Quioshi Goto |
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Dono de uma das bicicletarias mais antigas de Bauru, Antonino sofreu uma parada cardíaca esta semana
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Apesar de descrito em várias religiões, ninguém sabe ao certo como é o céu. Porém, quem conheceu Antonino de Oliveira tem uma certeza: ele foi para lá de bicicleta. Nesta semana, Bauru perdeu o proprietário de uma das mais antigas bicicletarias da cidade, a Bicicletaria do Português. Bauru perde também um pedacinho lusitano que vivia por aqui.
Aos 81 anos, Antonino morreu na última quarta-feira. Há algum tempo, ele sofria com problemas renais e, um mês atrás, teve um infarto. Apesar de uma cirurgia bem sucedida há uma semana, acabou tendo uma parada cardiorrespiratória e não resistiu.
Antonino trocou o País do Bacalhau pela cidade do famoso lanche há 62 anos. Na verdade, trocou apenas fisicamente. Em seu coração, ele certamente carregava os dois. Declarava abertamente sua paixão pelo Brasil, contudo, o sotaque com “s” chiado e o “p” “apertado” deixava claro sua nacionalidade.
Algo que se comprovava na cozinha, com os sempre presentes bacalhau, vinho do Porto e azeite de oliva. “Ele era uma pessoa especial. Adorava os filhos e os netos. Amava muito minha mãe. Foram 58 anos de casados. Ele era preocupado com todo mundo”, conta o filho Vitor Antônio Mateus de Oliveira, 55 anos.
Logo que chegou a Bauru, Antonino foi parar em uma oficina mecânica. “Vim de Portugal para Bauru quando tinha 23 anos para trabalhar como mecânico, mas o dinheiro não dava. Um dia, por uma peça do destino, um japonês pediu que eu consertasse a bicicleta dele. Ficou tão feliz com o serviço que me prometeu arrumar mais clientes”, contou o português, em entrevista concedida em 2010 ao Jornal da Cidade.
“A bicicletaria era a vida dele. Ele gostava de ver todo mundo ser bem atendido. Não considerava que tinha clientes. Ali, ele tinha amigos”, completa Vitor.
Início do sucesso
Em 1955, começava o negócio que mudaria sua vida. Abria uma pequena oficina no fundo do quintal de sua casa, na quadra 3 da rua Sete de Setembro. Logo, a bicicletaria prosperou e se transferiu para o Centro da cidade. Em 1969, acabou mudando para a quadra 6 da rua Monsenhor Claro, onde funciona até hoje.
“Quando estava fazendo hemodiálise, ele começava a chorar. Mas chorava justamente por ter que ficar longe da bicicletaria. Ele amava aquele lugar”, conta a sobrinha Maria da Graça Oliveira, 54 anos. “Ele era como um pai para mim”.
Apesar de chorar quando fala da perda de Antonino, a sobrinha “quase filha” sabe que ele fez o que amava até os últimos momentos. “Sabíamos que, se ele ficasse em uma cama, iria morrer triste. Então, queremos levar a imagem alegre dele. Foi um tio, um pai e um amigo”, finaliza.
Além de Maria da Graça e de Vitor, Antonino deixa a esposa, Maria Amélia de Oliveira, de 76 anos, o filho Joaquim, o sobrinho Manoel, além de três netos.
O eterno dono da Bicicletaria do Português foi sepultado anteontem, no Cemitério Jardim do Ypê.
A famosa bicicletaria
É difícil encontrar em Bauru algum ciclista que já não teve aros alguma peça consertados pela Bicicletaria do Português. Como o sucesso foi grande, Antonino de Oliveira expandiu seus negócios.
Ele chegou a ser investidor da Bolsa de Valores, ter um estacionamento de veículos e, claro, como um bom português, uma padaria.
Também adquiriu inúmeros imóveis e salões comerciais. Uma grande vitória para quem chegou ao Brasil, “com uma mão na frente e outra atrás”.
A bicicletaria na quadra 6 da Monsenhor Claro não irá fechar. A família garante.