Articulistas

A vida como ela é...

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Foi uma mancada o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada embaralhar números decisivos para a compreensão do fenômeno do machismo no Brasil. Informava a amostragem que 65% das pessoas consultadas concordavam que as mulheres com roupas consideradas provocativas mereciam ser estupradas. Na verdade, pela correção tardia, este índice é de 26% - um percentual ainda preocupante e inaceitável.

Números tão distantes num tema tão delicado comprovam um descuido imperdoável, com efeitos devastadores. A notícia correu o mundo e até os árabes ficaram chocados. Justamente a etnia que considera perdoável atacar uma mulher, somente porque usa maquiagem. O chocante é que o Ipea é um órgão público, criado há 50 anos durante o governo militar para orientar a implantação de políticas públicas. O instituto pelo menos reunia, no passado, a elite de pesquisadores, sociólogos e cientistas sociais.

Agora, abriga a militância com salários que chegam a R$ 20 mil que só tem feito valer aquela frase famosa de Mark Twain: "Há mentiras, mentiras malditas e estatísticas". Um número inflado mostrou um brasileiro quase caricatural, em que mais da metade dos entrevistados se mostrava absolutamente insensível aos avanços elementares da civilização. Mulheres foram às redes sociais exibir parte do corpo com cartazes "Não mereço ser estuprada". O terrível é que o Ipea manteve na pesquisa um dado alarmante quanto à questão que provocou reações em decorrência do erro: 58,5% dos entrevistados concordam com a ideia de que se as mulheres soubessem se comportar, haveria menos estupros. Vergonhoso para mais da metade da sociedade que ainda revela grau de machismo exacerbado, onde a tolerância com a violência masculina é aceita como algo natural.

Aqueles que querem encontrar justificativas históricas dizem que o machismo brasileiro é herança cultural trazida pelos portugueses nos tempos coloniais. Um grande jurista que chegou a presidir o STF, Evandro Lins e Silva, já aposentado, defendeu Doca Street no júri popular. O réu era acusado de matar a companheira Ângela Diniz, num acesso de ciúme, crime ocorrido em 1976. Ambos personificavam o jet set carioca e o caso teve muita repercussão. Ao defender o acusado, Lins e Silva procurou amenizar o crime como "produto dos costumes tradicionais da população". Segundo seu raciocínio, à legislação compete refleti-los, sob pena de ser, na melhor das hipóteses, irrelevantes. Ou seja: a ideia é de que para ter uma democracia é preciso que os costumes do povo sejam sempre a base da lei. Tudo o mais seria imposição inválida, já que não se estaria respeitando a maioria. Lavar a honra com sangue seria uma característica do brasileiro e merece perdão. Doc Street foi absolvido, nesse julgamento, graças à sagacidade do seu defensor e os machistas do júri. Houve uma onda de protestos. Mulheres saíram às ruas com faixas e cartazes: "Quem ama não mata". Anos depois, o então prefeito Paulo Maluf parecia concordar, pelo menos em parte com as manifestantes: "Estupra, mas não mata".

O corpo da mulher é objeto de desejo, mas também de posse. A sensualidade da mulher é o grande tema da publicidade. Mulher vende de cerveja a eletrodomésticos, mas quando tratamos de sexualidade, de liberdade sexual, a realidade é outra. Às mulheres recato, aos homens a iniciativa. E se o homem não exerce o seu domínio sobre o feminino é um banana. Como no caso contado por Nelson Rodrigues do marido submisso, que era tratado como um cão pela mulher e ainda lhe fazia festas. A história verdadeira teria se passado no próprio bairro onde morava o autor, e está em "O anjo pornográfico" (Companhia das Letras) do biógrafo Ruy Castro. Um dia o marido cansou de ser humilhado, e no meio da rua deu uma sova de cinto na cara-metade. Toda vizinhança chegou à janela para admirar o espetáculo. As próprias mulheres da rua torciam pelo marido agressor: "- Bate mais! Bate mais!". Ao ouvir os comentários das vizinhas, que tinham apoiado maciçamente a surra, Nelson concluiu: "Toda mulher gosta de apanhar". A história e a frase foram publicadas em "A vida como ela é...", página diária que Nelson escrevia para o jornal "Última Hora". A reação das mulheres cariocas veio forte. Os filhos do escritor tiveram que ouvir inúmeras vezes na escola: "Como é, tua mãe já apanhou hoje?"

Nelson era incapaz de fazer mal a uma mosca, principalmente do sexo feminino. Nem se preocupou em justificar. Afinal, na família patriarcal brasileira, que mulher pode gostar de um banana? Sua popularidade cresceu e o jornal em que trabalhava aumentou a tiragem, que já era hegemônica no Rio de Janeiro. Até o JC republicava os contos de "A vida como ela é..." Virou série na Globo.

O autor é jornalista e articulista do JC

Comentários

Comentários