No dia dedicado às mulheres, tenho o costume de escrever textos falando sobre suas qualidades, exaltando suas virtudes e enaltecendo o seu encanto. No entanto, desta vez, a homenagem a elas fica direcionada a Elaine Cristina, jovem tragicamente morta em acidente com uma motocicleta, nos últimos dias. Ela deixa para trás o marido, duas crianças de 3 e 5 anos, o sonho de ser tornar professora. Ela batalhava por seu ideal, e para isso, tinha toda uma vida pela frente, tão estupidamente abreviada. Mas não foi só a Elaine Cristina que perdeu a vida no trânsito de Bauru. Também tiveram suas vidas ceifadas a Nathália, o Rafael Alberto, o Odair Aparecido e tantos outros mais. Todos pilotavam ou eram garupas de uma motocicleta.
Acidentes de trânsito não são fatalidades. Tão pouco se pode aceitar os ditos populares "foi vontade de Deus"; "Deus chamou sicrano para perto de si". Os acidentes ocorrerem porque as regras não são observadas, os riscos não são considerados, avaliados e prevenidos. A consequência é o acidente. E Deus, que é puro amor, quer que seus filhos sejam cautelosos, zelosos com suas vidas e com as dos outros.
Desde 1996 até 2011, as mortes devido aos acidentes com motos cresceram 1.032%. Neste mesmo período, perderam a vida 114 mil condutores/passageiros de motocicletas. Em nenhum destes 15 anos houve um único em que houvesse redução no número de mortes de usuários de motos. A elevação é contínua. Mesmo com uma calamidade pública desta magnitude, as autoridades governamentais pouco têm feito para mitigar os seus efeitos. Pelo contrário, o que se observa são incentivos à compra de veículos motorizados, principalmente, de motocicletas.
Por que as pessoas compram as motocicletas? Porque elas têm preços de aquisição relativamente baixos, a serem pagos em suaves parcelas a perder de vista. Além disso, ela é econômica e sua manutenção é barata. Não ficam paradas no trânsito lento e congestionado das cidades. Ora, com o transporte público de baixíssima qualidade e custos elevados, não resta à população de renda mais baixa alternativa a não ser a compra de uma moto. Na verdade, essas pessoas são ludibriadas pelas propagandas muito bem arquitetadas; são movidas pela necessidade de chegar ao trabalho, à faculdade, cumprir seus afazeres, tal como fazia Elaine Cristina.
Se o transporte público fosse de qualidade, não teríamos tantas "Elaines", "Rafaeis", "Nathálias" e "Odaires" sendo dizimadas e seus familiares e amigos chorando a perda trágica. Aliás, anualmente, no Brasil, são mais de 43 mil famílias chorando a perda de seus entes queridos em acidentes de trânsito. Quando é que as autoridades vão criar coragem e fazer algo para evitar semelhantes tragédias? Estas pessoas, que nada fazem para mudar este status quo, deveriam responder por suas omissões.
Quantas e quantos ainda vão cair vencidos pelo poder de fogo desta metralhadora giratória - a "motralhadora" - que se chama motocicleta? Vamos todos ficar acompanhando o recrudescer destas estatísticas funestas? O país não precisa de pão e circo, nem de copa ou olimpíada. Precisa, sim, de estadistas capazes de enfrentar seus sérios problemas estruturais.
O autor, Archimedes A. Raia Jr., é engenheiro, especialista em Segurança Viária, doutor em Engenharia de Transportes, professor associado da UFSCar e diretor de Engenharia da Assenag