Tribuna do Leitor

Ordem e progresso


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Em uma das últimas aulas de filosofia ? e faz tempo.... o professor, sempre entusiasmado, falava das transformações ocorridas na França ao final do Século XIX e da doutrina política que iria abordar - o Positivismo. Essa palavra, da lavra do filósofo Conde de Saint-Simon, foi posteriormente objeto de estudos pelo também filósofo francês Auguste Comte. Dizia o mestre e amigo, entre outras tantas incursões, que o Positivismo exerceu em nosso país enorme influência política na organização formal da República com a adoção do dístico Ordem e Progresso na Bandeira brasileira criada em 19 de novembro de 1889.
Segundo ele, Comte queria que sua doutrina tivesse as três palavras iniciais ? "Amor por princípio, Ordem por base e Progresso por fim." Essa preleção, considerada pelos alunos como aula magistral, jamais foi esquecida e agora, estando recolhido ao silêncio da biblioteca, passou a meditar sobre ela. O dístico Ordem e Progresso não o abandonava... e a palavra Amor tinha sido excluída... Fazia, como de praxe, a leitura de jornais da capital e do interior, havia assistido também aos noticiosos da televisão. Não havia sentido nenhuma ordem e nenhum progresso nestes últimos 124 anos..., aceitava, por certo, algumas exceções ocorridas ao longo do tempo.

Em seu cérebro fervilhavam as tragédias do cotidiano repetidas à exaustão pelos comunicadores na telinha. Acidentes com veículos; roubos, furtos, estelionatos; crimes banais e crimes passionais. Na mídia escrita os escândalos políticos e financeiros nos diversos níveis da administração pública; um misto de teatro e circo promovido pela justiça estava ou está fechando suas cortinas sob as vaia da torcida desorganizada. A impunidade alimenta revoltas e desatinos! Quando é dado ao leitor o direito de opinar, só se vêem palavras de indignação com os descalabros evitáveis e inevitáveis por parte dos titulares do poder.

Os únicos protestos que funcionam são aqueles expedidos por Cartórios, que, como sabido, têm o mérito de coagir inadimplentes...! - As janelas da casa grande seguravam o vento e a forte chuva daquela noite... e antes de apagar as luzes ligou o alarme do portão e da cerca elétrica, afinal, não se pode confundir barulho de trovão com barulho de explosão de caixas eletrônicos, ambos assustam na madrugada...! ? No quesito paz, em âmbito nacional e internacional, segundo os mesmos meios de comunicação, foram assinados nos últimos dias "Protocolos de Intenções". Assim como as ondas do mar, o fluxo e refluxo dos acontecimentos humanos espelham o crescimento da maré da insatisfação dos jovens, o crescimento da violência e a impotência dos homens responsáveis pelo dístico nacional para represar as águas desse mar revolto.

Pela manhã, a chuva ainda molhava o jardim e os pardais, em bandos, fisgavam insetos distraídos. Finalmente entendeu ser improrrogável o prazo para procurar nas Obras de Allan Kardec ? filósofo e Codificador da doutrina Espírita - a compreensão profunda das Leis da Ordem e do Progresso universal e pessoal e entender, ao final, que a exclusão da palavra amor, que poderia ter sido escrita na Bandeira como prevista na doutrina Positivist. Essa palavra está faltando para acalmar os corações aflitos.

Roque Roberto Pires de Carvalho

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