Bairros

Criação rende multa a cada 3 dias

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 3 min

Fotos/Quioshi Goto

Cresce número de autuações do CCZ

Muita gente não sabe, porém, uma lei municipal de 1998 proíbe a criação de animais como porcos e galinhas em área urbana por conta do risco da proliferação de doenças, principalmente a leishmaniose. Mas a cena desse tipo de animais perambulando soltos em meio às ruas da cidade, mesmo 16 anos após a medida, ainda é comum.

Responsável pela fiscalização, o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) aponta que, nos três primeiros meses deste ano, foram emitidos 32 autos de infrações por criação em zona urbana. O número já representa 52% do total referente ao ano passado inteiro, quando 61 pessoas foram multadas.

Na lista das principais ocorrências, as aves são as campeãs. Proprietários de galinhas, patos, codornas, pombos e até mesmo de um pavão foram autuados na cidade nos últimos meses. Em seguida, o ranking traz os criadores de porcos e cavalos.

O registro das autuações contra criações em área urbana, contudo, não está concentrados em uma região específica, mas, geralmente, ocorre nas áreas periféricas.

“São pessoas de baixa renda que precisam desses animais para trabalhar, produzir ou até mesmo para a subsistência”, pontua a chefe de seção de controle de zoonoses, Nathália Salvadeo Parizoto.

“O problema é que a criação desses animais facilita a disseminação de doenças como a leishmaniose, histoplasmose (micose) e até a doença de chagas, que está voltando. Além de ajudar na proliferação de insetos e de carrapatos”, completa Parizoto.

Em uma visita rápida ao Parque das Nações ontem, o JC flagrou ao menos três cenas em que galinhas eram vistas pelas vielas de terra.

A situação foi denunciada por uma moradora do local, que pediu para não ser identificada. “Tenho medo de pegar leishmaniose. Muita gente já ficou doente aqui. O cheiro é insuportável. Aumentou muito o número de moscas”, reclama a moradora de 43 anos.

Mais um caso

Vale lembrar que restos de alimentos e fezes são ideais para a proliferação do mosquito palha, transmissor da leishmaniose.

Proveniente do meio rural, a moléstia passou a fazer parte da realidade de Bauru nos últimos anos.

Ontem, a Secretaria Municipal de Saúde confirmou mais um caso de Leishmaniose Visceral Americana (LVA) em Bauru. Trata-se de uma criança, do sexo feminino, de 3 anos, moradora do Jardim Vitória.

Assim, Bauru passa a totalizar três casos em 2014. Os outros dois ocorreram no Jaraguá e Vila Industrial. Em 2013, foram confirmados 27 casos de LVA, sendo que um deles evoluiu para óbito.


‘Porcos são a chance de um pernil no Natal’

Localizado entre o Núcleo do Jardim Europa e o Residencial Tivoli, a favela do Parque das Nações é um dos locais considerados problemáticos quando o assunto é criação de animais na zona urbana.

O JC conversou com um morador que cria porcos desde o final de 2013 no bairro. Em um terreno de chão batido e com aproximadamente 50 metros quadrados, ele divide a casa de madeira com um cercado onde cria onze porcos.

Daqui a três ou quatro meses, os animais serão vendidos e o dinheiro será revertido para o sustento da família de dez pessoas. “Não tenho como viver só com um salário mínimo. Faço bico de pedreiro e pego recicláveis, mas não é o bastante. Vi nos porcos uma chance de ter outra renda e de, quem sabe, comer um pernil no Natal”, comenta o jardineiro de 47 anos, que pediu para não ser identificado.

Questionado sobre a lei, ele alegou desconhecer. “Aqui é limpinho. É mais fácil pegar uma doença com o esgoto a céu aberto ou com esse lixo que o pessoal espalha aqui, porque não temos lixeiro, do que por causa dos meus porcos”, conclui.

Apesar da proibição por lei, criação de porcos ainda é comum no bairro Parque das Nações

 

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