"Eu tenho aids, p... Sou soropositivo, entendeu?", grita Beto, personagem vivido por Gregório Duvivier, para uma de suas ex-parceiras sexuais. É assim, direto ao assunto, que o Porta dos Fundos vai tratar da doença em Viral, série de quatro episódios, com 15 minutos cada um, que o canal de humor da internet lançará no dia 4 de abril. Na trama, o protagonista descobre ser portador do vírus HIV e vai atrás das últimas oito mulheres com quem transou para dar a notícia e tentar encontrar a transmissora.
"É um tema difícil e, por isso, achei interessante. Não temos temas proibidos, já falamos de tabus, de religião. Claro que, nessas situações, tomamos um cuidado triplo", analisa o ator, que não estranhou a proposta do roteiro, escrito por Fábio Porchat.
"Já estou acostumado com temas polêmicos. O Porta sempre busca algo diferente, que não se vê por aí. A aids está presente na vida e a gente trata como se já tivesse acabado, porém, é um problema. A gente não está rindo de quem tem aids, mas das situações", defende Ian SBF, diretor dos vídeos. "É para jogar uma luz sobre o tema", reforça Porchat.
Na história, Beto faz um exame de sangue por outras razões e descobre ter a doença. Devidamente medicado, ele procura as ex-parceiras na companhia do amigo Rafael (Fábio Porchat), que, na tentativa de encorajá-lo a contar a verdade, às vezes o atrapalha.
"Ele só fala coisas imbecis, como dizer que pessoas com aids só podem transar com outras pessoas com aids. A gente brinca com o que seriam as dúvidas das pessoas. O problema é a ignorância", avalia o colunista do Caderno 2.
Porchat teve a ideia durante uma viagem à África, continente com alto número de infectados pela doença. A inspiração veio após ele assistir ao filme 50%, em que o jovem Adam (Joseph Gordon-Levitt) descobre ter câncer e aprende a lidar com o problema com o apoio de um amigo. Outra fonte foi um episódio de The Office, em que um dos personagens tem herpes labial e precisa contar para as ex-namoradas.
Consultas prévias
Para entender melhor a questão, o humorista consultou ativistas e ONGs que tratam de portadores do HIV, o que já reduz os riscos de alguém reclamar quando tudo for ao ar. Ele também permanece em contato com uma médica para tirar dúvidas do roteiro. "Ela achou ótimo o fato de o amigo ficar ao lado dele. Quando uma pessoa revela que tem a doença, todo mundo se afasta."
Na pesquisa para a série, Porchat fez os colegas do Porta dos Fundos se informarem mais sobre a doença. Uma das novidades foi a abordagem sobre um teste para detectar o vírus por meio de fluidos orais, cujo resultado sai em até meia hora. O kit ainda está restrito a 40 ONGs, entretanto, segundo a Assessoria de Imprensa do Ministério da Saúde, deve chegar ao SUS até o fim deste ano. Na cena que o Estado acompanhou, em uma rua da zona norte do Rio, Beto diz, pelo interfone, a uma de suas ex-parceiras que está com o kit para ela também fazer o teste.
O objetivo, porém, não é fazer uma cartilha sobre a aids. "Não é uma série ativista. Mas há uma questão técnica em como falar sobre isso. O negócio é ser o mais real possível. Tem uma hora em que o personagem do Gregório fala que tem de transar com camisinha e fazer outras coisas, e o meu fala: ?O que é isso? Telecurso 2000? Teste de elenco para Malhação??. Quanto mais didático fica, é pior", alega Porchat.
O humorista conta que, ao trazer o assunto para a roda, os integrantes do canal de humor reviram suas atitudes em relação à prevenção da doença. "Qualquer homem pode dizer que já esteve em risco com uma doença sexualmente transmissível."