O episódio do aparecimento de um exemplar fêmea, sub adulta, de Onça Parda (Sussuarana, Puma, Leão da Montanha, Leão Baio ou quaisquer outro nome regional que queiram) no Parque Vitória Régia, numa das avenidas mais movimentadas da cidade e muito próximo à região central, serviu para nos alertar de um episódio que tem se tornado cada vez mais frequente nas áreas urbanas de todos os município do Brasil. Animais selvagens que fazem "visitinhas noturnas" em nossas ruas, quintais, praças e avenidas e que acabam se assustando com tudo de diferente, não encontrando o caminho de volta e acabam virando atração nacional. Para os otimistas, trata-se de uma vitória da natureza, onde os animais estão ganhando a guerra contra a destruição, se reproduzindo em abundância e agora são tantos que nem cabem mais nas florestas. Para os pessimistas, é o começo do fim. Nas matas que sobram não existem mais alimento e os animais são obrigados a fugir para a área urbana para conseguir sobreviver. Para nós, técnicos, a leitura não pode ser assim tão simplista e a situação tem que ser analisada pelos mais diversos ângulos. Primeiro com a globalização, todo mundo fica sabendo "on line" o que acontece em qualquer parte do planeta, e com o desenvolvimento da tecnologia todos são portadores de uma máquina fotográfica junto ao celular, e a imagem do fato corre a velocidade nunca antes vista. Segundo, é notório que as cidades avançam cada vez mais nas áreas onde antes era o habitat de muitas espécies, interrompendo corredores ecológicos que há centenas de anos eram utilizados para o fluxo desses animais, que agora, ao utilizá-los, acabam encontrando um bairro, um loteamento ou o muro de um condomínio fechado, e acabam se perdendo no trajeto antes realizado pelos seus ancestrais. Terceiro, é que realmente estão vindo em busca de alimento, pois oferecemos um lixo bem rico em proteinas, e muito mais fácil de obter do que ficar tentando caçar algo na mata. Observem a fartura de restos de lanches, frituras, assados etc que toda a manhã se encontra espalhado nos sacos de lixo rasgados perto de pontos de alimentação dos humanos. Quem será que está rasgando? E por último, estamos acabando sim com o que resta de mata no entorno das cidades em nome de um crescimento (que na realidade mais parece um inchaço) e do desenvolvimento (insustentável) e assim os "sem florestas" acabam vagando entre os poucos e diminutos remanescentes florestais que sobraram. Bauru, por estudos realizados por um projeto financiado pelo ONU (Probio), é considerada Área Prioritária para a conservação do cerrado. Temos as Apas municipais pensadas no passado com esse intuito, mas que hoje são acusadas de atravancar o nosso desenvolvimento. Cabe aí sim uma discussão bem mais profunda. Queremos os animais selvagens nas matas? Queremos vê-los vagando pelas cidades sem rumo ou destino? Ou não queremos mais vê-los em liberdade em lugar nenhum? Finalizando, gostaria de parabenizar a Polícia Militar de Bauru, através de suas corporações envolvidas no resgate, que cumpriram com primazia seu papel; a Coordenadoria de Fauna da Secretaria Estadual do Meio Ambiente, que agiu com a rapidez necessária para o caso, localizando um local seguro e autorizando a soltura do animal; a imprensa, que soube manter a distância necessária para registrar a notícia e permitir o desenvolvimento do trabalho de resgate; e aos funcionários do nosso Zoológico Municipal envolvidos no caso, que mesmo sob pressão realizaram um trabalho com início, meio e fim, digno dos maiores elogios. Agora, sobre a Onça? Foi embora! Dentro de alguns dias ninguém se lembra mais do episódio, as discussões sobre o desenvolvimento da cidade voltam em pauta, até que uma outra chegue para um passeio matinal em nossa cidade.
O autor é diretor do Zoo/Bauru