Filme alemão sob a direção de F. W. Murnau, 1922, cinema mudo, depois Drácula na versão atualizada de Werner Herzog, em 1979. O vampiro Nosferatu (ator Max Schereck, como Conde Orlok), também conhecido por "Príncipe das Trevas", não roubava, não corrompia o poder público e as autoridades. Naturalmente, não usava óculos, claro! Enxergava (muito) bem, melhor na escuridão. Porém, necessitava somente de "calor humano" ? o precioso líquido escarlate, morno e viscoso, único alimento para manter a sua vida eterna. Quanto à procedência do "alimento" ? coloração viva e prazo de validade ?, não havia por que se preocupar. Se o "produto" estivesse contaminado, melhor ainda, mais suculento e prazeroso. Nosferatu, devido à sua natureza pródiga, além de imune, era imortal.
O pobre vampiro vivia enfurnado nas áreas mais sombrias de sua mansão, erodida pelo tempo. Solitário e carente não tinha amigos, mas contava com a ajuda do seu prestimoso mordomo ? soturno e debiloide ? digno absoluto de sua confiança e de obediência canina.
Ao cair do sol, sanguinário e insaciável, costa alquebrada, saía às ruas para ganhar o "pão de cada noite". Percorria bubônicos becos e vielas, prostíbulos e beiras de cais, à caça de sua próxima vítima, escrava do seu amor. Não tinha distinção de sexo, cor e raça, "todos eram bem vindos", contudo, a silhueta de uma virgem de pele alva, rondava seus sonhos de eterno galante, diuturnamente. Em um dia, ou melhor, numa madrugada de "labuta", coberta pelo "fog", conseguia penetrar os aposentos de uma nobre donzela e subjugá-la, arrebatar o seu coração, cair em dengos, para depois sugar de sua jugular direita, o precioso líquido tinto.
Dentro de sua indumentária hermética e trevosa, Nosferatu deixava entrever apenas o seu rosto esquálido e esbranquiçado. Em sua atividade hematófaga, "oferecia o escambo" ? às donzelas, o seu "carinho hipnótico" ?, mãos e unhas longilíneas, pontiagudas, que percorriam, tateando, sem pressa, os colos febris de suas ninfas, em troca de apenas o seu alimento vital. Entretanto, aos seus opositores, jovens, cinquentões e sexagenários, nenhuma concessão, tolerância...
Nosferatu, em sua eterna vida notívaga, sob a mesmíssima roupagem penosa, não precisava de luxo, beleza, holofotes, nem de dinheiro para a sua sobrevivência. O "escambo", como já mencionado, era o modo prático e necessário para que ele conseguisse o seu elixir da longa vida. A princípio, não me preocuparia, tanto, com o infeliz longevo vampiro, mas antes de dormir, por precaução, passaria os ferrolhos nas portas e janelas, colocaria restas do mais picante alho roxo e um crucifixo de prata em cada aposento, uma lasca de madeira pontiaguda e uma bala de prata, ambas debaixo do travesseiro.
Não obstante, contra famigerados saqueadores do Erário Público, todo cuidado é pouco. Mudaria imediatamente a minha senha eletrônica bancária, ou melhor, sacaria o que resta e depositaria em casa, sob sete chaves, e um "RoboCop" 24 horas.
Laerte Mazetto