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Bafão da onça

João Jabbour
| Tempo de leitura: 3 min

A quinta 13 de março seguia seu ciclo de 24 horas quando, na 16ª volta do ponteiro, correu a notícia de que uma onça invadiu a cidade dos homens. Todos assanhamo-nos, cada qual com uma reação proporcional ao seu imaginário. Afinal de contas, o normal é o homem invadir a terra dos bichos. O contrário vira notícia e mobiliza do prefeito a fãs mirins de Luan Santana que comemoravam o aniversário do ídolo nas imediações do Parque Vitória Régia, onde o felino se refugiou. Não haveria palco melhor para tantos atores coadjuvantes nesta ópera da vida real de uma progressista cidade média do Brasil.

O fotógrafo Renan Casal registrava imagens de uma reunião do prefeito, no Palácio das Cerejeiras, quando Rodrigo Agostinho recebeu a notícia e saiu esbaforido em direção ao local. Era tudo o que, lá no fundo do inconsciente, o nosso estimado prefeito ambientalista queria para sair da rotina entediante de um gabinete lotado de pepinos e abacaxis. O fotógrafo também entrou em pânico. Afinal, como perder as imagens de um animal silvestre em pleno cartão postal da cidade!? Sem pedir licença, com faro de repórter, saltou dentro do carro foi prefeito e foi com ele ao encalço do fato.

Bombeiros, Defesa Civil, Polícia Ambiental, Polícia Militar, Ongs, Marinha, Exército e Aeronáutica foram mobilizados. Luiz Pires, o guardião das espécies ameaçadas, logo chegou para desmentir boatos que já circulavam pelo facebook sobre uma onça faminta foragida do zoológico rumo à cidade. No mesmo facebook, o ambientalista Clodoaldo Gazzetta apressou-se em advertir que cenas como esta serão cada vez mais comuns nas cidades em razão da fúria devastadora da ganância. Outros grafavam ?kkkkk?, com a mentalidade ainda estacionada no tempo em que animais existiam para ser caçados e virar casacos de madames.

Em minutos, centenas de bauruenses com smartphones pararam a Nações Unidas e registraram uma operação que perdurou durante quatro horas, até que os tranquilizantes fizessem efeito e a onça fosse resgatada. Carrinhos de pipoca chegaram antes das autoridades ao local. Afinal, daria para faturar algum com o espetáculo improvável em dia útil.

Os frequentadores do tradicional Convívio, estrategicamente localizado quase dentro do parque, puseram o assunto à mesa, entre uma cerveja e outra. Um dos comensais lembrou-se de pedir uma dose de Oncinha, marca de uma pinga fabricada em Ourinhos e que já foi muito consumida nos bares do mundo.

Na mídia, o assunto rivalizou com a morte do grande Paulo Goulart, com Lucélia Santos andando de ônibus circular lotado no Rio de Janeiro e com o tal Jerome Valcker criticando o Brasil (outra vez) no site da Fifa porque ainda não lhes entregamos os brinquedos, digo estádios, para um torneio de futebol.

O Estadão ligou à redação do JC por volta de 20h pedindo as fotos da onça de Bauru. Giuliano Tamura, da TV TEM, tratou de enviar suas imagens para o Jornal Nacional. Entre centenas de fotos produzidas também pelo Malavolta Jr., uma chamou a atenção. Nela aparece o prefeito, impávido, segurando uma das alças da enorme caixa onde o felino foi transportado até o Zoo. Rodrigo é, além de chefe do Executivo, autor do mais completo catálogo fotográfico com animais do cerrado bauruense. É só as escolas requisitarem...

No final da epopéia, com o êxtase coletivo aplacado, Luiz Pires foi fazer as honras da casa para a nova hóspede da cidade. As meninas e meninos que festejavam o aniversário do Luan deixaram o ídolo musical para lá e cercaram o prefeito para fotos e abraços. Era o ícone possível em carne e osso naquele momento.

Na terra onde, dizem, caiu o raio que apagou o Brasil, uma onça suçuarana deu uma patada na rotina e nos fez retornar ao noticiário nacional, agora de forma mais prosaica.

João Jabbour, diretor de redação do JC

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