Os anjos da morte? Ou os anjos do asfalto? Eles estão cansados de nos recolher, a nós que nos matamos ou somos assassinados no tráfego das estradas, cidades, esquinas deste país. Os anjos da morte estão exaustos de pegar restos de vida botadas fora. Eles andam fartos de corpos mutilados e almas atônitas. Os anjos da morte suspiram por todo esse desperdício.
Não sei se as propagandas que tentam aos poucos aliviar essa tragédia ajudam tanto a preservar vidas quanto as intermináveis, ricas e coloridas propagandas de cerveja ajudam a beber mais e mais, colaborando para uma boa parte dessa carnificina. Mas sei que estou no limite... Não apenas porque abro jornais, TV e computador e vejo a mortandade em andamento, mas porque tenho observado as coisas em questão.
Recentemente, dirigindo numa autoestrada (Piratininga para Londrina-PR), percebi um motorista tentando empurrar para o canteiro central um automóvel que seguia à minha frente na faixa esquerda, na velocidade adequada ao trajeto. Chegava provocadoramente perto, pertinho, pertíssimo, quase batia no outro, que se desviava um pouco lutando para manter-se firme no seu trajeto sem despencar...
Logo adiante, para tudo, um acidente grave. O motorista do automóvel assediado, um senhor de cabelos brancos, desce, vai até o automóvel do imbecil agora parado à sua frente, fala, gesticula, numa justa ira.
Depois volta ao automóvel, em que a família o espera. Recomeça o tráfego, perco os dois de vista. Mas fica em minha memória um motorista boçal tentando fazer um inocente perder o controle de seu automóvel. Era inconsequente por natureza, era um agressivo perigoso nas estradas, ou estaria "simplesmente" alcoolizado às 8 horas da manhã? Outro dia observei na televisão um motorista, apanhado a quase 200 por hora, sendo entrevistado, ainda dentro do automóvel. Fiquei impressionado com seu sorriso idiota, o arzinho arrogante, o jeito desafiador (você sabe com quem está falado?), o jeito desafiador com que encarou a câmara num silêncio ofendido, quando perguntado sobre as razões da sua insanidade. Todo o seu ar era de quem estava coberto de razão. A lei e a segurança dos outros e a dele próprio nada valiam diante da sua onipotência... Atenção, meus queridos jovens! Os jovens são ? em geral, mais não sempre ? mais arrojados, mais imprudentes, tem menos experiência na direção. Portanto, são mais inclinados a acidentes, bobos ou fatais, em que a gente mata e morre.
Mas há um número impressionante de "azes" do volante de adultos ? mais homens do que mulheres, diga-se de passagem, porque talvez sejam biologicamente mais agressivos ? cometendo loucuras ao dirigir, avançando o sinal, quase empurrando o veículo da frente com seu para-choque, não cedendo passagem, ultrapassando em locais absurdos sem a menor segurança, bebendo antes de dirigir, enfim, usando o automóvel como um punhal hostil ou um fato frustrado.
Cada um se porta como quer ? ou como consegue. Isso vem do caráter inato, combinado com o mais importante ? a educação recebida em sua casa. Quando esse comportamento ultrapassa o convívio cotidiano e pode mutilar pais de família, filhos e filhas amados, amigos preciosos, ou seja lá quem for, estão é precisando instaurar leis férreas e punições comparáveis. Que não permitam escapadelas nem facilitem cometer a infração com branda cobrança. Que não admitem desculpas e subterfúgios, não premiem o erro, não pequem por criminosa omissão... Precisamos em quase tudo de autoridade e respeito, para que haja uma reforma generalizada, passando da desordem e do caos a algum tipo de segurança e bem-estar.
Os motoristas americanos e europeus impressionam pela educação. Não por serem bonzinhos ou melhores do que nós, mas porque temem a lei, a punição, a cassação da carteira, a prisão, por coisas que aqui entre nós são consideradas apenas "normais", meros detalhes, "todo mundo faz assim". Autoridades justas, mas muito rigorosas, é o que talvez nos deixe mais lúcidos e mais bem educados: em casa, na escola, na rua, na estrada, no bar, no clube, dentro do nosso automóvel. E os fatigados anjos da morte (ou do asfalto) poderão, se não entrar em férias, ao menos relaxar um pouco... Concordam? Estou certo ou errado? Portanto, seja paciente na estrada para não ser paciente do hospital!
João Álvares