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O golpe, 50 anos depois

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Estamos na antevéspera dos cinquenta anos do "golpe civil-militar" de 1964. Enquanto os historiógrafos passam em revista os fatos, com a isenção que a distância de meio século permite, na literatura surgem textos de exorcismo dos dolorosos anos de repressão e de resistência. A coletânea de contos "Você vai voltar pra mim", de Bernardo Kucinski, é ficção da mais alta qualidade, sem ser "engajada" ou panfletária. Conheci o professor Kucinski na Eca/USP nos tempos da pós-graduação. Kucinski tinha tudo para ser um poço de mágoas. Foi perseguido, torturado, exilado, expulso da universidade; sua irmã Ana Rosa foi morta com o marido nos porões da ditadura. Nem assim o autor passa a mão nas cabeças, tampouco nas consciências daqueles que tiveram a ousadia de se engajar na luta clandestina contra o regime. Reconhece a coragem e a grandeza do esforço, mas os vê, antes de tudo, como homens comuns, que cometem enganos e deslizes também.

No conto "A suspeita", o grupo de militantes discute sua responsabilidade sobre a loucura a que levaram um companheiro injustamente acusado de informante da polícia política. Eles reconhecem o engano, carregam o peso da culpa por terem conduzido um valente defensor da causa, ao descontrole dos sentidos. Mas, para se salvarem, se apegam a uma explicação racional: "É como diz o filósofo: o homem e suas circunstâncias. O sorriso era do homem, o DNA da loucura também já estava nele e as circunstâncias foram da ditadura. E ponto final." Repressão, brutalidade, tortura, ódio... E a pequena dor que ninguém viu. A História, mesmo a mais heroica, é feita por homens frágeis e cheios de contradições e isso só reafirma o valor da sua luta.

Toda guerra tem dois lados. Dizem que prevalece a história contada pelos vencedores. Aquela, que começou em 1° de abril (se assim quiserem) de 1964 e terminou em 15 de março de 1985 talvez não tenha tido vencedores e a Pátria seja a maior perdedora. Quantas promissoras lideranças perdidas e que hoje nos fazem falta. Aqueles que estão mortos, sem sepulturas conhecidas, detêm mais peso de qualquer governante, que é o peso da lei divina. O país ouve o lamento das Antígonas, que exigem enterrar os filhos e irmãos.

Os gregos acreditavam que nenhum morto poderia ficar sem os rituais fúnebres, sob pena de serem condenados a vagar 100 anos na margem do rio que leva ao mundo dos mortos. Na tragédia de Sófocles, Antígona cava com as próprias unhas a cova do irmão, desafiando a proibição do rei Creonte e é condenada a também ser sepultada, viva.

O distanciamento histórico é essencial para o levantamento dos fenômenos sociais com apurada isenção. Talvez se possa dizer que o maior avanço da historiografia recente consista nessa busca de objetividade: hoje podemos nos lembrar de que setores significativos da sociedade apoiaram a derrubada do presidente João Goulart. Jovens pesquisadores têm dado grandes contribuições. As Marchas da Família com Deus pela Liberdade expressaram efetiva insatisfação das classes médias urbanas. Muitos estudantes também apoiaram a deposição de Jango em 1964. Por tudo isso, o golpe de Estado, outrora chamado de "militar", tem sido melhor designado de "civil-militar". A serenidade possibilitada pelo recuo temporal e a grande quantidade de novas fontes documentadas nos permitem antever um futuro promissor para as pesquisas sobre os chamados "Anos de Chumbo".

Se entendermos o golpe apenas como o episódio que iniciou uma ditadura brutal, corremos o risco de construir leitura romantizada, segundo a qual a sociedade foi vítima de militares desarvorados. Quando a historiografia mais ousada se contrapõe a essa leitura vitimizadora, ela não está propondo um "revisionismo reacionário", que buscaria eximir de culpa os desmandos cometidos. Apenas se trata de reafirmação de algo óbvio: não há fatos históricos simples. Entender por que uma solução autoritária foi de algum modo aceita naquele momento, pode evitar que ela se repita. Na história da República existem muitos episódios anteriores de autoritarismo, tão próprio do fervor latino. O fato não possui partido político nem estrela na farda. Ele decorre da pesquisa histórica e sistemática do realmente ocorrido. O que não podemos admitir é o silêncio. Este sim, "corrompe a verdade", como bem disse a presidente Dilma Rousseff. Vou além: o silêncio agride a memória e a dignidade das vítimas, caçoa dos sentimentos das famílias e ameaça a cidadania.


O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC

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