistas, e de um patamar acima de 2,5% agora trabalha-se com números na casa do 1,5%. É muito pouco. Neste contexto, o emprego não prospera, a renda fica estagnada e os investimentos produtivos são adiados.
Observaram como é um verdadeiro lusco-fusco? Conviver com boas expectativas, mas observar que diariamente os indicadores se deterioram exige dos gestores das organizações capacidade em rever metas, estratégias, manter a equipe motivada e conviver com adversidade. O ideal seria ficar com a beleza do lusco-fusco, mas infelizmente a economia nacional está mais para a confusão entre o dia e a noite do que algo que possa ser contemplado.
O autor, Reinaldo Cafeo, é economista, diretor regional do Corecon e articulista do JC