Éder Azevedo |
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Estimativa é que o preço do café cobrado pelo produtor tenha subido 35% em um mês |
A escassez de chuva registrada entre o final do ano passado e o início deste ano castigou as plantações de café em toda a região, que deverão sofrer perdas de aproximadamente 25%, segundo estimativas do Sindicato Rural do Estado de São Paulo em Bauru. Além da redução quantitativa, houve queda na qualidade do produto, que não se desenvolveu como o esperado também devido à estiagem.
A situação é verificada nas plantações de todo o País. Como resultado, a especulação sobre a safra que só começa em maio já influenciou na alta dos estoques do ano passado, cuja saca (de 60 quilos) ficou 50% mais cara nos últimos três meses, alcançando a cotação de R$ 400,00 na Bolsa de Valores de Nova Iorque, que referencia o mercado.
No Brasil, o preço cobrado pelo produtor já subiu 35% em um mês e a tendência, conforme o sindicato, é de que continue subindo. A alta, embora não na mesma proporção, deverá ser sentida no bolso do consumidor dentro das próximas semanas.
Segundo dados do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), entre dezembro e janeiro, em Bauru, choveu menos da metade do esperado para esta época do ano – um fenômeno verificado em âmbito nacional.
Como resultado, a safra brasileira esperada de 50 milhões de sacas deverá cair para 37,5 milhões. O Estado deverá colher 1 milhão de sacas a menos do que as 4 milhões normalmente produz.
“A chuva é extremamente necessária durante a florada, entre setembro e outubro, e durante a formação dos frutos, entre janeiro e fevereiro – e sem temperaturas tão elevadas. O que aconteceu foi o oposto do que os produtores precisavam”, comenta Maurício Lima Verde, presidente do sindicato, vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp) e representante dos produtores brasileiros do setor privado na Organização Internacional do Café (OIC), órgão vinculado à Organização das Nações Unidas (ONU) e integrado por 80 países.
Irreversível
Exatamente por já ter passado o tempo de florada e frutificação, a queda na produção, neste momento, é irreversível. “O café está murcho no pé. Os grãos não se desenvolveram como deveriam e, daqui para frente, não vai chover como chove no final e início do ano. Mesmo com queda na qualidade, os preços vão subir”, completa Lima Verde.
De acordo com ele, a cotação da saca na bolsa de Nova Iorque, de R$ 400,00, já é paga ao produtor no Brasil. Para se ter uma ideia, o valor é 43% maior do que se pagava neste mesmo período do ano passado: cerca de R$ 280,00.
“O custo médio para o cafeicultor produzir cada saca é de R$ 358,00. Até alguns meses atrás, plantar café era o pior negócio do Brasil. Agora, a situação está equilibrada”, pondera. Embora a tendência seja de alta, Lima Verde adianta que, caso os preços se elevarem excessivamente, é provável que haja intervenção governamental para conter os preços, com o objetivo de impedir o aumento da inflação.
Ao consumidor
Embora o preço pago ao produtor pela saca de café tenha subido 35% no último mês, a elevação não deverá ser integralmente repassada ao consumidor. Isso porque, conforme explica Maurício Lima Verde, a matéria-prima responde por apenas 18% da formação do preço final do café no varejo. “O valor também é influenciado por outros custos como torrefação, embalagem, impostos, publicidade e especulação. O impacto a ser sentido pelos consumidores nas próximas semanas ainda não pode ser medido, mas será bem menor do que a alta verificada na cotação da saca”.
Balanço
O balanço sobre a expectativa de qualidade e quantidade a serem produzidas na próxima safra em todo o mundo, inclusive no Brasil, será realizado em reuniões da Organização Internacional do Café (OIC), que começam na próxima quinta-feira.
Segundo Maurício Lima Verde, por ser o maior produtor de café do mundo, é um país estratégico para o mercado global. “Qualquer problema enfrentado pela produção brasileira afeta todo o mercado internacional”, destaca.
Com safra anual de 50 milhões de sacas, o Brasil é responsável por 35% da produção em todo o globo.
Etanol deve continuar subindo
A falta de chuvas também provocou a alta de preços do etanol, que ficou 10% mais caro nas últimas duas semanas, conforme revelou matéria publicada na sexta-feira pelo Jornal da Cidade.
Sem irrigação em quantidade suficiente, as plantações de cana-de-açúcar não se desenvolveram como deveriam e, por este motivo, a colheita, prevista para ter início em abril, precisará ser atrasada em cerca de dois meses.
“Até lá, a tendência é de que o combustível continue subindo, já que as usinas não devem abrir mão de produzir açúcar para sobrar mais matéria-prima para o álcool. Mas, assim como em relação ao café, o governo poderá intervir para evitar o aumento da inflação”, observa Lima Verde.
