Ontem, o JC trouxe a excelente matéria "Pedestre ainda não tem preferência", do solerte repórter Vitor Oshiro. O texto mostra as agruras dos pedestres no trânsito bauruense. Se, por um lado, os condutores de veículos dedicam pouca consideração ao pedestre, de outro lado, este pouco faz para ser respeitado. É uma questão de absoluta falta de educação de ambos os lados. Neste caso, a Educação para o trânsito está muito falha em nosso país e, particularmente, em nossa cidade. Um trânsito seguro só é possível com o tripé conhecido como 3Es (Engenharia, Educação e Esforço legal-fiscalização) e que está totalmente em desequilíbrio. Considero, hoje, após muitos anos de trabalho na área, como gestor, consultor, docente e pesquisador no tema, que a "perna" do tripé Educação para o trânsito é a mais importante das três. Infelizmente, no Brasil, embora ela seja obrigatória por lei, esta atividade, por parte dos gestores de trânsito, não "decolou".
Certa vez, na cidade de Montet (70 km de Genebra, Suíça) vi um pequeno grupo de alunos do ensino fundamental correndo pela calçada, como qualquer grupo de crianças, em direção a um cruzamento. Quando chegaram à intersecção, uma destas crianças se destacou do grupo e se dirigiu ao centro da via. Ela levantou uma placa com a inscrição "stop", os veículos pararam e o grupo atravessou andando a primeira via. Esperaram, na esquina, o guia se dirigir à outra via e a operação se repetiu. Posteriormente, todos continuaram a caminhada de forma alegre e pueril, própria da idade. Vale lembrar que não existia nenhum adulto monitorando o grupo. Isto mostra a prática de ministrar educação para o trânsito desde a tenra idade.
Em Bauru, existiam poucas travessias semaforizadas para pedestres antes da instalação destes equipamentos na Rodrigues Alves e nas travessias do Calçadão. Quando da implantação dos semáforos de pedestres, seria necessário um trabalho exaustivo para que as pessoas se conscientizassem da travessia em tempo específico para isto. No entanto, isto ocorreu apenas de maneira rápida e descontinuada por parte do órgão gestor. Perdeu-se a chance para começar um programa de conscientização de pedestres e condutores. Hoje, os próprios pedestres não respeitam os semáforos.
Por outro lado, a Duque de Caxias, outra importante via, não possui semáforos específicos, apesar do grande volume de pedestres e veículos. Seria uma boa oportunidade para o órgão gestor dotar a via com este dispositivo, bem como começar um processo de conscientização permanente. A exitosa experiência de Brasília com a segurança dos pedestres nas faixas não foi mera casualidade. No final da década de 1980, a cidade era uma das campeãs de atropelamentos de pedestres nas faixas, com muitas mortes e feridos graves. Iniciou-se uma mobilização envolvendo toda a sociedade. Orientava-se os pedestres e punia-se os maus condutores. Todo este processo perdurou até que o hábito de respeito se incorporasse à educação de todos os envolvidos no trânsito brasiliense. Lembrando Pitágoras: "Educai as crianças e não será preciso punir os homens". Nunca é tarde para começar!
O autor é professor associado da UFSCar e diretor de Engenharia da Assenag