Douglas Reis |
|
|
Ivani mostra como faz para aquecer água no fogão à lenha; ao lado, a geladeira vazia, que foi queimada recentemente por conta das oscilações da rede elétrica
|
Quem conhece Ivani Pestana Oliveira da Cunha, 47 anos, se surpreende com sua desenvoltura. Moradora da comunidade do Jardim Europa, sabe empregar as palavras para contar o drama de cerca de 30 famílias da área que, assim como ela, vivem alijadas de banho quente e, em muitos casos, de geladeira ou televisor.
Embora “dividam” a avenida Affonso José Aiello, na zona sul, com moradores dos condomínios de alto padrão, quando chegam em casa não contam com energia elétrica capaz de lhes garantir vida digna.
Apesar de estar em área urbana, cada imóvel de madeira ou latão do local, também apontado como favela, conta com seu fogão à lenha para aquecer a água em substituição ao chuveiro.
Nenhum equipamento funciona no local porque a energia não é suficiente para atender toda a demanda. As casas em questão, algumas instaladas há mais de duas décadas em terreno da União, dividem a energia de dez postes situados próximo à quadra 8 da avenida.
Oito contam com relógio, que garante emissão de conta por parte da CPFL, informa Ivani, conselheira da Associação de Moradores da Comunidade do Jardim Europa.
De acordo com ela, é considerado “rico” na comunidade quem consegue comprar cabos mais grossos e potentes para levar a energia elétrica até sua respectiva casa. Os imóveis ficam a cerca de 300 metros da Affonso José Aiello, ao lado de um dos condomínios.
Com sorte, os mais “abastados” conseguem passar a noite assistindo à televisão. Em muitos casos, ela para de funcionar de repente. Ivani, por exemplo, perdeu recentemente a geladeira, que já desligava quando anoitecia por conta das oscilações da rede elétrica não oficial. Queimado e esvaziado, o refrigerador será transformado em armário, sem previsão para ser substituído.
Desmotivação
“Temos de fazer e consumir (alimentos) na hora”, queixa-se. Ela vive no local com o marido, um tio dele que faz tratamento na Sorri e a filha de 8 anos. Como o casal foi contratado para um trabalho temporário em uma chácara, locou dois dos cinco cômodos da casa para uma vizinha e seus três filhos. Em plena era tecnológica, ouvir música é o único alento de Tatiana Aparecida Moraes e das crianças – de 3 anos, 1 ano e 4 meses e o caçula com um mês.
“A situação é tão humilhante que as pessoas perdem a autoestima e ficam sem vontade de lutar para nada. Algumas, nem de pentear o cabelo”, comenta a conselheira da associação que, diferentemente de conhecidos, superou a fase de imobilização.
Manteve o ferro e a tábua de passar roupa como motivação, já que há 20 anos não alisa uma vestimenta nem para ir à igreja, compromisso que cumpre durante o dia para não enfrentar o breu das ruas sem iluminação pública.
Como já houve ocorrências policiais no bairro, ela prefere não se arriscar. A escuridão, porém, dificulta eventual socorro seja por parte do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), da Polícia Militar ou até do Corpo de Bombeiros.
A preocupação, inclusive, é com a possibilidade de incêndios ou acidentes. Os cabos puxados são instalados em postes feitos em madeira pelos próprios moradores que, no decorrer do tempo, apodrecem e cedem. Alguns fios já estão ao alcance de crianças e adolescentes. “Pode acontecer uma tragédia”, alerta.
Famílias vivem em área da União
A comunidade do Jardim Europa, ainda apontada como favela, nasceu há quase quatro décadas em área da União, que está prestes a doá-la para que sejam construídos imóveis do programa Minha Casa Minha Vida (MCMV). Como a regularização não está sacramentada, dispositivos legais impedem ou dificultam obras de infraestrutura. Enquanto o imbróglio se arrasta, as famílias do local também convivem com esgoto a céu aberto.
“Ninguém escolheu morar ali. Foi a oportunidade que nos apareceu. Todo mundo trabalha, mas não tem condições de comprar um terreno e erguer uma casa em outro lugar”, explica Ivani Cunha, conselheira da Associação de Moradores da Comunidade do Jardim Europa.
Ela, assim como seus vizinhos, espera ser contemplada com o MCMV, cujas obras não começaram porque ainda não foi publicada no Diário Oficial da União a doação definitiva da área.
Segundo a vice-prefeita Estela Almagro e coordenadora do Grupo Multissetorial do MCMV, a Prefeitura de Bauru já tem a doação provisória da área, mas o documento é insuficiente para que a Caixa possa dar a ordem de serviço. Ela deverá ir novamente a Brasília para cobrar agilidade no processo que, até para ela, está moroso. Dúvidas de ordem jurídica, porém, atrasaram o cronograma.
“Já temos o cadastro das famílias. O fato de estarem ali há muitos anos requer que o poder público enfrente o problema de forma que não falte água e luz. Água é direito supremo e energia é questão de saúde também”, comenta Estela. De acordo com ela, depois da ordem de serviço, as obras do MCMV levarão até 18 meses para serem entregues. Neste período, será necessário fazer uma força-tarefa para ajudar a comunidade.
“Temos de discutir possibilidades com o jurídico e com a CPFL. A lei é muito importante, mas sou a favor de mudanças conforme a evolução social. Vamos acionar nossa equipe multidisciplinar”, afirma a vice-prefeita, que assumiu as demandas de habitação em Bauru.
Responsabilidade
Como a comunidade do Jardim Europa está situada em área não regularizada ainda, tanto a CPFL quanto o secretário municipal de Obras, Sidnei Rodrigues, apontaram questões legais para não garantir energia elétrica e infraestrutura aos moradores da região.
A preocupação é que as medidas incentivem a ocupação irregular e o poder público responda posteriormente por isso. Oficialmente, a rede de energia elétrica que abastece 30 famílias citadas é considerada clandestina, popularmente conhecida como 'gato';
Sem área regularizada, a CPFL não consegue nem ao menos implementar o programa Rede Comunidade, dirigido às famílias carentes, informa a empresa.
Enquanto a solução definitiva não sai, a titular da Secretaria Municipal do Bem Estar Social (Sebes), Darlene Tendolo, explica que a pasta alugou há uma semana um imóvel mais próximo da comunidade, onde instalaráum polo do Centro de Referência da Assistência Social (Cras). "é uma comunidade muito participativa. Participa muito de cursos", destaca.
