Bairros

?No meio das avenidas?

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 7 min

Normalmente constituídas por duas vias, as avenidas permitem grande circulação de veículos e servem como ponto de conexão entre bairros, sendo fundamental para a mobilidade urbana.                Boa parte dessas vias abriga canteiros, espaços que chamam a atenção tanto pela beleza que podem abrigar - como é o caso dos ipês que colorem as primaveras da Getúlio Vargas -, ou pela falta de manutenção e mato alto de tantas outras.  

Porém, mais do que beleza ou paisagismo, em princípio, os canteiros possuem uma finalidade básica quando observada do ponto de vista funcional da via. Segundo o professor de arquitetura e urbanismo da Universidade Sagrado Coração (USC) Danilo Gomes,  tais estruturas  desempenham a função de segregar os diferentes fluxos de tráfego das avenidas.

“Sabemos que essa segregação, por meio de canteiros ou não (isso pode também ser feito por estruturas físicas em concreto e outros materiais), é importante por fatores de segurança das vias, evitando, por exemplo, o ofuscamento da vista pelo cruzamento dos faróis dos veículos. Diante disso, já é possível imaginar diversas formas de elaborar essa segregação, considerando o dimensionamento necessário e as estruturas que podem desempenhar essa função primordial”, pontua.


Planejamento

De acordo com o professor,  um  projeto de avenida precisa considerar, para concepção dos canteiros, os fatores de fluxo. Por exemplo: é fundamental que em avenidas onde é permitido o retorno e o cruzamento da via, o canteiro central tenha o dimensionamento mínimo de 5 metros para que o espaço a ser ocupado pelo veículo em conversão não bloqueie os fluxos.

Já considerando um canteiro arborizado, o porte da vegetação deve levar em conta a dimensão deste espaço, de modo que o crescimento das árvores não prejudique o fluxo dos carros e nem as estruturas, como o asfalto. Quando não há planejamento adequado, veículos altos como caminhões e ônibus são prejudicados. 

Ainda segundo o professor, em Bauru, a avenida Comendador José da Silva Martha é um exemplo de canteiro dimensionado de acordo com o espaço necessário às conversões da via e para a arborização, salvo algumas exceções ao longo do trecho no Jardim Estoril.  Por outro lado,  a Getúlio Vargas apresenta canteiros estreitos e insuficientes para as conversões. Apesar de bela, a arborização implantada também não foi planejada, prova disso é o asfalto com problemas na região, conforme observa o professor.

 

Canteiros identificam bairros

Assim como outros espaços da cidade, a função dos canteiros não é exclusiva, ou seja, o seu espaço não interfere apenas nas condições de fluxo dos veículos, mas também pode contribuir para a arborização urbana e para a ampliação de espaços livres na cidade, contribuindo para o aumento da incidência do sol e dos ventos, segundo explica o professor de arquitetura e urbanismo da Universidade Sagrado Coração (USC) Danilo Gomes.

“Eles também podem contribuir para o fluxo de pedestres e a complementação de áreas de lazer, e não menos importante, para a composição estética”. Dessa forma, o professor acredita que o desenho gerador das avenidas e seus canteiros deve levar em consideração não apenas seus impactos no sistema viário, mas também a possibilidade de ser, sim, ferramenta do desenho urbano dos sistemas de áreas verdes e do conforto ambiental da cidade.

“Podemos considerar o potencial da utilização dos canteiros além das suas implicações no sistema viário, como uma ferramenta de desenho urbano e como elemento de identidade linear para o bairro em que está inserido e para cidade. Como um traço que indica e conduz os caminhos dentro dela”.

 

Paisagismo

Já o secretário municipal de Obras, Sidney Rodrigues, aponta que, hoje, a questão do paisagismo está sendo colocada em prática quando projetos de avenidas são criados. “Se observarmos as avenidas mais novas, veremos que algumas possuem canteiros que ultrapassam os cinco metros de largura, o que facilita o paisagismo, a arborização e a permeabilidade do solo, diferente do que aconteceu com a Rodrigues Alves e a Duque de Caxias”.

Outro item pensado, de acordo com o secretário, é a segurança do pedestre, que pode encontrar abrigo nos canteiros. “Eles ainda facilitam a construção de dispositivos como rotatórias mais extensas para facilitar a fluidez do trânsito”.

 

‘Falta manutenção’

“Na maior parte do tempo, o canteiro central da avenida Marcos de Paula Raphael fica coberto por mato alto. Eles limpam quando tem eventos por aqui, como foi o caso do Rodeio”, comenta o funcionário público e mototaxista Emerson Luís da Silva.

Para o morador do Mary Dota, a limpeza e o paisagismo desta que é uma das principais avenidas da cidade é primordial, até porque o canteiro é usado pelos moradores para descanso sob as árvores ou mesmo por vendedores ambulantes. “Eu acho que deveriam colocar bancos por aqui. Nós colocamos um, que fica durante o nosso expediente. Aposentados e clientes usam para descansar. Não seria muito bom se outros fossem fixados por toda a extensão do largo canteiro?”, comenta. 

A manutenção é de responsabilidade da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma) e da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), mas basta andar pela cidade para constatar o mato alto em muitos canteiros de avenidas. Em alguns deles, há trechos precisando de manutenção e outros sempre bem cuidados, estes últimos, adotados por empresas privadas instaladas na região.

Quem quiser adotar parte de um canteiro deve entrar com o pedido na Secretaria do Meio Ambiente, no Poupatempo, informando o local que a empresa/pessoa quer adotar.

 

‘Entre flores e pomares’

Árvores frutíferas, espécies de folhagens e flores e até algumas plantas para o uso medicinal e culinário. Tudo plantado com carinho e a esperança de que o trabalho inspire e conscientize os vizinhos a fazer o mesmo e/ou respeitar o que está feito. Assim é feito o “paisagismo” em canteiros de algumas avenidas nos bairros.

Cansados de esperar por manutenção do poder público, ver o mato crescer na rua de casa e abrigar lixo e até animais mortos, alguns moradores “adotaram” trechos desses espaços no meio das vias e fizeram deles jardins e até pomares.

Bem arborizada em praticamente toda a extensão dos canteiros ao longo das suas 29 quadras, a avenida Dr. Marcos de Paula Raphael, no Núcleo Habitacional Mary Dota, possui algumas quadras cuidadas por moradores. O comerciante Edilson Alves Ferreira é um dos exemplos. A quadra 1 da via, onde ele mora há 20 anos e tem o seu comércio, possui canteiros bem cuidados, com plantas ornamentais e frutíferas. São mangueiras, abacateiros, goiabeiras, entre outras delícias à disposição de quem por ali passa.

Segundo Edilson, tudo teve início, na verdade, com outro vizinho, o “seu” Lorisvalter, que começou a jardinagem desde que a avenida foi inaugurada. “Ele colocou as primeiras mudas, cuidou durante muitos anos, mas depois ficou doente. Então eu adotei o bonito trabalho dele”, conta.

Por causa da lama e para conservar as plantas, o comerciante fez uma espécie de passarela para os pedestres e clientes atravessarem a avenida. E o porquê da dedicação? “O poder público demora para dar manutenção, então a gente precisa fazer a nossa parte para deixar o bairro mais bonito e agradável”, responde. 


‘O problema é que nem todos colaboram’

No Núcleo Presidente Geisel há a avenida das Laranjeiras. São seis quadras com canteiro central coberto por plantas colocadas ali por moradores. Muitas delas, frutíferas. E alguns trechos ganham destaque devido aos cuidados extras que recebem dos residentes.

Este é o caso de um espaço no canteiro da quadra 4, onde vive a comerciante Maria de Lourdes Oliveira Timóteo, há 35 anos. “Lembro-me da inauguração do bairro. Por aqui era tudo mato. E a população passou a plantar flores, árvores e outras mudas no canteiro central da avenida. Eu, por exemplo, faço por amor à natureza. Gosto muito”.

Além do prazer de lidar com a terra, Maria lembra que cuidar da avenida foi uma das maneiras encontradas para espantar quem joga lixo e animais mortos no meio urbano, o que não é difícil encontrar também em canteiros com o mato alto. “Dessa forma, a frente da minha casa fica sempre limpa e com pingos-de-ouro, primavera, cactos, roseiras, hortelã e outras espécies enfeitando a rua e alegrando os olhos de quem passa por aqui”.

Entretanto, a comerciante se preocupa com a falta de colaboração de alguns dos habitantes do lugar. De acordo com ela, há quem quebre as plantas e roube as mudas, o que já aconteceu diversas vezes no “jardim de rua” que ela cultiva há cerca de 20 anos.

“Certa vez, eu plantei um pé de pimenta biquinho e imaginei que as pessoas pegariam as pimentas ainda verdes, mas para a minha surpresa, levaram a planta toda, pela raiz. Muitos destroem ao invés de ajudar”, lamenta.


 

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