Tribuna do Leitor

Golpe de 64, a versão que ninguém conta


| Tempo de leitura: 4 min

O cenário internacional era a chamada "Guerra Fria", protagonizada por Estados Unidos e URSS. A essência estava no imperialismo americano e no comunismo soviético. A ideia "imperialismo" agregava interesses de exploração econômica de ambos os lados. É no conceito imperialista, embora defasado no tempo, que acendo minha lembrança do golpe militar de 1964. Imperialismo significava também a exploração econômica exercida pela Rússia comunista, atrás da "Cortina de Ferro" e, do lado de cá, pelos Estados Unidos. Em tese, os comunistas da América queriam libertá-la do imperialismo americano aliando-se aos russos.

A tese correlata devia acontecer do lado russo. Na verdade, eram as duas doutrinas políticas que monopolizavam o mundo da época. A soberania das nações estava fora de questão. Era pura fachada. O que contava era o interesse econômico do líder imperialista do bloco. A força dos blocos era o idealismo ingênuo dos adeptos de cada regime. Ora, o povo, tanto para um como para outro regime, não era (ou ainda é) mais que massa de manobra.

Em tal cenário, o golpe militar foi urdido já na renúncia de Jânio Quadros, em 1961. Conquanto ele não tenha explicado claramente as "forças ocultas" por trás do golpe, o escritor uruguaio Eduardo Galeano, em As Veias abertas da América Latina, explica. Conforme Galeano, em 1961, uma empresa mineradora americana, a Hanna, sucessora da inglesa Bethlehem Steel, explorava as montanhas de manganês do Amapá. No dia 21 de agosto daquele ano, Jânio revogava as concessões ilegais de exploração de manganês dessas multinacionais. Coincidência ou não, 4 dias depois, Jânio teve que renunciar, declarando na carta de renúncia que forças terríveis se levantaram contra mim.

Na sequência, Jango, sendo o vice de Jânio, conseguiu assumir a presidência (com o apoio militar de Leonel Brizola), frustrando o golpe dos militares contra sua posse, mas novo golpe já estava em andamento. Assim, não faltaram novos pretextos (nenhum me convenceu) para a derrubada de Jango em 64. O golpe brasileiro teve um efeito dominó, pois a ditadura militar foi se instalando, de forma semelhante, em todos os países da América do Sul, o que evidencia um monitoramento orquestrado dos Estados Unidos. Além da conspiração americana, a direita dos governos entreguistas também tramava golpes, pois de outra forma jamais chegaria ao poder.

Quando a ditadura deixou de ser interessante para os americanos, todos os regimes militares cederam vez à chamada redemocratização. Ou alguém pode acreditar em coincidência? O último presidente sul americano deposto por golpe tinha sido Salvador Allende, no Chile.

Os governos de Minas (Magalhães Pinto), da Guanabara (Carlos Lacerda) e de São Paulo (Ademar de Barros) aspiravam assumir a Presidência com o golpe, pois acreditavam que seria escolhido entre eles um civil, por isso aliaram-se aos militares. O tiro, porém, lhes saiu pela culatra (foram cassados também). Por esse prisma, o golpe militar nada mais foi que uma conspiração dos Estados Unidos e da direita. Pessoalmente, é nessa versão que eu acredito. O resto já se sabe: torturas, perseguições, mortes, desaparecimentos, sequestros e crueldades debitados à ditadura militar que durou 20 anos.

Com a anistia e a redemocratização, os perseguidos de ontem chegaram ao poder e, hoje, protagonizam o vergonhoso "Mensalão". Isto, sim, deve nos preocupar, atualmente. Justamente eles é que monitoram, do presídio, a tal comissão da verdade, instalada pela presidenta, uma ex-guerrilheira. E mesmo condenados e presos, continuam impunes. Eles estão tanto no governo como na oposição e não têm mais moral para imputar crimes à ditadura. Ninguém é confiável. O regime militar já está longe na pátina do tempo e não há mais nada a fazer. Qualquer crime da ditadura que tenha ficado impune ainda terá a justiça divina pela frente e desse ninguém escapa (pessoalmente estou bem certo disso). É preciso cuidar da violência e da impunidade atuais.

Atualmente, o povo brasileiro paga um preço muito caro pela democracia (nosso Congresso não vale o que custa, numa relação custo-benefício), tanto em vidas de idealistas imolados na luta como em corrupção e sujeira protagonizadas pelos que sobreviveram. Oscar Niemeyer bem define meu desencanto assim: construir Brasília para esses políticos que vocês colocaram lá foi como fazer um penico para eles encherem de m... Que fazer se o povo, os eleitores ? e mesmo as forças armadas ? somos todos reféns de corruptos. Simplesmente não há em quem votar!

Venício Augusto Francisco, advogado

Comentários

Comentários