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Predestinação ou destino caprichoso

Alfredo Enéias Gonçalves d'Abril
| Tempo de leitura: 3 min

Até o momento em que escrevia este texto, o avião da Malasya Airlines desaparecido desde o último dia 8 durante o voo com destino à China, procurado intensamente na imensidão de uma área abrangendo oceanos e territórios encobertos por mata fechada, poderá jamais ser encontrado, somando-se ao mesmo enigma que lembra o sumiço em janeiro de 1979 de um jato cargueiro da Varig engolido pelo Oceano Pacífico durante a rota Tóquio-Rio de Janeiro, pilotado por Gilberto Araújo da Silva. Nem o avião nem destroços dele foram lobrigados pelos participantes das incessantes buscas realizadas.

A tragédia de 1979 com o cargueiro da Varig soou para o imaginário popular como o dedo do destino que traçou ao experiente comandante Gilberto Araújo da Silva, um dos poucos sobreviventes do grave acidente aéreo provocado por um desatento fumante que iniciou o incêndio do avião, obrigando o piloto Gilberto a fazer um pouso emergencial em uma área cultivada de cebolas, há pouca distância do aeroporto de Orly, na França, quase concluindo o procedimento de aterrissagem o que seria o desfecho de uma tranquila viagem. O desastre causou a morte de 123 passageiros por inalação de gás tóxico, sobrando 11 sobreviventes. Dentre os mortos encontrava-se o casal conhecido no meio social e empresarial de Bauru, Halim e Leila Haidar, em viagem de passeio à Europa. O comandante Gilberto escapou da morte nesse acidente mas morreu, em outro, cinco anos depois.

Havia em Bauru um médico psiquiatra de sobrenome Lagreca. Exercia a medicina e junto dela transparecia a vocação pela arte musical através do teclado. A intimidade mais estreita com o instrumento, o levou a apresentar-se em alguns restaurantes locais mostrando sua arte com o teclado durante jantares nos finais de semana.

Era motorista habilitado e dono de um automóvel Santana, entretanto, tinha medo de dirigir pelo espectro de envolver-se em acidente automobilístico. Seu motorista, chamado José Luiz o transportava como passageiro aos lugares designados. O pavor de acidentar-se fermentava na imaginação chegando ao extremo de comprar um caminhão para viajar nas estradas, notadamente até Pirajuí para atender seus pacientes daquela vizinha cidade. Respondia aos que lhe perguntavam sobre o meio de transporte escolhido que o caminhão por ser mais alto que o automóvel e de lataria bem robusta, dava mais proteção e segurança se participasse de um choque frontal. Em determinado dia do ano de 1995 o caminhão estava em reparos na oficina mecânica e a viagem à Pirajuí ocorreu no Santana. No retorno, ao cair da noite com o motorista conduzindo o veículo e o médico no assento ao lado, o automóvel atropelou um andarilho. O impacto arremessou o atropelado de cabeça contra o párabrisas do Santana, rompendo-o e atingindo com violência o rosto do médico. O andarilho teve morte instantânea e o médico foi hospitalizado, recebeu alta e faleceu bem depois.

Se estivesse viajando de caminhão, o corpo do atropelado entraria na cabine e acertaria o médico? Seriam essas tragédias meras coincidências ou o destino havia predestinado o final da vida de cada um deles.

O autor é professor universitário, aposentado

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