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Torcida em tempos de Copa

Stephanie Kim e Andrezza Duarte
| Tempo de leitura: 8 min

Toda vez que Flávio de Campos vai assistir futebol com os seus três filhos é a mesma coisa: param o carro no mesmo lugar, fazem o mesmo caminho até o estádio, comem o mesmo sanduíche de pernil ou de linguiça dos vendedores ambulantes. "Ainda hoje, com os meus filhos já grandes, temos o nosso ritual. E posso dizer que os momentos mais sensacionais que eu guardo da minha relação com o meu pai e com os meus filhos são os momentos que fomos ao estádio torcer juntos", revela o professor do Departamento de História e coordenador científico do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Sobre Futebol e Modalidades Lúdicas) da Universidade de São Paulo à Educar para Crescer.

Assim como ele, muitas outras famílias brasileiras guardam lembranças como essas na memória. Seja em casa, seja no bar, seja na praça ou seja no estádio, torcer por algum time de futebol é uma experiência comum no Brasil. "A identidade futebolística é um componente muito importante na sociedade brasileira", diz o professor.

É o que acontece, a cada quatro anos, na casa da paulistana Salua Cury, mãe de três filhos e avó de cinco meninas, quando reúne a família para torcer pelo Brasil nos jogos da Copa. O ritual é antigo e ela faz questão de que seja completo: a sala do apartamento ganha decoração verde-amarela, todos usam camisas da seleção, sopram apitos e cornetas. "A Copa é muito mais que futebol. É um momento de troca, no qual podemos conversar, brincar e aprender uns com os outros. Estamos juntos na mesma sintonia", conta Salua.


Violência e exemplo

Atualmente, porém, muitos pais colocam esse hábito em dúvida por causa dos frequentes casos de violência que são relatados na imprensa em dias de jogos - como ocorreu em dezembro de 2013 na partida do Vasco contra o Atlético Paranaense pelo Campeonato Brasileiro. Ainda que estejamos acostumados a relacionar esse comportamento violento apenas com a torcida organizada, o problema está na forma como os torcedores em geral se comportam hoje em dia.

"Uma coisa é torcer porque eu sou a favor daquilo e quero que dê certo. A outra é quando você passa a ser contra alguma coisa - o que envolve o desejo de destruição. A partir do momento que você começa a desrespeitar a torcida adversária, isso é um estopim para desencadear a violência", explica Katia Rubio, psicóloga e professora da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo e membro da Academia Olímpica Brasileira.

É difícil apontar por que os torcedores têm se comportado dessa maneira, mas uma das causas apontadas pelos estudiosos consultados é a falta de outras referências de vida, de noções e de modelos de comportamento éticos. "A rivalidade pode se tornar algo saudável, se estimula o espírito esportivo", explica Leila Tardivo, professora de psicologia na Universidade de São Paulo (USP).

É nesse ponto que entra a família. "Muito desse comportamento nós herdamos dos pais. Como o pai é a principal referência da criança, se ela vai com ele ao estádio e ele xinga o adversário, ela pensa que pode fazer o mesmo. À medida que cresce, ela acha que deve ser melhor que ele - e, nesse caso, significa ser mais agressivo do que o pai", explica a psicóloga.

Por isso a importância de ensinar às crianças os valores que devem ser respeitados dentro e fora do estádio, para fazer do futebol - e do esporte em geral - um espaço mais seguro e democrático. "Que os adultos levem para o estádio as mesmas relações de convivência que desejam para as atividades em família, como respeito ao espaço do outro e às diferenças", diz a professora.


Por que torcer?

Construir identidade

Torcer para um time ou uma equipe faz parte da identidade do torcedor. Ele se identifica como tal e é daí que vem a sua vontade de torcer. Como estabelecido na Lei nº 10.671 - mais conhecida como Estatuto do Torcedor - "torcedor é toda pessoa que aprecie, apoie ou se associe a qualquer entidade de prática desportiva do País e acompanhe a prática de determinada modalidade esportiva".
Mas é preciso tomar cuidado com esse envolvimento emocional com o jogo, que pode levar a atitudes extremadas, como atos de violência ou mesmo uma falta de limites entre o que acontece dentro do estádio e fora dele - como quando a pessoa fica tão frustrada com a perda do time que isso afeta o seu desempenho profissional ou o seu comportamento em casa.
Esse amor pelo clube não pode ser, portanto, a única referência de vida da criança, mas sim uma entre as outras tantas paixões dela. "Antes de a criança torcer por um time, ela gosta do pai, da mãe, dos amigos, de super-heróis. Isso é muito importante para que ela busque o próprio caminho e as próprias referências de identidade", explica Katia Rubio.
Os pais devem pensar nisso também em casos em que o pai e a mãe torçam para times diferentes, para não impor essa "escolha clubística" aos filhos.

Conviver com as diferenças

É inevitável que se ouça xingamentos durante a torcida. É uma forma de expressar as emoções afloradas que toda partida de futebol ou de qualquer outro esporte desperta no torcedor. Mas é preciso problematizar isso. "Muitos desses insultos têm uma carga preconceituosa, que depois, voltando para a sociedade, sedimenta essa cultura da intolerância - seja ela clubística? ou com relação a outras identidades, como a de gênero", explica Flávio de Campos.
Ainda que no ambiente da escola ou da família seja possível controlar esse tipo de atitude, uma vez no estádio a situação fica mais difícil. A decisão do próprio professor, quando passou por isso, foi contornar a situação criando um próprio código entre ele e os filhos para não ferir os valores da família. "Quando fomos ao estádio e [meus filhos] me perguntaram se podiam xingar também, eu disse a eles que ensinaria um palavrão que seria o mais cruel que eles poderiam xingar uma pessoa e que todos iriam olhar para eles: ?visigodo?! Passou a ser um jeito brincalhão de descarregar a raiva entre nós", diz ele.

Fortalecer laços

No restaurante, em casa, na praça ou no estádio, torcer em família cria momentos de afetividade e de cumplicidade partilhada - que futuramente serão boas lembranças desse tempo compartilhado com os pais, tios, avós, primos. "Ainda hoje, ir ao estádio com meus filhos é um momento de reconciliação", revela Flávio de Campos. Para a terapeuta Leila Tardivo, essa prática ensina crianças e adolescentes a valorizar os momentos vividos em família: "formar uma torcida desperta alegria, amor, bondade e educação".
Essas memórias ajudam na hora em que enfrentamos divergências familiares, como forma de evocar os bons momentos que foram passados juntos.

Desenvolver a cidadania

"O futebol é um esporte democrático, que agrada a nação inteira: homens e mulheres, crianças e idosos, ricos e pobres", define a antropóloga Clara Azevedo. Para Flávio de Campos, porém, as mudanças ocorridas nos estádios nos últimos anos têm restringido o acesso das pessoas a esse evento.
Ele explica que até a década de 80, o estádio era um espaço democrático, onde havia espaço para todos os grupos e classes sociais: as tribunas, as numeradas, a arquibancada. E, em cada um desses setores, havia formas diferentes de torcer. Hoje em dia, porém, como forma de solucionar o aumento da violência, os estádios têm se tornado espaços cada vez mais fechados, privilegiados, adotando o modelo de arenas, o que favorece o domínio daquele setor do estádio da numerada, da cadeira cativa. Para Katia Rubio, "privar as pessoas de assistir o espetáculo do jogo é construir uma sociedade segregada". "O estádio deve servir como exemplo e reflexão cotidiana de uma cidadania democrática, tolerante, plural e participativa", completa o professor

Aprender a ganhar e perder

Como torcedores, vivemos a experiência da glória e do fracasso - e como seres humanos, também. "Portanto, ficar na expectativa por um final imprevisível ensina todos a perceber a importância de batalhar pelo melhor resultado. E também faz parte aceitar que nem sempre a vitória é garantida", avalia o historiador e professor Bernardo Borges Buarque de Hollanda.
O torneio mundial pode ser um jeito lúdico de perceber que as derrotas fazem parte da vida e virar o jogo depende de muita disposição. "Assistindo à Copa, os pais podem estimular crianças e jovens a perceber as estratégias de superação de times e jogadores. É possível ensinar que conviver com as decepções é um exercício diário, mas nem por isso tudo está perdido", sugere a terapeuta Leila. "Quanto antes as crianças forem expostas às dificuldades, como assistir ao time do coração perder, por exemplo, menos doloroso será o futuro delas. A tristeza é inevitável - e não atrapalha."
Mais do que focar no resultado do jogo, é preciso valorizar os elementos implicados nele: amizade, trabalho em grupo, esforço, busca pela excelência. Chamar atenção para esses fatos mostra que o que vale mais não é "cantar vitória", mas a forma como se ganha e como se perde. "É muito melhor perder de cabeça erguida do que ganhar de forma imoral", diz Katia Rubio.

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