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Um admirável mundo de zumbis

Luís Victorelli
| Tempo de leitura: 2 min

Ideias, fé, sexo, poder, dinheiro... Afinal, o que move o mundo? Eu fico com a emoção. As emoções movem o mundo! Não por acaso uma das mais impactantes obras que bem traduz a capacidade humana de prever mostra um mundo futurista onde todos são "felizes", porque privados das emoções. São os escritos de Aldous Huxley na sua magistral ficção (ou seria premonição?) "Admirável Mundo Novo" que contam essa história.

A fábula não é recente, é de 1931, e muito provavelmente você já deve ter lido ou ouvido falar. Mas nunca é demais refletir sobre algo tão atual.

Nesta obra octogenária nós, humanos, somos criados em laboratórios, manipulados biologicamente e condicionados a fazer parte de um tipo de casta. Dos "Alfa Mais" aos "Epsilons", dos garis do Boris aos reis do camarote, se esse mundo fosse real todos estariam "de bem com a vida", ou pelo menos seriam condicionados a isso. E assim, cada um no seu quadrado, todos acreditariam viver num mundo perfeito.

Mas, e se algo der errado e por ventura o sentimento florescer, romper como brotos numa árvore cortada? Dá-lhe "soma", uma droga que os liberta da realidade, e adeus problemas! Ao mergulharmos na essência que pauta o livro de Huxley podemos perceber uma semelhança bastante grande com uma outra obra, e de outro formato, desta vez um blockbuster. A sociedade do futuro imaginada no passado pelo escritor inglês parece encontrar-se com a sina do policial do futuro apresentada no presente por José Padilha, diretor brasileiro. No filme, RoboCop é um homem-máquina também criado num laboratório, manipulado tecnologicamente e que se torna um policial melhor quanto menores suas emoções.

Mas, e se algo der errado e por ventura o sentimento florescer, romper como brotos numa árvore cortada? Zera-se a dopamina, um neurotransmissor estimulante do sistema nervoso central. Isso o liberta da realidade, e adeus problemas! Uma característica é que em ambos os casos, a ciência é a grande aliada da "perfeição". Até aí tudo bem, o que deixam catastróficos os resultados é quando a ciência e a tecnologia tornam-se predominantes e a ética, nula.

Obras distintas, retratadas em ambientes próprios, com autores de épocas diferentes e com algo muito emblemático em comum: a emoção. Ou pior, a extinção dela como solução para nossas imperfeições.

Então num mundo perfeito, num futuro harmonioso e pacífico seríamos todos zumbis? É o que parece. Será que estamos mesmo tão longe dessas profecias ficcionais? Seguir os mesmos passos, emitir os mesmos sons, reproduzir os mesmos gestos... Programados, condicionados, controlados, sem afeto, sem paixão, sem amor. E se por esse preço tivermos como recompensa um mundo feliz para todos, seria um consolo?

O autor, Luís Victorelli, é jornalista e editor da Coluna Pensar, página de Ciências do Jornal da Cidade. É assessor de comunicação da USP, campus de Bauru, e preside a Associação Bauruense de Ciência e Tecnologia - ABCT.

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