Dois dos maiores negócios anunciados no mercado brasileiro em 2013 envolveram empresas de educação. A fusão de Kroton e Anhanguera - que, quando aprovada, dará origem a um grupo avaliado em R$ 12 bilhões - e a aquisição do Grupo Multi pela britânica Pearson, por R$ 2 bilhões, impressionaram até quem já esperava grandes transações no setor. Mas nem só de grandes operações vive a indústria da educação. Nas franjas desse movimento de gigantes, um mercado de empresas de tecnologia começa a ganhar espaço - e a chamar a atenção das grandes instituições.
Essa nova leva de negócios inovadores do ensino têm muito em comum. Seus empreendedores não são ex-donos de escolas. Eles tiveram histórias bem-sucedidas em outras áreas, como o mercado financeiro, e estudaram em instituições de ensino renomadas no exterior. Além disso, atraíram dinheiro - e a confiança - de investidores experientes.
O site Descomplica, que oferece aulas com conteúdo do Ensino Médio, atraiu, por exemplo, Peter Thiel, fundador do PayPal e o primeiro investidor-anjo do Facebook. No mês passado, a empresa captou mais US$ 5 milhões de um grupo de fundos liderado pelo Social+Capital Partnership, um dos mais conhecidos no Vale do Silício.
Nos EUA, esse mercado de empresas de educação vem se desenvolvendo há algum tempo e já tem até um apelido: EdTech. Segundo estimativas da Associação da Indústria de Software e Informação, esse segmento movimentou R$ 8 bilhões em 2013, só no ensino básico. Lá, existem dezenas de negócios nessa área - de sistemas de gestão de ensinos a Moocs (sigla para cursos abertos online para a massa). A adoção por parte das escolas tem sido crescente, principalmente por causa de uma iniciativa do governo para padronizar o que é ensinado nas salas de aula de todo o País.
De acordo com o diretor executivo da Fundação Lemann, Denis Mizne, um dos principais canais de crescimento dessas empresas são os contratos com o setor público. Vender para governos, no entanto, não é uma tarefa fácil. “Esse é um grande desafio para essas startups”, diz.
Criada em 2011, a Evobooks, uma editora digital de conteúdo educacional, teve sua origem justamente no setor público. Seus fundadores, Felipe Rezende e Carlos Grieco, eram executivos da consultoria multinacional Bain & Company quando começaram a prestar serviços para o governo federal, que havia acabado de comprar tablets para equipar escolas públicas. Foi ali que eles tiveram a ideia de levar as pesadas apostilas escolares para os dispositivos móveis. Hoje, a Evobooks distribui seu conteúdo para 2 mil escolas e pretende faturar R$ 20 milhões neste ano.
Parceria inusitada no game infantil
Xmile, empresa que desenvolve jogos educacionais para crianças, teve origem numa parceria inusitada. Os sócios se conheceram em Harvard, num curso voltado para donos de empresas. Roberto Kaplan, de 40 anos, trabalhou durante sete anos no mercado financeiro, e hoje é dono do descolado restaurante Venga, com unidades no Rio e em São Paulo. Nicolas Peluffo, de 34 anos, é da família fundadora do resort de luxo Ponta dos Ganchos, que fica em Governador Celso Ramos (SC). Formado em administração, ele é sócio do resort e trabalhou na operação até 2012, quando decidiu dar uma reviravolta na carreira.
Em Harvard, os brasileiros se depararam com o case de uma companhia americana que, sem sucesso, tentou criar um jogo educacional. Desse estudo, nasceu a ideia de montar jogos infantis para PC e plataformas móveis. A companhia recebeu R$ 1,6 milhão de três investidores anjo e apoio da Fundação Lemann. Como não tinham experiência no ramo, os sócios convidaram uma especialista em educação, a doutora Maria Isabel Leite, para coordenar a equipe de 19 pessoas, entre programadores e roteiristas. O primeiro jogo da Xmile está sendo usado em quase 1,5 mil escolas do País.
Dos bancos para a sala de aula
Foi no Credit Suisse que os empreendedores Claudio Sassaki, de 40 anos, e Eduardo Bontempo, de 30, se conheceram. Lá, como executivos do banco de investimento, eles ajudavam empresas a captar dinheiro e assessoravam fusões e aquisições. Na época, o segmento de educação privada já estava entrando em ebulição. A ideia que originou a Geekie, empresa focada em “ensino adaptativo”, surgiu no Massachusetts Institute of Technology (MIT), onde Bontempo fazia MBA e teve contato, pela primeira vez, com o tema. Depois de muitas videoconferências madrugada adentro, Bontempo largou o MBA pela metade e Sassaki se demitiu.
A proposta da Geekie é fazer com que o conteúdo se adapte ao aluno e não o contrário. A empresa desenvolveu, por exemplo, simulados para o Enem em que os estudantes conseguem, a partir do resultado, descobrir com precisão suas deficiências. A empresa ganha dinheiro vendendo as ferramentas para as instituições de ensino - hoje são 250 clientes. A plataforma já foi usada por 2 milhões de alunos, em 20 mil escolas. A Geekie recebeu investimento de Jorge Paulo Lemann, da Ambev, e da Família Gradin.
Nova onda
Nova onda entre os investidores da Evobooks está Anibal Messa, um dos primeiros a colocar dinheiro no Buscapé. Após uma passagem pelo fundo Temasek, ele montou a empresa de venture capital Plataforma Capital e diz estar à procura do “Romero Rodrigues (fundador do Buscapé) da educação”.
Messa presenciou o surgimento da primeira geração de startups brasileiras na década de 90. A grande maioria delas estava focada no e-commerce - modelo de negócio em que apenas um programador e um pequeno empresário conseguiam colocar o empreendimento de pé. “Agora a gente vive um momento parecido, mas com negócios muito mais complexos, que exigem a integração de profissionais variados (como pedagogos, psicólogos, roteiristas)”, explica.
Não há estatísticas precisas no Brasil que indiquem o número de empreendimentos criados ou o potencial do segmento de EdTech. Mas os principais executivos do setor apontam para um futuro em que as novas tecnologias serão praticamente uma commodity. “Nenhuma instituição de ensino poderá se dar ao luxo de não tê-las”, diz Ryon Braga, fundador e presidente da consultoria Hoper, especializada em educação.
É provável que, nos próximos meses, algumas das maiores empresas do setor anunciem parcerias ou mesmo incorporem startups à sua estrutura. “Está a ponto de acontecer uma revolução no mercado brasileiro”, diz o americano Russel Goldman, consultor de empresas em EdTech.
A Kroton já começou a rastrear negócios inovadores. Em 2013, a empresa lançou um projeto piloto com um pequeno grupo de alunos para testar o modelo de “ensino adaptativo” desenvolvido por uma startup. Neste ano, a instituição lançará três projetos similares, desta vez para alcançar 165.700 alunos. Com isso, a empresa vai testar duas plataformas brasileiras e uma internacional. “Essas tecnologias estão nos ajudando a descobrir um caminho novo”, diz Rodrigo Galindo, presidente da Kroton. A instituição já analisou 64 empresas de tecnologia educacional no Brasil e no exterior.
Ao que parece, gente interessada nos novos negócios não vai faltar. A nova safra de empreendedores da educação só precisa provar que fez a lição de casa e que conseguirá ganhar dinheiro para valer com suas ideias.