A construção de um píer no porto do Rio para abrigar transatlânticos que serviriam de hotel durante a Olimpíada de 2016 foi cancelada após consumir R$ 12,6 milhões do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) em cerca de um ano de obras.
A paralisação e o valor investido foram confirmados pela Companhia Docas, administradora do porto e do projeto, orçado em R$ 220 milhões. Segundo a empresa, a ordem para parar o projeto partiu da Prefeitura do Rio, após polêmica quanto à localização e o formato do píer.
O projeto, vendido como forma de suprir a falta de leitos para receber os visitantes durante a Rio-2016, era contestado porque os transatlânticos ancorados atrapalhariam a visão da nova área portuária, incluindo o museu do Amanhã, que está sendo construído em píer vizinho.
"Houve uma série de questionamentos por parte da sociedade civil organizada. Fui a duas audiências no Congresso Nacional e uma na Câmara de Vereadores do Rio para tratar do assunto", disse Jorge Luiz Mello, diretor-presidente da Docas. Ele afirmou que, na metade do ano passado, a prefeitura solicitou que o píer fosse construído em outro local, mas a mudança aumentaria o custo da obra em R$ 130 milhões, tornando-a inviável.
Em outubro, o impasse foi apresentado ao Comitê Organizador da Rio 2016, que sugeriu que não se fizesse nem o projeto original, nem a realocação, pois o empreendimento não seria necessário segundo a prefeitura, a meta de 43 mil quartos necessários para a Olimpíada está quase atingida e a cidade alugará apenas um transatlântico para o período dos Jogos.
"De fato, nem mesmo o porto precisa desse píer que receberia sete transatlânticos. Neste Carnaval, o Rio recebeu sete transatlânticos que ficaram aportados convenientemente na estrutura atual do ancoradouro da cidade", disse o diretor-presidente da Docas.
Segundo Mello, a obra era mais voltada para a cidade do que para os Jogos, mas o Rio não a quis. O projeto, no entanto, ainda continua previsto pela companhia, mas a mudança de local e de formato precisará ser debatida, assim como a origem dos recursos para bancar a nova obra.
"A Docas, a prefeitura e a sociedade civil terão agora até a Olimpíada para discutir qual o melhor arranjo para o píer e de onde sairá o dinheiro", disse o executivo.
Procurado pela Folha de S.Paulo, o consórcio Rio Y Mar, que venceu a licitação para fazer a obra, não quis se pronunciar. Segundo Mello, o consórcio, formado por Odebrecht, OAS e Carioca Empreendimentos, entendeu a motivação para o encerramento, que se deu sem qualquer discordância, embora se trate de um rompimento unilateral.
A construção do novo píer como forma de suprir a demanda por quartos de hotel foi sugerida pela Prefeitura do Rio e estava incluída no projeto de revitalização da região portuária, chamado Porto Maravilha. O projeto foi o segundo ligado à Olimpíada a ser cancelado na região em março, foi anunciada a transferência das vilas de mídia e de árbitros, que originalmente ficariam na área do Porto Maravilha.
A prefeitura argumentou que o custo da locação dos apartamentos que abrigariam jornalistas e árbitros, de cerca de R$ 100 milhões, seria mais bem investido em área carente de infraestrutura. O prefeito Eduardo Paes sugeriu ao Comitê Organizador mudar as vilas para Curicica, na zona oeste, em prédios que serão construídos e financiados pelo programa Minha Casa, Minha Vida, do governo federal.
O Comitê Olímpico Internacional (COI) ainda não deu uma resposta oficial quanto à transferência, mas disse que esta não é uma preocupação por conta de três outras opções à disposição da Rio-2016.