A falta de planejamento holístico e de visão de futuro, associada a um olhar enviesado e equivocado em direção ao rodoviarismo, tem levado as cidades brasileiras ao caos. A sua expressão mais saliente é a capital paulista onde, por diversas gestões, tem-se investido em obras viárias faraônicas questionáveis (pontes, viadutos, túneis, ampliação de vias etc). Estes elementos do trânsito possuem capacidade de resolver momentaneamente problemas pontuais de congestionamentos que, em curto e médio prazos, são "engolidos" por novas demandas atraídas, retornando às condições anteriores ou mesmo as superando. Antigamente se dizia que "São Paulo não podia parar...". Hoje ela está quase parada. Mas não só a capital passa por esta hecatombe. Rio de Janeiro, Brasília, Salvador, Belo Horizonte, dentre outras, apresentam patologias similares.
O Metrô de São Paulo começou a operar em 1974, tendo, após 40 anos, malha de apenas 74 km. Outras metrópoles globais possuem malhas muito superiores: Xangai (435 km), Londres (410), Nova York (370), Pequim (340), Tóquio (330), Moscou (310), Seul (290), Madri (285), Paris (215), dentre outras.
Se grande parte dos recursos aplicados no viário urbano fosse investida em transporte coletivo de qualidade, como é o caso de metrô, VLTs, BRTs, as cidades brasileiras não estariam passando por esses momentos agonizantes e aparentemente insuperáveis.
Estes exemplos negativos se disseminaram em direção ao interior dos estados e cidades de médio porte. Bauru não fugiu à regra. O exemplo mais proeminente foi a construção do "viaduto que nunca acaba". Nele já foi gasta uma verdadeira fortuna. Vale lembrar que toda esta quantia nababesca permitirá o funcionamento de somente uma pista de tráfego, sentido Falcão-Bela Vista. O projeto original, elaborado pelo genial projetista bauruense Adelmo Bertussi, uma obra de engenharia maravilhosa, é muito mais ampla do que aquilo que se conseguirá efetivamente entregar à população. Com certeza a pista contrária jamais será terminada; tão pouco os demais dispositivos viários previstos no projeto original.
Ora-se para que, ao menos, a primeira pista seja terminada. É uma novela que se arrasta há décadas. Concluir esta parcela da obra, neste momento, é o mal menor que se pode esperar. O mal maior já foi feito e o prefeito Agostinho esforça-se em mitigar o imbróglio.
Por outro lado, a concepção do transporte coletivo bauruense remonta à década de 1970. Sempre ampliado através de um "puxadinho" aqui, outro ali. A qualidade, no entanto, é sofrível. Recente pesquisa realizada pela Oficina Consultores apontou que quase 73% dos usuários classificam os serviços como regular, ruim ou péssimo. Caso essa dinheirama fosse investida em transporte público de qualidade, ter-se-ia, hoje, uma cidade com maior qualidade de vida.
Parafraseio o eminente Urbanista (com u maiúsculo) e ex-prefeito de Bogotá Enrique Peñalosa: "A cidade desenvolvida não é aquela em que os pobres andam de carro, mas aquela em que os ricos usam transporte público". Ele não insinuou que se deve usar o transporte coletivo existente na maioria das cidades brasileiras. Mas sim uma nova concepção de mobilidade que venha efetivamente a atrair os usuários do automóvel.
O autor é professor da UFSCar e diretor de Mobilidade da Assenag