À medida em que os convidados chegavam, eram acomodados na ampla e luxuosa sala de visitas. Mais afeitas a essas coisas, as senhoras tinham o mesmo ponto de vista: Todos deveriam ter sido recepcionados pelo casal anfitrião e não apenas pelo marido. Essa era uma regra básica de etiqueta social, que jamais deveria ter sido desprezada.
Enquanto os aperitivos eram servidos, as madames confabulavam, procurando motivos que justificassem a ausência da dona da casa. Provavelmente, um problema com o cabeleireiro ou com a manicure. As mais criativas tinham uma explicação mais audaciosa: a anfitriã pretendia fazer uma entrada triunfal, com toda pompa e circunstância, descendo as escadarias como uma rainha e, como tal, sendo aplaudida e reverenciada.
De repente, o anfitrião pediu a atenção de todos. A expectativa tomou conta do salão: finalmente, o grande mistério seria desfeito. Mas a decepção foi geral: Ele apenas anunciou que o jantar seria servido em 15 minutos. As senhoras entreolharam-se, tentando entender o que estava acontecendo. A mais ousada não se conteve e interpelou o anfitrião: afinal, onde estava a dona da casa? Sem se abalar, ele explicou tudo. Sua esposa sempre tivera um grande sonho: passar uma temporada na Polinésia Francesa. Como presente pelas bodas de prata, ele oferecera essa viagem a ela. Entretanto, como os compromissos profissionais não permitiam que ele se ausentasse, ela havia ido sozinha. O alívio foi geral, acompanhado por expressões de admiração. A mesma interlocutora expressou a sua surpresa: "Se com 25 anos de casados recebera um presente tão valioso, imagina só o que ela vai ganhar quando completarem 50 anos de casados?!" A resposta foi fulminante: "A passagem de volta!"
Em tempo: Essa história foi publicada, há muitos anos e de maneira concisa na Folha de São Paulo! Que afirmou que ela fora protagonizada por um jornalista que havia sido assessor dos ex-presidentes Jânio Quadros e José Sarney.
O autor, Ismar Pereira, é advogado aposentado e colaborador do "Opinião"