Quioshi Goto |
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Há 50 anos Dora se dedica à autoria e direção de textos teatrais |
Se a decoração de uma casa pode revelar a personalidade do morador, a residência de Dora Girelli fala sobre a vitalidade, alegria e incontáveis histórias da entrevistada de hoje. Foi em seu ambiente aconchegante e curioso (já que cada objeto faz pensar sobre o seu significado e origem) que Dora recebeu a equipe da Entrevista da Semana. Descendente de portugueses, ela coleciona itens antigos da família, alguns da família real portuguesa e com mais de cem anos. “Acho que uma casa sem enfeites é um corpo sem alma”, acredita.
Autora e diretora, há 50 anos ela dedica sua vida ao teatro e tem cerca de 30 textos autorais e adaptados. Coordenadora do Grupo de Teatro Educativo Abertura, Dora também atua no Carnaval bauruense e já acumula ao menos sete prêmios de melhor enredo. “Nasci em fevereiro, tenho loucura pelo Carnaval, sou mangueirense, faço samba-enredo e vivo pesquisando sobre o assunto”, completa.
Carioca da Vila Isabel, ela quebrou paradigmas na década de 1960 quando se interessou por futebol, história que rendeu passagens curiosas: “Fui tão a fundo que comecei a dar aulas de futebol para os moleques da escola, da rua. Apitava os jogos deles e definia quais seriam as jogadas. Formei dois times femininos, comentei o jogo do Palmeiras e América, ao vivo, pelo Campeonato Paulista de 1967, no estádio Mário Alves Mendonça, e cheguei a me corresponder com o Rivellino. Mandei uma carta para ele dizendo que não gostava do Corinthians e nem dele, mas queria saber sobre futebol. Ele me respondia”, relembra, com bom humor.
Jornal da Cidade – Você cresceu no Rio de Janeiro?
Dora Alice Zamariolli Girelli – Na verdade, eu nasci na Vila Isabel, no Rio de Janeiro, mas não vivi por lá. Meus parentes moravam na Vila e em outros bairros da região, mas a minha avó morava no Flamengo e eu vivi mais nas zonas sul e norte. Minha avó também tinha casa em Petrópolis, de onde também coleciono lembranças da infância e adolescência, mas sou suburbana com muito orgulho da Vila Isabel. Amo a minha terra e as coisas do Rio. Entretanto, eu também cresci na cidade de Bálsamo, na região de São José do Rio Preto, onde vivi por muitos anos. Meu pai era paulista e foi o primeiro prefeito do município de Bálsamo. Minha mãe e meu pai se casaram e, quando ela engravidou, voltou para o Rio para que eu nascesse perto da minha avó. E minha infância foi assim: metade no Rio de Janeiro e metade no Interior de São Paulo.
JC – Ou seja, você vivenciou duas realidades diferentes ao mesmo tempo.
Dora - Eu cresci, ao mesmo tempo, na vida pacata de Bálsamo e no agito do Rio de Janeiro. Eu convivi com o pessoal de atitude simples, caipira e honesta do Interior de São Paulo e com a loucura do Rio, do Exército nas esquinas dos anos 60. Tenho até uma passagem sobre isso. Quando a cantora Wanderléa lançou a música “Exército do Surf”, eles passaram a vender umas calças com uma fivela do Exército. Eu com 16 anos de idade usava o que bem quisesse em Bálsamo, lá não havia repressão. Até que soldados armados, no Rio, pediram para eu tirar o cinto, guardar na bolsa e ir para a casa. Ainda bem que foi só isso, né! (risos).
JC – Quando você chegou a Bauru?
Dora – Em 1978. Já estava casada e vim por causa de uma transferência de trabalho do meu marido, Antônio. A gente se conheceu em Campinas, casamos e a empresa Robert Bosch, onde ele trabalhava, abriu um escritório em Bauru. Estamos aqui há 36 anos e meus dois filhos são bauruenses.
JC – Você também morou em Campinas?
Dora – Meu pai era médico sanitarista e foi denominado diretor regional da Saúde, da regional de Campinas, com mais de 80 cidades. Por isso nos mudamos para lá. Depois ele foi o secretário da Saúde do Estado de São Paulo, no governo do José Maria Marin. Meu pai foi um homem humilde e um médico que entendia muito de saúde pública. Minha mãe nasceu no Rio, gostava de ir ao Teatro Municipal e ver de perto toda a cultura do Rio.
JC – O Carnaval é herança do Rio de Janeiro?
Dora – Nasci em fevereiro, tenho loucura pelo Carnaval, sou mangueirense, faço samba-enredo e vivo pesquisando sobre o assunto, tanto que coleciono os sambas-enredo cariocas. Acompanho o Carnaval do Rio e já mexi muito com o Carnaval de Bauru, devido a essa vontade e experiência que eu tenho sobre os enredos. Nunca desfilei no Rio de Janeiro e, em Bauru, meu primeiro desfile foi este ano, pela escola Azulão do Morro. Eu não gosto de desfilar, mas fui a pedido da Cidinha.
JC – Você escreveu samba-enredo para quais escolas de Bauru?
Dora – Estive envolvida com o Carnaval bauruense de 1988 até 2000 e escrevi enredos para quase todas as escolas da cidade. Recebi alguns prêmios por este meu trabalho - foram sete de melhor enredo. Escrevi para a Cartola, Deixa Falar, Coroa Imperial, Império da Vila, Tradição, entre outras.
JC – Mas o futebol é outra herança, certo?
Dora – Sim, e inclusive tenho muitas histórias curiosas sobre o assunto. Sou Flamengo de paixão e gosto muito de futebol. Veja só: em 1963, eu comecei a me interessar por futebol, pedi para alguns meninos me explicarem sobre as regras e táticas e fui pesquisando o tema tão a fundo que comecei a dar aulas de futebol para os moleques da escola, da rua. Jogava bola com eles, apitava os jogos deles no campo e definia quais seriam as jogadas. Formei dois times femininos e, um dia indo a São José do Rio Preto, cidade bem próxima de Bálsamo, fui convidada a participar de um programa esportivo chamado “Mesa Redonda”, da Rádio Independência.
JC – Para comentar uma partida?
Dora – Foi para falar sobre futebol. Mas eles viram que eu entendia do assunto e me convidaram para comentar o jogo, ao vivo, do Palmeiras e América, pelo Campeonato Paulista de 1967, no estádio Mário Alves Mendonça, antigo estádio do América de Rio Preto. Eu fui. Adorava (risos). Minhas amigas me falavam que isso não era coisa de mulher, isso e aquilo, mas acho que elas tinham um pouco de ciúme, porque não era toda mulher que tinha coragem de se envolver nesses assuntos. Mas eu gostava, tinha o apoio da minha família, e não me arrependo. Até me correspondia por carta com o Rivellino, para obter mais informações sobre o mundo do futebol. Mandei uma carta para ele dizendo que não gostava do Corinthians e nem dele, mas queria saber sobre futebol. Ele me respondia (risos).
JC – E quando você abriu as cortinas para o teatro?
Dora – Um ano depois de conhecer o futebol, em 1964. Ou seja, escrevo e dirijo textos teatrais há 50 anos. Atualmente estou com as peças “Noel Rosa – Quem Nasce lá na Vila”, uma homenagem ao meu conterrâneo; “Pensão muito louca”, uma comédia contra as drogas, prostituição e corrupção infantil, em cartaz desde 1991 e “O Sonho não Pode Acabar”, com histórias do comportamento do meu grupo de amigos na década de 1960, em uma cidade pequena do Interior de São Paulo. Ainda este ano vai entrar “Brasil, que país é este?”, uma sátira à história do Brasil, e “Carolina”, que eu escrevi em 1968 em cima da música do Chico Buarque de Holanda.
JC – Fale sobre o seu grupo de teatro.
Dora – O meu grupo, Grupo de Teatro Educativo Abertura, tem 27 anos em Bauru. Ele é voluntário. Nós não ganhamos nada, nem patrocínio, e não dependemos de políticos. É tudo feito pela paixão pelo teatro. Temos artistas dos 13 aos 57 anos de idade.
JC – Quantas peças você já escreveu?
Dora – Quando comecei a escrever, eu demorei uns dez anos para entender que eu tinha de registrar as peças, isso quando me mudei para Campinas e conheci a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (Sbat). Não sei direito, mas devo ter uns 30 textos entre adaptações e obras originais.
JC – O que o teatro representa para você?
Dora – Eu sou a favor do teatro como um meio de você se comunicar socialmente, saber conviver e respeitar as pessoas, saber sair de situações difíceis do cotidiano e viver vários papéis... Isso para mim é tudo. Eu aprendi teatro estudando sozinha e assistindo o teatro de vanguarda e o teatro de comédia na antiga TV Tupi. Depois vieram as tragédias gregas e tudo mais.
JC – Qual é a sua formação?
Dora – Eu me formei como professora primária, depois fiz faculdade de história e geografia e sociologia. Mas não gosto de dar aulas, não é a minha praia. Nem sei se os diplomas ainda estão inteiros (risos).
JC – Histórias inesquecíveis sobre os palcos?
Dora – Ah, muitas inesquecíveis e um tanto de outras estranhas (risos). Uma vez, montando uma tragédia grega em Bálsamo, decidimos ensaiar na plataforma da estação de trem, porque era um pouco afastada da cidade e deserta à noite, já que a peça era gritada. Levei uma tocha, roupas pretas e começamos a ensaiar. Só que o vento levou os gritos para a cidade e as casas começaram a ascender as luzes. De repente, um monte de gente começou a vir em nossa direção com pedaços de pau achando que estava ocorrendo um assassinato na estação. Nisso, veio também o trem da madrugada, que não parava por lá, e o condutor fez a maior cara de espanto do mundo quando viu aquela cena (risos). E o povo chegando perto. Eu pensei: como explicar o que estamos fazendo? Não iria dar tempo. Os meninos vestidos com as roupas pretas começaram a mexer os braços e todos saíram correndo. No dia seguinte, os moradores falam sobre um homicídio na estação, sobre magia negra... Deixamos assim, como uma lenda urbana (risos).
JC – Você sempre foi uma mulher “de alma livre”?
Dora – Não. E eu comecei a me envolver com o teatro e o futebol justamente por isso. Eu tive uma adolescência complexada, medrosa... Perdi um ano na escola por medo de encarar as pessoas. Mas eu disse: não sou assim, não nasci assim e não vou ficar assim. E decidi que meus psicólogos seriam o futebol e o teatro. E resolvi assim. Foi muito bom, fiz coisas incríveis. E, com o teatro, eu ajudei outras pessoas a superarem esse tipo de problema. Eu interpretei até 1971, mas sempre preferi escrever e dirigir.
