Muito daquilo que eu sei ou que sou devo ao meu pai, João Pedro da Silva, sim senhor. Homem simples, que ainda rapaz, aos 24 anos, deixou Tacaratu, pequeno lugarejo do Estado de Pernambuco.
Chegando à Alta Paulista, foi trabalhar na lavoura cafeeira, como empregado nas terras do meu avô, acabou fugindo com minha mãe, depois de casarem na igreja (meus avós eram muito católicos) voltaram para que ele pedisse sua mão, mesmo já tendo-a. Lá nasceram os dois primeiros filhos, ingressou na Noroeste do Brasil, na cidade de Lins, onde nasceram mais três filhos, passado alguns anos foi transferido para Bauru, aqui nascemos eu e mais duas irmãs, totalizando os oito filhos, por minha mãe gerados e criados por ambos.
Tão pequeno como ligeiro, trabalhou 30 anos, 3 meses e 21 dias na ferroviária e todo o resto, fora dela, aliando outras funções como feirante entre outros trabalhos para complementar a renda familiar, nunca nos faltou nada para comer, muito pelo contrário. Ainda que os tempos fossem outros, sem esse consumismo exagerado, sem muita diferença de classes sociais, fomos muito felizes.
Hoje, neste sábado de sol (08/3), muito triste, o sr. Joãozinho, depois de cumprir sua missão, de enfrentar o calvário da doença física, partiu, mas certamente com a alma intacta.
Nunca negou nada a ninguém que dele precisou, manteve uma horta que cuidava num canto da ferrovia nos momentos de folga, quando colhia vinha distribuindo para quem encontrasse pelo caminho. Na feira, onde o ajudávamos na venda de frangos, por mais de 10 anos, volta e meia flagrávamos dando, de graça, o que estava ali para vender e ajudar no orçamento.
Meu pai, uma lenda viva, se foi, mas deixou a mais preciosa das sementes, a do amor. Seguiu triunfante, num cortejo de anjos, querubins e serafins, em um trem, com seu terno de gala e seu sorriso largo, com o apito da locomotiva vermelha e as trombetas dos anjos. Foi-se feliz, e nós todos, mamãe, irmãos, genros, netos e bisnetos num aceno triste e alegre de até um dia, João Pedro da Silva (Pernambuquinho), papai, nosso guerreiro.
Demerval Assis da Silva