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Na montagem, Gaita Azul e sanfona; na vida real, ele agora espera ganhar uma |
Perseguido pela polícia no Centro de São Paulo no fim do filme “O Beijo da Mulher Aranha” (1985), Luís Molina (personagem de William Hurt) se distrai com o som do acordeon que vem de uma escadaria. Junta-se aos populares, observa o músico de rua e segue seu destino. O sanfoneiro ali da cena é o mineiro Geraldo Moisés dos Santos, o Gaita Azul, hoje com 68 anos. Cego desde os três meses, ele também é perseguido, mas por um sonho: ganhar um instrumento e voltar a tocar.
Acolhido em Bauru há uma semana na casa de um primo, na Vila Garcia, região da avenida Nações Norte, Gaita Azul conta que teve a sanfona roubada em Jundiaí, onde vivia nos últimos anos com uma neta. “Precisei ir para o hospital, fiquei internado e, quando voltei, a sanfona não estava mais lá”, diz.
Como a família não tem condições de comprar o acordeon de 120 baixos, Gaita Azul resolveu contar sua história e, quem sabe, sensibilizar alguém que possa ajudar.
Ao JC, dá até uma dica. “Fala lá com a Sônia Braga, repórter. Uma sanfona pra ela não é nada”.
Jornal da Cidade – O que aconteceu em Jundiaí?
Eu tive pressão alta, anemia... Fui internado no hospital São Vicente de Paula. Quando voltei para a casa da minha neta, Loana Carolina, descobri que minha sanfona havia sumido. Ninguém sabe como, mas a verdade é que sumiu.
JC – O que o senhor fez?
Decidi que era a hora de tentar outro rumo e aqui estou de volta. Já morei em Bauru com a minha mulher, Maria, que já morreu. Já morei em Suzano, toquei lá no Calçadão. Na capital, então, foi por muitos e muitos anos... Melhorei de saúde, estou bem, quero voltar a tocar e ganhar meu pão.
JC – Como o senhor foi parar no filme “O Beijo da Mulher Aranha”?
Eu já tocava no Centro de São Paulo desde 1964. Praça General Carneiro, Parque Dom Pedro II, Praça da Sé, Rua Direita... Então apareceram os americanos. Uma parte queria o Gonzaga (Luiz Gonzaga), até viram ele tocar ao vivo... Mas um cara lá do filme fez um teste comigo e disse: “Vamos ficar com o ceguinho”. Eu morava em favela no Itanhim Paulista. Iam me buscar para gravar, pagaram cachê...
JC – O senhor está dizendo que desbancou o rei do baião?
Pro filme, foi. Sou temente a Deus, não posso mentir. Gostaram mais de mim, apesar que o Gonzaga era mesmo o rei. Conheci, tratava bem as pessoas. O fólio da minha sanfona era azul e a do Gonzaga, branca. Por isso eu virei Gaita Azul. É a verdade, filho.
JC – E depois do filme?
Continuei tocando por aí, sempre em ruas, feiras... Só agora parei porque sumiu meu instrumento. Preciso voltar.
JC - Como perdeu a visão?
Minha avó botou creolina com limão nos meus olhos. Achava que curava febre. Fiquei cego. Era tudo atrasado na roça e ela se confundiu.
JC – Além de ganhar uma sanfona, qual seu maior sonho?
Queria ir para os Estados Unidos. Lá eles têm recurso para curar olho furado, né?
Serviço
Para falar com Gaita Azul ou o primo, João Santos, ligue: (14) 3239-8151.
Produção concorreu a quatro estatuetas e também brilhou em Cannes
Fruto de parceria entre Brasil e Estados Unidos, “O Beijo da Mulher Aranha” concorreu a quatro prêmios do Oscar em 1986: melhor filme, melhor diretor (para Hector Babenco), melhor roteiro adaptado e melhor ator, categoria conquistada por William Hurt. Também foi indicado a melhor filme no Festival de Cannes (França). Já no Globo de Ouro, mais quatro indicações – inclusive para a brasileira Sônia Braga, como atriz coadjuvante.
Palavra de primo
João Dias dos Santos, pintor aposentado de 72 anos, recebeu Gaita Azul de braços abertos. “É sangue da gente”, resume. “Ele já morou em Bauru ali no núcleo Fortunato quando a mulher ainda era viva”.
Na casa de João, agora vivem em cinco. A família evangélica acredita em um desfecho feliz para o músico. “Se tem Deus no negócio, vai dar certo. Fora que, na sanfona, ele domina mesmo”.
Primo de músico também tem talento com um instrumento? João encerra o assunto: “Eu? Só toco o pé em toco no chão quando ando descalço”.
‘Batismo’
Sanfona, acordeon e gaita são o mesmo instrumento. É mais sanfona no nordeste; é gaita no Rio Grande do Sul; e atende por acordeon (ou acordeão) também em outras partes do Brasil.
