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Trágico autoengano

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

A imensa crise social e econômica que há seis anos o mundo está vivendo e que ? segundo dados oficiais da OIT - mantem desempregados ou semiempregados nos Estados Unidos, na União Europeia e no norte do continente africano mais de 40 milhões de cidadãos que viviam honestamente do seu trabalho, foi resultado de uma conjunção diabólica: 1) o autoengano de um certo segmento do setor financeiro que afirmava ter descoberto a pedra filosofal que lhe permitia calcular o risco embutido no futuro, com 2) o mais absoluto laxismo da quase totalidade dos bancos centrais do Hemisfério Norte que acreditaram nisso.

Essa tremenda crise, batizada apenas de "Grande Recessão", confunde o entendimento das pessoas sobre o papel fundamental do "mercado financeiro" que é essencial para o desenvolvimento econômico porque coordena, através da taxa de juros real, a poupança de milhões de cidadãos com as necessidades de financiamento de milhares de empreendedores. Estes expandem a sua atividade para suprir a demanda presente dos mesmos cidadãos cuja poupança lhes será devolvida no futuro, acrescida dos juros. É evidente que essa taxa de juros real revela uma relação de confiança entre o presente e o futuro, o que sugere que ela tem uma cointegração com a produtividade física do capital e está longe de ser um fenômeno puramente monetário.

Em condições normais é através da taxa básica de juro nominal, descontada da "expectativa" de inflação futura da sociedade, que os bancos centrais controlam a taxa de juro real e, consequentemente o nível de atividade e do emprego. O problema é que desde a crise as "condições normais" desapareceram do mapa. Para tentar retornar à "normalidade", no Hemisfério Norte os bancos centrais mudaram sua forma de fazer política monetária e os governos mudaram sua política fiscal. Hoje, quase seis anos passados, essas políticas revelam um resultado paradoxal: taxas de inflação declinantes e uma imensa acumulação de dívida pública, com resultados absolutamente lentos em matéria de crescimento e de emprego.

Nos Estados Unidos, com a taxa de desemprego acima de 6,5% (6,7% em março) que era um dos parâmetros principais do FED para mudar as diretrizes sobre os juros, a comunicação dos membros do FOMC após a última reunião foi que vão olhar para um número maior de indicadores e continuar esperando a taxa de inflação se aproximar em algum momento de 2%, "nos próximos dois anos", antes de decidir sobre a mudança dos juros de curto prazo. As preocupações do comitê de política monetária e de Janet Yellen, a nova presidente do Banco, se moveram para eliminar os ruídos da má comunicação (herdada da administração Bernanke) para convencer o mercado que o programa vai continuar como dantes e que não estão impacientes para aumentar as taxas de juros.

As estimativas são de que as previsões da maioria do comitê (há informações de que dois de seus membros esperam taxas de juros maiores em 2015) apontam para o final de 2015 a revisão do programa. Como a comunicação continua desajeitada, o Brasil tem que estar preparado para qualquer eventualidade; a condição necessária para isso é manter com firmeza a credibilidade da política fiscal.

O autor é economista, ex-ministro da Fazenda

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