Março de 1964 viera sufocante com a nação dividida entre os que queriam e os que não queriam genéricas reformas. O radicalismo incendiava cabeças e turvava visões. O comício da Candelária detalhou as iniciativas reformistas escoradas pelo dispositivo militar. A oposição assustada, ostensivamente civil, fez contraponto nas ruas com Marchas da Família com Deus e pela Liberdade. Máscaras caiam. Na minha Araraquara, a Marcha da Família foi liderada por sacerdote, até dias antes orientador espiritual da Juventude Universitária Católica. A mudança de sua batina pelo avesso lhe fez mal, nunca mais recuperou credibilidade. Consta que, exilado numa discreta paróquia, despediu-se da vida pelas próprias mãos.
Nas minha velha academia do Largo de São Francisco a tensão ficara insuportável desde que o saguão de entrada fora metralhado por policiais. Os estudantes agrupavam-se, com variações, à direita e à esquerda. Nós, os legalistas que defendíamos soluções nos foros institucionais, no jargão de todos eles, éramos inocentes úteis. O restaurante do Centro Acadêmico XI de Agosto permanecia fechado em protesto orquestrado pelo administrador Chico Elefante, enquanto o garcom, Bernardo, que titulava os estudantes pelo valor da gorjeta (obrigado estudante! obrigado doutor! muito grato excelência!) permanecia detido depois de apanhado num comentário de rua pela polícia política. As refeições estudantis passaram para o Bar do Sardinha, portinha na Benjamin Constant, onde um pão, duas sardinhas fritas e meio copo de cachaça custavam dois mil réis.
Tudo indicava que saídas não seriam encontradas nos foros institucionalizados e que a locomotiva nacional desgarraria dos trilhos da legalidade. O dia 31 de março amanheceu nevoento de aflições, a Casa do Estudante (av. São João, 2044) permanecia vigiada e militares e agentes da polícia política ocupavam as ruas. A Rua Conselheiro Crispiniano que alojava o Comando do II Exercito estava interditada e foi dali que, no correr das horas, o general Amaury Kruel inclinou-se contra seu amigo Presidente para definir o desfecho do movimento militar.O largo São Francisco estava sitiado. O Professor Miguel Reale, então Secretário da Justiça do Governo Ademar de Barros, logo na primeira aula da manhã revelou-se em desconforto ao tratar da teoria axiológica do direito e na aula seguinte de Direito Processual Penal o professor Joaquim Canuto Mendes de Almeida, sempre sarcástico, anunciou movimentação militar em Minas Gerais e noticiou, com galhofa, que o "Habeas Corpus" estava indo para a cucuia. As notícias ruins se sucediam e a quebra da legalidade fazia estragos em todas as vidas, noticiada a vacância da Presidência e do Viaduto do Chá, assisti o empastelamento da Ultima Hora.
Notícias de colegas presos chegavam a todo momento, a Casa do Estudante foi ocupada, meu apartamento invadido a luz do dia e meu livro de cabeceira, Messidor, a bíblia dos namorados, de Guilherme de Almeida com encadernação em vermelho foi confiscado. Estudante comum com crença no valor da legalidade democrática, naqueles dias de arbítrio carreguei o peso da ruptura da ordem jurídica, perdi a inviolabilidade de meu domicílio, sofri confisco e por muito tempo cultivei, sem razão alguma, temor irracional de privação da liberdade. Hoje, quase cinqüenta anos depois, ao contrário de muitos colegas que perderam tudo, alguns a própria vida, constato que nada perdi. Ao contrário ganhei certeza, definitiva de que a legalidade e suas instituições são valores perenes que justificam e valorizam os bons combates. Diariamente, homenageando aqueles injustiçados, reafirmo essa crença.
O autor é advogado