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Rio: 'Testemunhas têm medo', diz advogado de família de arrastada

Folhapress
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O advogado João Tancredo afirma que duas das quatro testemunhas que dizem ter presenciado a morte da auxiliar de serviços gerais Cláudia Ferreira, 38, não prestaram depoimento "por medo de morrer".

"Foi medo puro. Elas moram muito perto de onde ocorreu o crime e foram alertadas do risco", disse Tancredo.

Uma das moradora que desistiu de prestar depoimento mora na região em que ocorreu o crime. "Um deles atirou em Cláudia, que caiu. Eu voltei correndo para a casa", contou ela à reportagem. "Depois retornei, encontrei Cláudia no chão morta e gritei para os vizinhos. Não havia ninguém na rua", afirma.

Tancredo, que representa a família da vítima, diz que foi atrás das duas testemunhas no início da semana para esclarecer sobre o Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas. "Elas não se sentiram seguras justificando que os policiais acusados são os mesmos que estão sempre na região."

O advogado aponta falhas no Sistema Nacional de Assistência a Vítimas e a Testemunhas Ameaçadas. "O programa visa levar a testemunha e o núcleo principal da família para outro Estado, onde esta é obrigada a ficar sem contato algum. Ninguém aguenta. Por isso muitos desistem", declara.

Em nota, a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República afirma que o programa de proteção foi criado para que, conforme as circunstâncias, a testemunha incluída possa ser obrigada a mudar de residência, afastar-se de amigos e familiares, manter seu passado em sigilo ou selecionar os locais que frequenta. Ainda segundo a nota, são vetados telefonemas sem orientações da equipe técnica.

A pedido da Promotoria, o juiz Murilo Kieling decretou ontem a prisão temporária por 30 dias de Rodrigo Boaventura (primeiro-tenente) e Zaqueu Pereira Bueno (segundo-sargento), outros dois policiais militares que atuaram a operação policial em que morreu Cláudia Ferreira.

O promotor Bruno de Faria Bezerra acredita que a decisão pode estimular as testemunhas acuadas a falarem. A prisão dos acusados, para Bezerra, colabora com o processo de investigação pois as testemunhas deixariam de se sentir intimidadas.

"Entendo que, com isto, outros depoimentos possam ser colhidos", diz. "A polícia tem até 30 dias para elucidar o crime, saber em que circunstância essa senhora morreu", observa.

O crime

Moradora do Morro da Congonha, em Madureira, zona norte do Rio, Cláudia Ferreira foi atingida por pelo menos um disparo e, ao ser conduzida por PMs em uma viatura, teve seu corpo arrastado no asfalto por pelo menos 250 metros na manhã do dia 16 de março.

Rodrigo Boaventura e Zaqueu Pereira Bueno prestaram depoimento à 29ª DP (Madureira). Na ocasião, segundo os advogados, eles disseram ter visto Cláudia quando ela estava caída no chão e, pela posição em que estava o corpo, descartaram a possibilidade de que ela tenha sido atingida por policiais.

Boaventura era o responsável pela operação e teria orientado a retirada de Cláudia do local.Naquela data, como informa o advogado João Tancredo, também prestaram depoimento as duas testemunhas.

A decisão da Justiça trata ainda dos três policiais que estavam na viatura que conduziu a vítima: Rodney Archanjo, Adir Serrano Machado e Alex Sandro Alves --o trio esteve preso até a semana passada, mas foram libertados por ordem da Justiça Militar no dia 20 de março.

O juiz determinou que Archanjo, Machado e Alves atuem de maneira restrita à unidade em que trabalham, não devendo participar de atividades policiais na rua, que eles permaneçam a pelo menos 300 metros do Morro da Congonha e que não entrem em contato com qualquer testemunha do caso.

Pelo menos dois dos três policiais que estiveram presos possuem registros de homicídio decorrente de intervenção policial. Machado constaria como autor em 13 homicídios e Archanjo, em três.

    


 

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