Civilizando a barbárie
O golpe de 1964 contou com o apoio da grande maioria da população brasileira, desde as camadas mais populares ao empresariado. Os militares não estavam sós e tiveram o respaldo da grande imprensa, com a exceção de alguns nanicos, como eram chamados os tabloides da militância ideológica. Sou contemporâneo desse golpe civil-militar e midiático que culminou num modelo autocrático-burguês, descrito por Florestan Fernandes. Vivi a ditadura como jornalista interiorano, sempre com muito medo ao tentar criticar nas entrelinhas os desmandos praticados em nome de certo "combate ao comunismo". Procuro me subsidiar na leitura de bons autores para suprir minhas deficiências. A obra seriada de Elio Gaspari sobre o período foi muito proveitosa. Creio que para muitos. Nos quatro livros, com aquele texto fluído próprio do jornalista, o autor permite conversação direta do leitor com os personagens. Afinal, é esta a característica de um grande estudo de História.
O primeiro livro valeu pelo clima da época janguista e o esclarecimento sobre a ascensão da linha-dura, movida pelo medo da anarquia interna; o segundo, pelos capítulos sobre os massacres das guerrilhas; e o terceiro, pela descrição das ambivalências da dupla Geisel-Golbery. O quarto, e talvez mais instigante (A Ditadura Encurralada, Companhia das Letras) mostra como a ditadura, em menos de dez anos, não soube converter seu relativo sucesso econômico e popular em projeto político; e como Geisel fez a abertura para a democracia sem ser exatamente um democrata. O "Alemão" odiava a ideia de eleições diretas e por isso fechou o Congresso. Geisel não era tão "liberal" como se imaginava - chegara a admitir a tortura. Com a morte do operário Manoel Fiel Filho, nos porões do Doi-Codi e, em seguida o destino trágico do jornalista Wladmir Herzog, suicidado pelo regime, Geisel resolveu desmantelar a tortura oficial. Seria por incompetência? Demitiu o ministro de Exército, general Syvio Frota, em 1977. A anarquia militar e o poder republicano do presidente enfrentaram-se. Era o confronto que o regime evitava desde 1964. O presidente mostrou autoridade para enquadrar os radicais fardados, em defesa do poder constitucional. Pelo menos da Constituição que eles mesmos aprovaram.
O porão estimulava mais prisões, torturas, desaparecimentos e suicídios; e a ala branda alimentava a distensão. Geisel ("o sacerdote") dava a partida a uma série de avanços e recuos, permissões e negações, marchas e contramarchas, exercitando em novos moldes a dialética do poder. O velho general Golbery ("o bruxo"), culto, mas doente, tentava lograr um significado mais profundo ao regime militar. Passou a maior parte do tempo explicando suas contradições. A dupla queria a distensão, desde que tivesse a prerrogativa de dizer qual, como e quando. Geisel queria menos ditadura tornando-se mais ditador. A pressão contra a abertura do regime foi maior do que aquela sentida por Medici para mantê-lo fechado. Os que acabaram com o nó da questão, sem querer, foram justamente os trogloditas, como o tenente-coronel Ustra, além de opacas figuras de energúmenos de porão que torturaram barbaramente homens dignos de ação, como fizeram com Wladimir Herzog. A cerimônia ecumênica em memória do jornalista morto realizada na Catedral de São Paulo, encomendada por Audálio Dantas, presidente do Sindicato dos Jornalistas foi o que deflagrou o movimento pela redemocratização do país. A atuação da imprensa começou a se fazer sentir com Claudio Abramo, Mino Carta, Carlos Castelo Branco. A firmeza de Ulysses Guimarães e do cardeal d. Paulo Evaristo Arns ditou o tom da convicção do povo; e a ação decisiva do jurista Raymundo Faoro no restabelecimento do habeas corpus (imagine), foram os ingredientes da composição do quadro decisivo da reabertura no governo Figueiredo, o último.
Com A Ditadura Encurralada, encontramos, no chão da História, todos os personagens em sua verdadeira grandeza. Encerra um período, e abre uma nova pauta, com perguntas inquietantes. Por exemplo, qual o papel dos empresários, inclusive os que financiaram a repressão, e que guardam silêncio pela vergonha de terem participado? Aliás, foi esta uma guerra na qual ninguém faz questão de ser aclamado herói. E, do outro lado do balcão, qual o desempenho anterior dos que tardiamente aderiram à redemocratização, quando esta já estava num caminho sem volta? Geisel teria realmente providenciado a "limpeza" prévia em certos porões dominados pela ultradireita? A história demanda tempo e amadurecimento, antes de ser História.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC